Crítica: Sob Pressão e suas camadas narrativas e visuais

A série médica brasileira, que é muito conhecida pela maioria por ter sido indicada ao Emmy Internacional, Sob Pressão existe desde 2017 e é derivada de um filme homônimo, que por sua vez é derivado de um livro chamado Sob Pressão: A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro, de Marcio Maranhão. O drama que tem como um dos criadores Jorge Furtado (Saneamento Básico) tem um crescimento exponencial desde seu longa até a terceira temporada e esse sucesso é refletido nos prêmios recebidos e nas apostas de linguagem cada vez mais apuradas, resultado numa possível maior liberdade dos autores para se arriscarem mais.

Para falar da série é importante destacar a relevância do filme para a criação do universo e da construção das personagens que foram posteriormente melhor desenvolvidas. É claro que um longa não dá conta de detalhar a personalidade e os acontecimentos da vida das pessoas retratadas em uma hora e meia, duas horas. Contudo, vemos no filme um cenário básico: médicos do SUS precisam salvar vidas e, em meio a um caos e questões políticas que fragilizam a saúde no Brasil, eles conseguem, ao mesmo tempo lutar pela eficácia proposta pelo Estado, ainda que não consigam dar conta de tudo, há constante falta de materiais.

 

Como será o fim de Sob pressão? | Blog Próximo Capítulo

 

O protagonista, Dr. Evandro (Júlio Andrade), é uma espécie de MacGyver da medicina, fazendo todo tipo de improviso para ajudar um paciente. Ainda no filme, vemos quando o Dr. Evandro conhece a Dra. Carolina (Marjorie Estiano) e como a relação deles surge primeiro de uma admiração e respeito ao trabalho um do outro. Além da relação entre os personagens, cria-se também uma linguagem dentro do filme que reverbera no seriado. O ritmo frenético vivido dentro dos hospitais é traduzido em imagens. Com muitos planos longos e planos sequências, o espectador pode presenciar um mise-en-scène que representa essa urgência de um pronto socorro sem recursos.

Já nas três temporadas de Sob Pressão, temos em seu início uma continuidade na trama deixada pelo longa. Os acontecimentos ocorrem um ano após a entrada de Carolina no hospital e novas personagens são inseridas na narrativa, mantendo os protagonistas e o diretor do local, interpretado por Stepan Nercessian. A produção é cuidadosa e pode-se perceber o preparo da equipe para a construção de uma obra sólida. A começar pela elaboração dos seres que praticamente habitam o hospital e suas linhas narrativas. Durante três temporadas conseguimos acompanhar o desenvolvimento daqueles que possuem mais relevância para as tramas, sem esquecer também de dar tridimensionalidade para as personagens secundárias. Apesar de ter um certo caráter episódico, com o “monstro da semana”, melhor traduzido como os dois pacientes mostrados, há um hibridismo e sempre temos mais conhecimento sobre quem são aquelas pessoas, o que as trouxe ali, suas paixões, segredos, sempre com muita coerência, sem perder elementos plantados seja no filme, seja no seriado.

 

Globo vai produzir mais duas temporadas da série Sob Pressão

 

Essa construção aqui realizada tem seu ganho em optar por trazer do filme os conflitos da primeira temporada. Ainda que quem não tem visto a obra cinematográfica entenda o enredo, é da morte da esposa do protagonista, o passado ainda não desmembrado de Carolina e os conflitos financeiros do hospital que são base para a principal linha que une os episódios. Seja na dualidade entre o ateísmo de Evandro e a religião da personagem de Marjorie, seja nos laços de amizade construídos pelo cotidiano de plantões de mais de 48h ou nos coadjuvantes como o ambulante Barão, o policial Botelho e a hipocondríaca Dercília que compõe quase que o cenário do local, Sob Pressão é exitosa em envolver o público nas histórias. Ninguém está em cena gratuitamente, os arcos são bem delineados ainda quando são simples e é difícil não torcer, vibrar ou até, às vezes, ter a sensação de que estamos ambientados naquele universo tal qual suas personagens. Há um bom equilíbrio também entre as tensões do cotidiano médico e os alívios cômicos, romances, interesses pessoais. Ao contrário de algumas obras estadunidenses que se demoram a resolver conflitos, como House, por exemplo, esta narrativa sempre anda pra frente, encontrando um equilíbrio de ritmo, sem pressa, mas, sem enrolações.

