Crítica: Entre altos e baixos, “Forever” entrega uma temporada coesa

Caminhando para uma jornada totalmente oposta a do herói, a protagonista de Forever, June (Maya Rudolph), começa extremamente infeliz dentro da história e anda em direção da sua felicidade, posteriormente. Mais do que isso, ela parece demonstrar estar paralisada diante de todo o fracasso que foi e tem sido sua vida. Ela atribui estas sensações e derrotas ao seu casamento com Oscar (Fred Armisen). Toda esta estrutura é posta no piloto da série, que já ambienta ali, de forma bastante eficaz e direta, o cotidiano do casal.

Criado por Matt Hubbard (The Stones) e Alan Yang (Master of None) e produzida pela Prime Video,  o seriado consegue imprimir estilisticamente as sensações vividas pelas personagens. Através de cores predominantemente amarronzadas e pastéis e de planos fixos de situações repetidas há uma atmosfera de tédio estabelecida. Contudo, isto não é um elemento que afeta a dinâmica da obra e a deixa enfadonha. O fator central disto é a quantidade de plot twists existentes, principalmente nos três primeiros episódios.

Durante este período da trama os sustos e surpresas são tão fortes que o espectador pode passar a temporada inteira tenso, esperando a próxima reviravolta. Nesta mescla de suspensão ão e melancolia, a progressão de June é posta. A cada momento ela vai se descobrindo e compreendo suas próprias necessidades. A maneira como foi escrita é o principal ponto de qualidade. Existe uma complexidade nela, desde a sua maneira de expressar seus pensamentos até as ações que performa. No entanto, a atuação de Rudolph acrescenta mais camadas para June.

 

Forever' Finale Explained: Alan Yang Talks Big Twist, Potential ...

 

Através de seu processo de criação, ela entregou uma figura extremamente transparente em suas emoções, porém com movimentos muito pequenos, seja no rosto ou no corpo inteiro. O tom da sua voz, geralmente, não casa com o que ela está dizendo e demonstrando nas suas expressões. Este comportamento vai, gradativamente, mudando e a intérprete vai revelando outros tipos de movimentos e deixando que exista uma unidade entre o que June quer dizer e diz.

Apesar de possuir bons atores e conseguir criar esta vontade de maratonar, por apresentar um clima de possíveis novas ocorrências o tempo inteiro, Forever tem dois problemas que incomodam intensamente. O primeiro é a existência do 1×06, momento da produção que parece mais um filler do que qualquer outra coisa. Ele pouco traz para o enredo em si e está ali muito mais para reforçar algo que já foi compreendido bem antes na projeção: a questão de aproveitar as chances que o destino oferece antes que seja tarde. O que acaba sendo um tanto repetitivo. Ainda há o fator de duas novas figuras serem introduzidas (Andre e Sarah), para logo depois serem descartadas.

Outra questão que deixa a desejar é a construção da relação de June e Kase (Catherine Keener). Ao mesmo tempo que as duas parecem namoradas, após o distanciamento de June e Oscar, o relacionamento da dupla tem uma crescente que é interrompida por uma suposta dúvida de June que, na verdade, soa como uma confusão dos próprios roteiristas. Eles colocam elas dentro de piadas sobre lésbicas, por exemplo, o que faz se pensar até onde aquilo é posto no texto apenas para ser um mero conflito e ganchos para pinceladas cômicas.

Ainda assim, no geral, Forever entrega um resultado equilibrado, quase mediano, porém um pouquinho acima da média. Isto se deve à dinâmica de Rudolph com Armisen, que jogam através dos diálogos, fazendo com que as cenas sejam mais instigantes, por conseguirem deixar o tom cotidiano e distanciado ao mesmo tempo. A expectativa do próximo plot twist também segura quem assiste a continuar interessado na narrativa.

 

Crítica: Novo thriller adolescente da Netflix imprime qualidade técnica e discurso afiado

Nesta semana, a Netflix lançou uma nova série brasileira. Boba a Boca é um thriller adolescente, criado por Esmir Filho (Saliva). A direção da maioria dos episódios também é sua. Ele divide o posto com a cineasta Juliana Rojas (As Boas Maneiras), que comanda o 1×05 e o 1×06. Em seu resultado geral, a produção entrega um equilíbrio significativo de qualidade, com bons atores, diálogos e discurso. No entanto, é possível, ainda, destacar o seu ápice em sua mise-en-scène e em sua decupagem, sendo elas os elementos que mais se sobressaem.

Desde os primeiros minutos do seriado é possível enxergar a sua estilística e que ela está ali para fomentar o que se deseja contar. O azul e o rosa, por exemplo, são predominantes durante toda a exibição. Isto cria uma espécie de dicotomia, que revela não apenas as dualidades e complexidades das personagens dentro da narrativa, mas também dos papéis impostos pela sociedade. Os enquadramentos e cortes também elevam a potência da história desenvolvida na tela. Os quadros diversificados em uma mesma sequência desnudam as personagens, como quando mesclam planos detalhes com os mais abertos, aumentando esta característica e também o nível de tensão nas relação ali mostradas.

 

Boca a Boca" é a série brasileira da Netflix que traumatiza quem ...

 

Apesar de já se iniciar intensa e com uma dinâmica de simulação de velocidade, a obra consegue criar uma espécie de progressão dentro de sua própria lógica. Em alguns momentos, seja pelos acontecimentos ou como a equipe técnica escolhe fazê-los, o ritmo cai, pois tudo parece frenético, sem respiros. Contudo, isto não compromete o seu resultado total, principalmente porque isto se justifica, em partes, pelos próprios rumos do enredo e daqueles indivíduos que estão inseridos na trama.

Por fim, vale destacar a presença de atores de peso no elenco como Grace Passô (Temporada), Thomas Aquino (Bacurau) e Denise Fraga (De Onde eu Te Vejo). Todos os três intérpretes trazem um trabalho afinado, com criações muito certeiras. Ainda que apareçam em momentos pontuais, a cena cresce diante da presença deles. Entre o trio, o ponto alto é a performance de Fraga. Criando uma Guiomar Araújo que passa ações muito calculadas, através de muito tônus, consciência corporal e espacial, ela vai imprimindo lentamente as fragilidades daquela figura que parece imponente e autoritária no início, mas que vai revelando fragilidades e até retirando certas tensões físicas para aumentar essa multiplicidade na personalidade de Guiomar.

 

Crítica: Sob Pressão e suas camadas narrativas e visuais

A série médica brasileira, que é muito conhecida pela maioria por ter sido indicada ao Emmy Internacional, Sob Pressão existe desde 2017 e é derivada de um filme homônimo, que por sua vez é derivado de um livro chamado Sob Pressão: A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro, de Marcio Maranhão. O drama que tem como um dos criadores Jorge Furtado (Saneamento Básico) tem um crescimento exponencial desde seu longa até a terceira temporada e esse sucesso é refletido nos prêmios recebidos e nas apostas de linguagem cada vez mais apuradas, resultado numa possível maior liberdade dos autores para se arriscarem mais.

Para falar da série é importante destacar a relevância do filme para a criação do universo e da construção das personagens que foram posteriormente melhor desenvolvidas. É claro que um longa não dá conta de detalhar a personalidade e os acontecimentos da vida das pessoas retratadas em uma hora e meia, duas horas. Contudo, vemos no filme um cenário básico: médicos do SUS precisam salvar vidas e, em meio a um caos e questões políticas que fragilizam a saúde no Brasil, eles conseguem, ao mesmo tempo lutar pela eficácia proposta pelo Estado, ainda que não consigam dar conta de tudo, há constante falta de materiais.