 

Marjorie Estiano é indicada ao Emmy por seu papel em "Sob Pressão ...

 

Contudo, não é só no desenvolvimento da trama e na construção do enredo que o seriado tem mérito. Assim como nos produtos estadunidenses, a televisão tem se preocupado cada vez mais em não só criar tramas que prendam seus espectadores, mas, competir com obras que possuem alta qualidade estética. O padrão técnico visual de Sob Pressão é afinado e tem dois principais elementos que juntos permitem um efeito impactante tanto no sentimento do público que se vê imerso nas situações apresentadas, tanto, para aqueles que entendem mais da linguagem, eles são a decupagem e a montagem. Em cenas de alívio de tensão, como quando surge uma conexão entre duas personagens ou uma família passa por um drama que denomino aqui a grosso modo de ˜drama de versus˜- por exemplo, crença religiosa x a vida de um filho, uma cena onde o filho está cuidando da mãe no leito, etc, temos planos mais clássicos. (ALERTA DE SPOILER!!) Podendo ser, um plano mais aberto, que ambiente o público sem precisar de diálogos para explicar o acontecimento: em uma enfermaria mais vazia, onde tem-se o local mais reservado do hospital, vemos uma adolescente que tentou suicídio inconsciente. Mais distante dela, está o seu pai, que conversa com Carolina para saber as novidades do caso.

O plano aberto nos ambienta do que está ocorrendo.  Vê-se a figura paterna distante, representando uma tradução de sua filha com ele, ao mesmo tempo, conseguimos ver que Carolina está numa posição privilegiada para assistir os fatos que irão se suceder na cena. A garota acorda, depois de um tempo no plano aberto, temos um plano mais fechado, o público pode comprovar a expressão de pânico da adolescente. Em seguida, a menina pula pela janela, novamente em um plano mais aberto onde pode-se ver o pai, Carolina e o salto. Entre o momento do susto e o pulo, um contraplano da reação da personagem de Estiano que, a essa hora já sabemos que sofria assédio em sua infância, e a certeza de que a garota passa pelo mesmo que ela. Nesta cena do segundo episódio da primeira temporada, os diálogos são breves, não há muito o que dizer, a decupagem* fala por si só. O elo narrativo constrói aquele momento de já desconfiança em relação à figura paterna por conta do passado de Carolina, a escolha de planos somente acrescenta, sem redundâncias, a visão da personagem do que acontece em sua frente. A câmera é um reflexo dos sentimentos da médica e as escolhas da sucessão de imagens bem decupadas é um trunfo da montagem que optou por reforçar a sensação de pânico da adolescente somente deixando os planos próximos para ela, sem desprivilegiar as opções da direção de mostrar a vulnerabilidade da menina e a impotência das figuras que poderiam ter a oportunidade de impedir a outra tentativa de suicídio.

 

terceira temporada de Sob pressão | Blog Próximo Capítulo

 

Esse é um dos exemplos da cuidadosa decupagem que é criteriosa e busca expor elementos da história sem diálogos óbvios e didáticos. Até porque, como é um produto para TV aberta, as personagens já passam muito tempo explicando detalhadamente doenças, casos, mensagens de representatividade ou algo do tipo, já há didatismo demais nessa parte. Portanto, os sentimentos, as urgências, a sensação do que se é vivido dentro do hospital é totalmente visual e sonoro. A união entre mise-em-scène e o passeio da câmera pelo hospital também carregam uma intenção da série tanto de mostrar a correria sem fim de um pronto socorro do SUS, mas, a direção também se aproveita disso para nos localizar geograficamente. Da primeira para a segunda temporada, quem acompanha de fato o seriado, já conhece onde ficam as salas de cirurgia, a enfermaria, a porta onde Evandro risca cada paciente que perde.

Os cenários têm histórias e narrativamente o espaço onde as personagens estão são usados para recorrer em temas ou sabe-se que os diálogos mais difíceis com os familiares são perto da escada, próxima a sala de cirurgia. E isso é possível graças aos planos longos onde os atores perfeitamente marcados, conseguem dar um realismo ao que acontece em cena. Já na terceira temporada, no décimo episódio, já quando as personagens estão em outro hospital, o São Tomé, vemos um exemplo de plano sequência orquestrado com maestria. A situação é: a milícia e a policia estão em confronto. O chefe miliciano invade o hospital e obriga Carolina e Evandro a salvarem sua vida. Dividido em três planos sequência (reforçando: com apenas três cortes em mais de uma hora), passeamos energicamente pelo São Tomé desde a primeira cena. A cadência é controlada, no sentido que a temperatura vai crescendo com paciência. Começamos no clássico caminhar da câmera que mostra o que está acontecendo com cada núcleo, todas as tramas que serão desenvolvidas são exibidas.