 

Como será o fim de Sob pressão? | Blog Próximo Capítulo

 

O protagonista, Dr. Evandro (Júlio Andrade), é uma espécie de MacGyver da medicina, fazendo todo tipo de improviso para ajudar um paciente. Ainda no filme, vemos quando o Dr. Evandro conhece a Dra. Carolina (Marjorie Estiano) e como a relação deles surge primeiro de uma admiração e respeito ao trabalho um do outro. Além da relação entre os personagens, cria-se também uma linguagem dentro do filme que reverbera no seriado. O ritmo frenético vivido dentro dos hospitais é traduzido em imagens. Com muitos planos longos e planos sequências, o espectador pode presenciar um mise-en-scène que representa essa urgência de um pronto socorro sem recursos.

Já nas três temporadas de Sob Pressão, temos em seu início uma continuidade na trama deixada pelo longa. Os acontecimentos ocorrem um ano após a entrada de Carolina no hospital e novas personagens são inseridas na narrativa, mantendo os protagonistas e o diretor do local, interpretado por Stepan Nercessian. A produção é cuidadosa e pode-se perceber o preparo da equipe para a construção de uma obra sólida. A começar pela elaboração dos seres que praticamente habitam o hospital e suas linhas narrativas. Durante três temporadas conseguimos acompanhar o desenvolvimento daqueles que possuem mais relevância para as tramas, sem esquecer também de dar tridimensionalidade para as personagens secundárias. Apesar de ter um certo caráter episódico, com o “monstro da semana”, melhor traduzido como os dois pacientes mostrados, há um hibridismo e sempre temos mais conhecimento sobre quem são aquelas pessoas, o que as trouxe ali, suas paixões, segredos, sempre com muita coerência, sem perder elementos plantados seja no filme, seja no seriado.

 

Globo vai produzir mais duas temporadas da série Sob Pressão

 

Essa construção aqui realizada tem seu ganho em optar por trazer do filme os conflitos da primeira temporada. Ainda que quem não tem visto a obra cinematográfica entenda o enredo, é da morte da esposa do protagonista, o passado ainda não desmembrado de Carolina e os conflitos financeiros do hospital que são base para a principal linha que une os episódios. Seja na dualidade entre o ateísmo de Evandro e a religião da personagem de Marjorie, seja nos laços de amizade construídos pelo cotidiano de plantões de mais de 48h ou nos coadjuvantes como o ambulante Barão, o policial Botelho e a hipocondríaca Dercília que compõe quase que o cenário do local, Sob Pressão é exitosa em envolver o público nas histórias. Ninguém está em cena gratuitamente, os arcos são bem delineados ainda quando são simples e é difícil não torcer, vibrar ou até, às vezes, ter a sensação de que estamos ambientados naquele universo tal qual suas personagens. Há um bom equilíbrio também entre as tensões do cotidiano médico e os alívios cômicos, romances, interesses pessoais. Ao contrário de algumas obras estadunidenses que se demoram a resolver conflitos, como House, por exemplo, esta narrativa sempre anda pra frente, encontrando um equilíbrio de ritmo, sem pressa, mas, sem enrolações.

 

Marjorie Estiano é indicada ao Emmy por seu papel em "Sob Pressão ...

 

Contudo, não é só no desenvolvimento da trama e na construção do enredo que o seriado tem mérito. Assim como nos produtos estadunidenses, a televisão tem se preocupado cada vez mais em não só criar tramas que prendam seus espectadores, mas, competir com obras que possuem alta qualidade estética. O padrão técnico visual de Sob Pressão é afinado e tem dois principais elementos que juntos permitem um efeito impactante tanto no sentimento do público que se vê imerso nas situações apresentadas, tanto, para aqueles que entendem mais da linguagem, eles são a decupagem e a montagem. Em cenas de alívio de tensão, como quando surge uma conexão entre duas personagens ou uma família passa por um drama que denomino aqui a grosso modo de ˜drama de versus˜- por exemplo, crença religiosa x a vida de um filho, uma cena onde o filho está cuidando da mãe no leito, etc, temos planos mais clássicos. (ALERTA DE SPOILER!!) Podendo ser, um plano mais aberto, que ambiente o público sem precisar de diálogos para explicar o acontecimento: em uma enfermaria mais vazia, onde tem-se o local mais reservado do hospital, vemos uma adolescente que tentou suicídio inconsciente. Mais distante dela, está o seu pai, que conversa com Carolina para saber as novidades do caso.

O plano aberto nos ambienta do que está ocorrendo.  Vê-se a figura paterna distante, representando uma tradução de sua filha com ele, ao mesmo tempo, conseguimos ver que Carolina está numa posição privilegiada para assistir os fatos que irão se suceder na cena. A garota acorda, depois de um tempo no plano aberto, temos um plano mais fechado, o público pode comprovar a expressão de pânico da adolescente. Em seguida, a menina pula pela janela, novamente em um plano mais aberto onde pode-se ver o pai, Carolina e o salto. Entre o momento do susto e o pulo, um contraplano da reação da personagem de Estiano que, a essa hora já sabemos que sofria assédio em sua infância, e a certeza de que a garota passa pelo mesmo que ela. Nesta cena do segundo episódio da primeira temporada, os diálogos são breves, não há muito o que dizer, a decupagem* fala por si só. O elo narrativo constrói aquele momento de já desconfiança em relação à figura paterna por conta do passado de Carolina, a escolha de planos somente acrescenta, sem redundâncias, a visão da personagem do que acontece em sua frente. A câmera é um reflexo dos sentimentos da médica e as escolhas da sucessão de imagens bem decupadas é um trunfo da montagem que optou por reforçar a sensação de pânico da adolescente somente deixando os planos próximos para ela, sem desprivilegiar as opções da direção de mostrar a vulnerabilidade da menina e a impotência das figuras que poderiam ter a oportunidade de impedir a outra tentativa de suicídio.

 

terceira temporada de Sob pressão | Blog Próximo Capítulo

 

Esse é um dos exemplos da cuidadosa decupagem que é criteriosa e busca expor elementos da história sem diálogos óbvios e didáticos. Até porque, como é um produto para TV aberta, as personagens já passam muito tempo explicando detalhadamente doenças, casos, mensagens de representatividade ou algo do tipo, já há didatismo demais nessa parte. Portanto, os sentimentos, as urgências, a sensação do que se é vivido dentro do hospital é totalmente visual e sonoro. A união entre mise-em-scène e o passeio da câmera pelo hospital também carregam uma intenção da série tanto de mostrar a correria sem fim de um pronto socorro do SUS, mas, a direção também se aproveita disso para nos localizar geograficamente. Da primeira para a segunda temporada, quem acompanha de fato o seriado, já conhece onde ficam as salas de cirurgia, a enfermaria, a porta onde Evandro risca cada paciente que perde.

Os cenários têm histórias e narrativamente o espaço onde as personagens estão são usados para recorrer em temas ou sabe-se que os diálogos mais difíceis com os familiares são perto da escada, próxima a sala de cirurgia. E isso é possível graças aos planos longos onde os atores perfeitamente marcados, conseguem dar um realismo ao que acontece em cena. Já na terceira temporada, no décimo episódio, já quando as personagens estão em outro hospital, o São Tomé, vemos um exemplo de plano sequência orquestrado com maestria. A situação é: a milícia e a policia estão em confronto. O chefe miliciano invade o hospital e obriga Carolina e Evandro a salvarem sua vida. Dividido em três planos sequência (reforçando: com apenas três cortes em mais de uma hora), passeamos energicamente pelo São Tomé desde a primeira cena. A cadência é controlada, no sentido que a temperatura vai crescendo com paciência. Começamos no clássico caminhar da câmera que mostra o que está acontecendo com cada núcleo, todas as tramas que serão desenvolvidas são exibidas.