A câmera começa sem pressa, calma, com planos mais abertos que situam onde está quem, fazendo o que. O hospital está tendo um multirão e muitos pacientes estão presentes.  Entre os match cuts** entre um médico e outro, todo o cenário é “plantado”, a organização espacial é clara. E esse princípio serve, não só para essa consciência de espaço, mas também para nos lembrar e reforçar como estão bem os protagonistas, no auge do casamento, com Carolina esperando um filho. A câmera que estava movimentando-se, não mais anda, ela para, se movendo para vermos com bastante clareza as expressões dos dois. Em seguida, após ambientar, o plano sequência é utilizado para reforça a atmosfera de instabilidade. A chegada do miliciano traz uma urgência e uma pressa na movimentação da câmera. É destacável como há essa mudança. O olhar de um espectador já habituado à série vê dois médicos levando um paciente numa maca. O plano é fluido, podendo nos deixar focados nessa ação. Quando vemos Carolina, ela está para falar com Evandro, que entra na sala de cirurgia, no meio do movimento ela é parada pelo bandido. A fluidez é cortada, a rotina do hospital mudou e agora o ritmo será ainda mais frenético.

 

Sob Pressão | Evandro e Carolina atendem professora agredida por ...

 

Ela quase corre e, ao mesmo tempo, reflete o olhar de Carolina que se preocupa em ser vista. Por isso, ao mesmo tempo que é veloz, o plano mostra que está ao seu redor, horas acompanhando a visão da médica, horas mostrando as ações ao seu fundo. O auge desse momento é quando Carolina entra no elevador e quando ele está prestes a subir, Evandro pede para esperar, mas, termina vendo Carolina indo com o miliciano. A organicidade em que o plano vai do elevador para o rosto do protagonista para a sua subida das escadas reflete o bom posicionamento dos atores e a relação dos mesmos com a câmera, além do reconhecimento do espaço e o possível planejamento e perfeccionismo que um plano sequência bem executado exige.

Os dois episódios citados são somente exemplos primeiros que surgem na mente quando penso na série. Essa que vos escreve percebeu que , talvez, seja uma obra que mereça uma análise de temporadas onde se possa destrinchar mais cada episódio, afinal, há sim uma riqueza narrativa, uma habilidade em saber quais os temas merecem uma visão mais distanciada e uma direção mais contidas e quais os temas jogam a adrenalina do espectador para cima. A união dos episódios formam temporadas concisas e coerentes e um arcabouço total que dá certa curiosidade conferir a Bíblia dessa produção, ver os storyboards e afins.  Termino esse texto lembrando que estamos em tempos de coronavírus e que a próxima temporada deve se passar nesse momento e os médicos do sus mais competentes do país vão ter que lidar com essa pandemia que nos deixa em quarentena. E, nessa quarentena, talvez, uma boa pedida seja maratonar as três temporadas de Sob Pressão, que, apesar de viciante, pede um coração de ferro para resistir a todas as loucuras que  Carolina e Evandro vivem. Até quando vão comprar um colchão…mas, isso já é outro papo.

 

Trailer:

 

 

*Decupagem: o termo se deriva da palavra francesa découpage (recortar), utilizado para traduzir a intenção de dar forma. No cinema, é quando o diretor, com ou sem o diretor de fotografia, divide cada cena em planos e escolhe como cada um deles se conectará com o outro. Ex.: plano aberto para close.

** Chama-se de Match Cut ou Raccord a transição entre um plano e outro, o corte na edição que há uma correspondência entre os dois, no movimento ou temática, criando um link entre ambos.