A câmera começa sem pressa, calma, com planos mais abertos que situam onde está quem, fazendo o que. O hospital está tendo um multirão e muitos pacientes estão presentes.  Entre os match cuts** entre um médico e outro, todo o cenário é “plantado”, a organização espacial é clara. E esse princípio serve, não só para essa consciência de espaço, mas também para nos lembrar e reforçar como estão bem os protagonistas, no auge do casamento, com Carolina esperando um filho. A câmera que estava movimentando-se, não mais anda, ela para, se movendo para vermos com bastante clareza as expressões dos dois. Em seguida, após ambientar, o plano sequência é utilizado para reforça a atmosfera de instabilidade. A chegada do miliciano traz uma urgência e uma pressa na movimentação da câmera. É destacável como há essa mudança. O olhar de um espectador já habituado à série vê dois médicos levando um paciente numa maca. O plano é fluido, podendo nos deixar focados nessa ação. Quando vemos Carolina, ela está para falar com Evandro, que entra na sala de cirurgia, no meio do movimento ela é parada pelo bandido. A fluidez é cortada, a rotina do hospital mudou e agora o ritmo será ainda mais frenético.

 

Sob Pressão | Evandro e Carolina atendem professora agredida por ...

 

Ela quase corre e, ao mesmo tempo, reflete o olhar de Carolina que se preocupa em ser vista. Por isso, ao mesmo tempo que é veloz, o plano mostra que está ao seu redor, horas acompanhando a visão da médica, horas mostrando as ações ao seu fundo. O auge desse momento é quando Carolina entra no elevador e quando ele está prestes a subir, Evandro pede para esperar, mas, termina vendo Carolina indo com o miliciano. A organicidade em que o plano vai do elevador para o rosto do protagonista para a sua subida das escadas reflete o bom posicionamento dos atores e a relação dos mesmos com a câmera, além do reconhecimento do espaço e o possível planejamento e perfeccionismo que um plano sequência bem executado exige.

Os dois episódios citados são somente exemplos primeiros que surgem na mente quando penso na série. Essa que vos escreve percebeu que , talvez, seja uma obra que mereça uma análise de temporadas onde se possa destrinchar mais cada episódio, afinal, há sim uma riqueza narrativa, uma habilidade em saber quais os temas merecem uma visão mais distanciada e uma direção mais contidas e quais os temas jogam a adrenalina do espectador para cima. A união dos episódios formam temporadas concisas e coerentes e um arcabouço total que dá certa curiosidade conferir a Bíblia dessa produção, ver os storyboards e afins.  Termino esse texto lembrando que estamos em tempos de coronavírus e que a próxima temporada deve se passar nesse momento e os médicos do sus mais competentes do país vão ter que lidar com essa pandemia que nos deixa em quarentena. E, nessa quarentena, talvez, uma boa pedida seja maratonar as três temporadas de Sob Pressão, que, apesar de viciante, pede um coração de ferro para resistir a todas as loucuras que  Carolina e Evandro vivem. Até quando vão comprar um colchão…mas, isso já é outro papo.

 

Trailer:

 

 

*Decupagem: o termo se deriva da palavra francesa découpage (recortar), utilizado para traduzir a intenção de dar forma. No cinema, é quando o diretor, com ou sem o diretor de fotografia, divide cada cena em planos e escolhe como cada um deles se conectará com o outro. Ex.: plano aberto para close.

** Chama-se de Match Cut ou Raccord a transição entre um plano e outro, o corte na edição que há uma correspondência entre os dois, no movimento ou temática, criando um link entre ambos.