 

Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Comédia em Série: “Os Normais” e o legado de Fernanda Young

No dia 25 de agosto de 2019, acordei com a notícia da morte de Fernanda Young. Não pude acreditar na partida de uma mulher tão viva em minhas memórias. Eu ainda sonhava que nos conheceríamos!! Mas, quem sabe numa outra vida? Passei o dia pensando em seu trabalho, no quanto ele me inspirou e me mostrou coisas que eu nem imaginava em plena que uma mulher podia falar e fazer, me mostrou que ousar era possível. Em sua homenagem, a coluna de hoje falará sobre sua obra mais famosa e querida pelo público: Os Normais.

A série foi exibida entre 2001 e 2003, nas noites de sexta-feira, na Rede Globo. Eu lembro de assistir ao seriado escondida, com minha tia, e de não entender metade das piadas, mas adorar o quanto aquilo parecia novo e divertido. A abertura icônica, com todos aqueles rostos brasileiros e diferentes entre si, a música brega que dizia “Você é doida demais!”. Por sinal, o cantor e compositor da música, Lindomar Castilho, chegou a ser preso por matar a própria esposa que tinha um caso com o primo do cantor, mas foi solto em pouco tempo. Peço perdão aqui pela curiosidade traumatizante!!!

 

 

O casal Rui e Vani eram protagonistas da produção e dos diálogos mais mirabolantes, sem noção e verdadeiros que a nossa TV já viu. Interpretados por Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães, que estavam no auge da juventude e dos seus corpos sarados, o casal vivia semi nu em cena, expondo o corpo, a neurose e mau caratismo do par favorito dos brasileiros. Noivos por toda a eternidade, representavam um arquétipo moderno dos casais da virada do século XXI, do desapego e da liberdade. Isso sem largarem um do outro, claro.

Usando o formato de sitcom, Fernanda Young e Alexandre Machado, seu marido e parceiro em diversos trabalhos, brincavam com a linguagem, colocando Rui e Vani para conversar com o público e até para convidá-los a participar de suas discussões sem sentido. Chegando a fazer piadas sobre a qualidade da série, sobre a emissora e até sobre os seus espectadores, Fernanda nunca subestimou sua audiência. Lembro que a comédia era uma das coisas mais comentadas da época e que marcou pela sua ousadia. 

 

 

Fernanda fez outras diversas séries, como Os Aspones” – uma espécie de The Office brasileiro que talvez fosse sofisticada demais para o seu tempo-; Minha nada mole vida, Comédia da Vida Privada e sua mais recente Shippados. Ela também atuou, escreveu romance, poesia, apresentou programa de TV e falou o que muita gente preferia deixar calado. Foi e sempre será um exemplo de frescor e ousadia, um tapa na cara dos caretas.

 

 

*Laize Ricarte é comediante, roteirista e cineasta.

Terror em Série: O Escolhido – Homem de Fé, Mulher com a Razão

O cinema brasileiro de terror vem crescendo cada vez mais e nomes como Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Juliana Rojas, trazem uma diversidade e características próprias a esses filmes. Produtos de gênero têm cada vez mais espaço e há um crescimento de produção e distribuição.

O público nacional é um dos públicos que mais consome terror no mundo. Mas, ainda existe certo preconceito de muitos espectadores para assistir produtos que lidam com o fantástico e O escolhido traz características que podem ajudar a reforçar essa crença de falta de qualidade nos filmes e séries de gênero brasileiros.

 

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A nova série da Netflix traz uma premissa interessante: médicos tentam extinguir o vírus zika do Pantanal, porém, no caminho, acabam achando uma estranha cidade onde ninguém fica doente, ninguém morre. Parece um bom argumento para ser vendido num pitching, por exemplo. Uma história que quando alguém conta tem sim certo impacto. Narrativamente, fora essa boa ideia, pouco caminha positivamente.

A questão principal de O escolhido são os diálogos. Textos engessados, ditos de maneira robótica, dificilmente conseguirão criar uma conexão com o espectador. Cenas inteiras para explicar acontecimentos, como funciona a cura feita pelo Escolhido. A maneira como a progressão dos fatos acontecem são dispensáveis, isso porque muito do mistério é desnecessário já que de pronto se entende o que está acontecendo na história. O fruto dessa tentativa de criar certo suspense são momentos em que o roteiro busca confundir o espectador, colocar obstáculos para ele demorar de chegar em alguma conclusão.