 

Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Crítica: Indecisão de rumo narrativo marca segunda temporada de Coisa Mais Linda

É sempre muito árduo começar uma crítica sobre uma produção como Coisa Mais Linda. Isto porque existe todo um universo criativo esforçado, que procura imprimir certa qualidade técnica. Além do mais, é possível perceber uma pequena vontade em se redimir dos erros da temporada anterior, em relação ao que tange questões voltadas para as minorias sociais, principalmente sobre o racismo e a cegueira do feminismo branco que sufoca o ano 01 da série. No entanto, toda essa procura qualitativa oferta um resultado confuso, cheio de remendos, sem paciência e que caem, mais uma vez, no apagamento das premissas das personagens negras.

Mas, se a obra parece demonstrar ser bem intencionada, nada mais justo que começar por seu melhor núcleo: Adélia Araújo (Pathy Dejesus) e sua família. O primeiro elemento fundamental de qualidade aqui é o fato destas serem as únicas figuras da narrativa que apresentam certa complexidade, deixando a planificação para os outros. A começar pela própria Adélia que consegue mesclar diversos tons em um mesmo episódio ou até cena. Em segundos, ela fica gigante e se defende de todo qualquer perigo e injúria. Além disso, sua intérprete fomenta as camadas dela, revelando estar sempre atenta, colocando seu corpo em prontidão, ainda que esteja em uma contracena ou não seja o foco da sequência. O mesmo pode ser dito de Sarah Vitória, intérprete mirim, que faz a Conceição. A menina apresenta um cuidado, um carisma e uma consciência cênica que impressionam. Vitória parece entender o conceito básico da atuação com profundidade: o de jogar com o colega. Assim, ela não perde um olhar, nem uma oportunidade de acrescentar um detalhe que fazem as relações da garota com os pais e amigos crescerem.

 

Coisa Mais Linda', da Netflix, volta com mulheres mais unidas ...

 

Para completar esta parte do elenco, a trama tem Capitão (Ícaro Silva) e Ivone Araújo (Larissa Nunes). O primeiro faz um trabalho primoroso, porque consegue escapar de diversos clichês que o texto traz, como o do marido ciumento, acomodado e músico festeiro. Silva pega isto e ressignifica, colocando um tom de preocupação, com suavidade, trabalhando com os olhares não vacilantes para a câmera. Já Nunes é ainda mais impactante de assistir! A moça é o destaque desta temporada. Com uma presença e um canto que emocionam, ainda que os autores não saibam o rumo preciso que darão para ela, há em sua construção uma dinamicidade e leveza que dão conta do que a escrita não consegue. Existe o tom jovial e agitado, combinado ao sofrimento de uma vida inteira de racismo e luta. Ela é engraçada, firme e uma das poucas que sabe desfazer a artificialidade impregnada em Coisa Mais Linda. Entre os parentes de Adélia, ainda existe Eliana Pittman, como a Elza e Val Perré, fazendo o Duque. Excelentes atores que poderiam ser muita mais bem aproveitados.

Mas, então, qual seriam os problemas? O primeiro reside nesta artificialidade e o segundo numa espécie de desespero que faz tudo que poderia ser bem realizado ir por água abaixo. A trama parte um pouco depois do cliffhanger da primeira temporada. Contudo, em poucos minutos o conflito se desfaz e outro problema é posto em prática. Assim, as situações passam a se estabelecer. Aos poucos, parece que, ainda que com alguns incômodos, haverá uma crescente de qualidade e as histórias serão exploradas. Mas, não é isto que acontece. Plots são arremessados na tela o tempo inteiro, para serem resolvidos pouquíssimo tempo depois. Nesta onda descontrolada e sem paciência de desenvolvimento narrativo, novamente todo foco vai para Maria Luiza (Maria Casadevall), porém não para a questão mais tensa, que poderia ser uma força e um crescimento dela, mas para seus ímpetos de White Savior e seus casos amorosos mornos.

 

F5 - Colunistas - Tony Goes - Na segunda temporada, 'Coisa Mais ...