 

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Então, a série termina sendo um amontoado de explicações que são sempre revogadas ou colocadas em dúvida, mais atuações que despertam pouca crença na mitologia da série. Além disso, as personagens são mal desenvolvidas, o arco dramático de cada uma delas não consegue nem provocar empatia do espectador, nem deixar claro como as mesmas pensam e/ou se sentem em relação aos acontecimentos. Os habitantes da cidade dizem somente coisas clichês, frases de efeito. Os médicos, um pouco mais elaborados, tomam atitudes que movem pouco a trama para frente e são bastante previsíveis. Já o escolhido, é o rei das frases de efeito e diz suas falas de maneira empolada, cheio de gestos, mas, não imprime nuances em sua interpretação.

O seriado é bem filmado e tem seus bons momentos visuais. A escolha de enquadramentos consegue traduzir bem o olhar da protagonista, Dra. Lúcia, e a câmera escolhe bem o que mostrar durante as cenas onde o espectador entende aquele universo da mesma maneira que a médica. Talvez se a série focasse menos em diálogos e mostrasse mais momentos de percepção do fanatismo sem muitas explicações, deixando espaço para o público elucubrar, teríamos uma obra de mais qualidade. O fim da temporada deixa um cliffhanger interessante, se houver mais episódios a expectativa é de uma melhora, até porque há verdadeiro potencial para se explorar.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Br em Série: Cordel Encantado, a novela que vale a pena ver de novo e de novo

Como falar de produtos seriados brasileiros e não falar de telenovelas? Apesar das mudanças que vêm ocorrendo no consumo televisivo nos últimos anos, e da permanência do preconceito estético em relação à enredos melodramáticos (ou “novelescos”), que supostamente elencam discussões sobre manipulação e alienação, elas ainda estão entre os principais gênero audiovisuais consumidos no Brasil.

Por certo, levando se em conta a longa história e quantidade de novelas produzidas, é compreensível, que assim como as séries, nem todas tenham sucesso, ou sejam produtos minimamente interessantes. O fato de serem exibidas em canais televisivos, ou seja, seguirem uma programação de horários fixos diários, tem contribuído para subtrair cada vez mais o número de espectadores que migram para as plataformas streaming. Porém, ainda é possível ver algumas “quebra-regras” como no caso da novela Cordel Encantado, escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes.

 

 

A novela Cordel Encantado nos apresenta uma fábula que se estabelece a partir do encontro de dois universos fictícios, um reino europeu, Seráfia, e o sertão nordestino, Brogodó. A trama oferece referências, misticismo, humor e romance, na mistura de literatura de cordel (cultura popular) com a tradição europeia. A obra não só obteve bastante sucesso de público e crítica em sua primeira exibição na Globo em 2011, no horário de 18h, como também deixou sua marca no horário da tarde, finalizando com notável sucesso, no 03 de maio 2019, sua curta reprise no Vale a Pena Ver de Novo.

 

Inovações narrativas com base na mistura de clássicos

Oito anos depois, a novela de direção de Amora Mautner, mostrou que seu sucesso não foi pontual. Exibida no programa Vale a Pena Ver de Novo, bateu recordes de audiência, em um horário de pouco valor (entre 15h e 17h). Esse sucesso alcançado por Cordel Encantado se explica, logicamente, por suas muitas qualidades, primeiramente narrativas, visíveis desde o primeiro capítulo, e também como um sinal do cansaço do público com o modelo que tem dado a tônica da maioria das novelas nos últimos anos.

Ao invés do uso abusivo de realismo e naturalismo próprio da maioria das telenovelas, Cordel apostou em criar um mundo encantado próprio, da combinação dos contos de fadas com uma ambientação bem regional. O enredo traz elementos da literatura de cordel e das histórias do sertão, relembrando a celebridade que carrega esse tipo trama, como, por exemplo, Auto da Compadecida. O ritmo instigante e ágil, mas que não deixava de dar tempo necessário para que o público conhecesse os personagens e embarcasse na história, é sentido do primeiro ao último capítulo.

 

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A favor da novela também pesa o quesito tempo, na comparação com as novelas, teve a duração mais curta dos capítulos (40 minutos) e um menor tempo de permanência no ar (cinco meses). As autoras não adiaram nenhuma resolução. As tramas eram propostas e logo solucionadas de maneira adequada. Isso não só ocorreu com as subtramas, mas também o mote principal, como por exemplo, a revelação que Açucena (Bianca Bin) era a princesa perdida, ainda logo no início da novela. É comum ver novelas se arrastando com tramas simples por vários capítulos, ou mudando o enredo apenas pelo sucesso da obra com o público (o tão falado hoje, “fanservice”).

No entanto, esta “ligeireza” foi responsável, mais para o final da narrativa, por cair na famosa “enrolação”. Houve uma fase em que, semanalmente, o vilão o Timóteo (Bruno Gagliasso) tramava alguma emboscada ou malvadeza e Jesuíno (Cauã Reymond), o herói, descobria e salvava a princesa e/ou a cidade. Porém, para quem gosta (ou no mínimo sente nostalgia) dos contos de fadas, isso não interfere na apreciação da obra, principalmente porque esse suposto chicerismo se quebra quando se percebe que a princesa é uma nordestina, o mocinho é filho de cangaceiro e o vilão um louco mimado filho de coronel.

A expressão fanservice tem sua origem no universo dos animes e consiste na introdução de elementos supérfluos, com o simples objetivo de entreter o público. No entanto, o termo foi sendo gradativamente incorporado por outros domínios fictícios, agregando mais e mais amplitude ao seu significado. Diálogos pretensiosos, casais extremamente forçados, personagens tendo suas personalidades radicalmente alteradas do nada. Esses são alguns exemplos de fan services mais recorrentes dos produtos seriados (lembrou de algum?). A intenção esse tipo de estratégia é manter o público fiel e extrair dele reações positivas para conservar e até elevar o hype do programa.

 

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A diversão oferecida ao longo dos meses superou, de longe, esta limitação. O saldo de Cordel Encantado é positivo e  entra para o seleto grupo de novelas que o espectador lamenta quando termina, não é à toa que voltou à Globo. A reprise, inclusive, causou menos a sensação de enrolação, pois foi reeditada para o horário da tarde, e perdeu esses “excessos”.

Outra inovação narrativa é a inversão da ordem de exibição do último e do penúltimo capítulo. O da véspera é típico dos finais novelescos, cheio de emoção e desfechos, incluindo a morte do vilão Timóteo e o casamento de Jesuíno e Açucena em Seráfia. Já o final, praticamente não tem emoção nem surpresas, exceto pela apresentação de um novo vilão, dando brecha, quem sabe (talvez) para uma continuação.

 

Qualidade e cuidado ao detalhes: Música, figurinos e inovações tecnológicas

 

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Além dessas inovações narrativas, e de um elenco bem escalado, a direção de Amora Mautner e de Ricardo Waddington foi feliz em muitos outros aspectos, como em trazer o padrão de cinema (24 quadros por segundo) para a fotografia (inclusive com cenas aéreas belíssimas dos dois cenários e closes generosos no elenco). Também a qualidade dos figurinos, e da iluminação não ficam atrás. As vestimentas primorosas de época poderiam ilustrar modernos editoriais de moda. Por sinal, um elogio as personagens femininas, que mesmo numa trama de princesas, sertão e cangaço, são fortes cada uma em seu jeito particular. Daria para escrever um artigo sobre cada personagem.

O que fica um pouco problemático é a questão da regionalidade. Vê-se que há uma pesquisa e cuidado quando se trata de situações da história do sertão nordestino (ainda mais se referindo a um período antigo), e o fato de se passar em uma cidade fictícia, tira um pouco o peso da representação. Mesmo assim, é possível ver alguns sotaques mais exagerados e estereotipados. Também faz falta mais atores e atrizes nordestinas, apesar de este ser, o melhor papel da vida de muitos atores do elenco.

 

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Outra questão é em relação a trilha sonora, artifício forte das telenovelas. Algumas pessoas sentiram falta de músicas e músicos mais tradicionais do cordel e do sertão (o que seria uma ótima forma de divulgação), porém, creio que trazer, Alceu Valença, Karina Buhr, Lenine, Zé Ramalho, Núria Mallena, entre outros, efetiva essa sensação de nostalgia e regionalismo da trama. Inclusive a abertura, cantada e contada por Gilberto Gil e Roberta Sá, consagram a combinação entre regional e moderno.

A novela se despediu mais uma vez levando seus personagens, cenários e músicas. Foi se embora com seu conto de fadas, suas referências literárias, à História, e a filmes famosos, com seu toque pop e moderno. Só resta esperar por outra reprise, ou quem sabe uma continuação, e lembrar que até as novelas, com criatividade e respeito a nossa história e tradições, podem ser muito mais que melodramas manipulativos ou sem conteúdo.

 

 

*Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

Terror em Série – American Horror Story: Roanoke e suas múltiplas reviravoltas

A sexta temporada de American Horror Story (AHS) foi exibida em 2016 e trouxe uma tentativa de dar uma complexidade maior para suas tramas, focando em três camadas narrativas diferentes que vão se desenrolando durante os episódios. Além disso, paralelamente, ela mostra o passado da casa na qual a história está centrada.

A narrativa começa bem, mas deixa suspeitas de que talvez se encaminhe por um rumo um pouco repetitivo, trazendo ares muito semelhantes aos de Murder House. Na trama, o casal Matt e Shelby se mudam para uma misteriosa residência, que possui um secreto e sombrio passado. E a história daquele lugar remete bastante à atmosfera da terceira temporada (Coven), onde Kathy Bathes interpreta mais uma vez uma mulher sanguinária, a personagem Thomasin, a açougueira.

 

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Mesmo com as semelhanças, os episódios são consistentes e apresentam um elemento novo: no enredo, uma produção está realizando um documentário sobre os acontecimentos da casa. O tom quase metalinguístico, com pitadas de mocumentário, traz um tom de suspense e uma impressão de que tudo pode acontecer. O risco, algo visto nas obras de terror, se mostra maior, alimentando bem a curiosidade do espectador, dando poucas chaves e abrindo muitas possibilidades.

E aí que mora o maior problema de Roanoke. Muitas portas são abertas e é difícil se conectar com qualquer possibilidade. Após o sucesso da primeira temporada da série ficcional que o público vê na história do seriado, partimos para o segundo ano, agora, com atores interpretando todos os envolvidos na trama. A equipe realiza tudo na mesma casa onde todas as mortes aconteceram. A partir disto, a narrativa se modifica por completo e a metalinguagem e crítica aos realites shows, são substituídos por jump scares baratos e uma grande falta de coesão narrativa.

 

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A relação entre as personagens novas é mal construída e o valor das mesmas parece inexistente. Como elas não possuem um elo forte de ligação com o público, vão se amontoando em mortes diferentes a cada episódio, substituindo aquele suspense característico da série, pela constante procura em provocar medo com fantasmas e assombrações cada vez mais assustadores.

É essa tentativa constante de superar tudo antes já visto no seriado que destrói qualquer forma de conexão que poderia surgir, é extremamente forçada a busca de surpreender. Talvez o maior louro de Roanoke seja a crítica, até um pouco simplista, da sede de sangue que o público estadunidense possui de ver a desgraça alheia. Porém, nada que Black Mirror já não tenha feito em seus primórdios. O sexto ano de AHS fica um pouco no meio do caminho de tudo.

Sobre as intercessões com as temporadas anteriores, os principais destaques são: a primeira bruxa suprema – numa referência à Coven – e a presença de Lana Winters – de Asylum – uma escolha sempre acertada de Murphy. Para os fãs da série, só restou conferir os episódios e esperar pela temporada seguinte, muito superior e que traz de volta o suspense e os dramas que unem psicológico e sobrenatural, explorando o que American Horror Story faz de melhor: encontrar o terror dentro das pessoas mais inesperadas, desvendar almas sombrias de lugares menos prováveis. A quinta  e a sexta temporadas do seriado quase provocaram seu downfall, mas, a mesma se recupera com louvor. Mas, vamos deixar para o próximo mês!

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Santa Clarita Diet – a comédia mais desconfortável e sem graça que você já viu

por Enoe Lopes Pontes

Drew Barrymore em um seriado da Netflix sobre zumbi e assassinatos em um subúrbio dos Estados Unidos, tudo isso em um clima de humor sombrio? Parece uma premissa extremamente instigante e curiosa por condensar gêneros distintos, uma atriz já tão conhecida no cinema e uma empresa que produz séries populares. Porém, a qualidade de Santa Clarita Diet para por aí.

 

Criada pelo produtor Victor Fresco (Meu nome é Earl), o seriado conta a história de uma família comum, de um bairro de classe média estadunidense, que um dia precisa lidar com o fato de que a progenitora, Sheila (Barrymore), virou um zumbi. Para introduzir o público para esta realidade a narrativa conta com doses generosas de escatologia gratuita usada apenas para provocar a graça. A quantidade de vômito que a “mamãe zumbi” despeja no piloto é imensa e totalmente desnecessária porque o efeito cômico não cola, justamente por parecer forçado e bobo.

Falando no piloto, este é o mais sofrível, pois ele é o que mais segue a lógica do nojento exagerado, porém não é somente isso. O primeiro episódio não tem ritmo, os atores principais (Drew Barymore – mãe, Timothy Olyphant – pai; e Liv Hewson – filha) não tem dinâmica, muito menos química e deixam o texto morrer em cada fala e isso faz com que cada ator que comece a dizer o texto precise recuperar o fôlego o tempo inteiro. A narrativa do 01×01 também não favorece os artistas. Os diálogos e as imagens são muito expositivos em diversos momentos, como na cena em que eles mostram Sheila comendo a carne crua e “dando uma aula” do porquê está fazendo aquilo.

 

Apesar de todos estes engasgos, os episódios seguintes conseguem amenizar a reputação da série e até criar uma curiosidade no espectador, que se pergunta qual o motivo da protagonista ter virado um zumbi e qual será a cura para a moça. Além disso, a química de Olyphant e Barrymore vai se ajustando episódio a episódio. Eles parecem compreender, aos poucos, quem são aquelas personagens, suas motivações e a vida pregressa do casal, o que faz as cenas dos dois juntos crescerem consideravelmente.

Santa Clarita Diet começa um tanto desastrosa por não conseguir se segurar em nenhum quesito técnico. O roteiro, apesar de ter uma história boa, tem uma narrativa que subestima o público e que não consegue ser engraçada, mesmo sendo uma comédia; tem atores inseguros, que dão a impressão de que começaram o trabalho de ator no piloto; ou porque a direção é preguiçosa e entrega sequência atrás de sequência, cheia de imagens previsíveis, fazendo com que o espectador antecipe o que vai acontecer.

 

Entre os episódios 01×04 (O turista sexual) e o 01×06 (Atenção aos detalhes), os acontecimentos parecem mais justificáveis e a narrativa segue algum caminho. As personagens precisam de alguma resposta, as músicas casam com a atmosfera das cenas, – porque sim, nos episódios iniciais é possível notar uma falta de coerência das canções com o conjunto de sequências na tela – os atores não deixam o ritmo de lado e deixam os diálogos mais afiados. Ainda não é o suficiente, mas fica uma sensação de que a série pode crescer. Do 01×07 (Será estranho ou Desrespeitoso) até o 01×09 (O livro!), a qualidade é inconstante. Ainda que eles consigam manter a curiosidade de quem assiste.

Após construir toda uma situação (sem spoilers) lógica, inserindo novas personagens para ajudar no caminho da protagonista, entregando pistas para o mistério da temporada, retirando algumas figuras, parecendo mostrar que há um esforço para o crescimento da qualidade técnica – planos mais elaborados e diferentes, dando mais ação; uma procura em mostrar faces diferentes das personas em cena para dar a elas mais complexidade; banda sonora coerente e etc – Santa Clarita Diet entrega uma das piores season finales já produzidas.

 

O mais comum em uma série de televisão que possui um mistério é um conjunto de tensões crescentes com um cliffhanger no final, para que os espectadores fiquem curiosos e voltem na temporada seguinte. O que ocorre em Santa Clarita é um desgaste do tema e da proposta do seriado tão forte que eles abandonam soluções precisas para a protagonista para forjar uma tensão sem sentido e terminar com uma tentativa de final surpreendente. Isto porque a solução estava quase pronta e a Netflix provavelmente deseja continuar com o projeto.

 

Talvez se Santa Clarita Diet fosse uma minissérie o desgaste da história seria menor, o trabalho de pré-produção fosse mais cuidadoso e houvesse mais empenho em trazer uma primeira temporada mais digna. Mas tudo isso é apenas elucubração. A sensação ao terminar a season 1 é de frustração e um desejo que a segunda parte da história seja contada com uma técnica mais bem pensada: não apenas plano geral e close o tempo inteiro, mais ritmo cômico, melhor entrosamento do elenco, mais expressões faciais e menos artificialidade dos atores, escolhas que façam sentido e não apenas queiram causar choque gratuito – o público já entendeu que Sheila gosta de comer humanos batidos no liquidificador – mais comédia e menos sonolência.

Nota: 4,0

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