 

Com a quantidade de momentos em que ela está com conversas com Chico (Leandro Lima) e Roberto (Gustavo Machado) era possível dar atenção para os enredos de Adélia e Ivone e decidir qual seria o problema central delas durante a temporada, sem fazer todo um nó para depois abandoná-los sem costura. Ou, talvez, os roteiristas poderiam escrever melhor sobre a personalidade e a bissexualidade de Thereza Soares (Mel Lisboa), que parece ter virado outra pessoa agora, um arquétipo de si mesma, cheia de clichês e frases nada orgânicas como “A gente pode pegar as minhas Vogues francesas e procurar um modelitos perfeitos para nossa viagem para Búzios”. Inclusive, é notável a luta de Lisboa para tentar manter seus diálogos críveis.

 

ALERTA DE SPOILER!!!!!!

 

Contudo, ainda existe o ponto alto desta decepção. Quando colocam a Adélia em um estágio de câncer terminal em um episódio, para, de repente, ela estar curada, porque os médicos que disseram que ela iria morrer em pouquíssimo tempo estavam enganados é chocante a preguiça de qualquer tipo de desenvolvimento. A partir daí, passa-se a se pensar que história a equipe deseja contar e por que essa ânsia em abandonar tudo a todo tempo. Estas situações repentinas são bastante recorrentes, principalmente com as personagens negras. O desconforto é ainda maior se o espectador presta atenção nos outros elementos do seriado, que deixam mais visíveis aos olhos a forma exagerada de sua parte criativa em tocar os rumos da obra. A fotografia e a arte são um destes reforços. Principalmente em seu início, a sensação é que há uma vontade extra normal de criar significados, com uma quantidade intensa de cores repetidas, em tons fortes. Lá pela terceira cena do primeiro episódio, o público já entendeu que o amarelo e o laranja vão ser usados com o azul para contrastar com as emoções das personagens: melancolia e euforia. A morte de Lígia e a vontade de se reerguer. Assim, as tonalidades chegam estouradas e repetitivas.

No final das contas, a série reserva algumas discussões relevantes, ainda que se perca em na amarração do próprio conteúdo que traz. Resta esperar por um terceiro ano menos branco hétero cis centrado e que aprofunde as relações e conflitos, ao invés de sufocar quem assiste de situações mal resolvidas, a partir de uma vontade de tirar o fôlego, pois o efeito é reverso.

 

Comédia em Série

A indicação deste mês definitivamente não é uma novidade, mas é garantia de diversão. Community é uma série em 2009, pela NBC. Entrando no ar junto com grandes nomes da comédia como The Office, Parks and Recreation e 30 Rock, ela acabou passando por muitos despercebida. No começo de abril, a comédia entrou no catálogo da Netlix e é uma ótima pedida para quem está procurando se distrair nesses momentos difíceis, prometendo muita leveza e carinho por esses personagens que te conquistam fácil. À primeira vista pode parecer uma sitcom qualquer mas, ao decorrer dos episódios e com a maturidade dos personagens, ela só cresce.

showrunner da obra, Dan Harmon, é o co-criador do sucesso Rick and Morty, e é perceptível as semelhanças nos plots absurdos e criativos e as diversas referências a cultura pop, mas Community é muito menos niilista que sua irmã mais nova. A série conta a história de um grupo de estudos numa faculdade comunitária, Greendale, formada por pessoas completamente diferentes e que por algum motivo se apegam e viram grandes amigos. Jeff (Joel McHale) é um ex-advogado que perdeu sua licença por ter usado um diploma falso a carreira toda e cria o grupo com o objetivo de conquistar Britta (Gillian Jacobs) uma mulher politizada e que sempre tem algo a dizer, Abed (Danny Pudi) é um jovem aficionado por cinema e TV que tem muita dificuldade de demonstrar emoções e se comportar como os outros esperam que se comporte. Abed é muito importante, pois muitas vezes vemos os personagens pela sua ótica fantasiosa de mundo, sempre trazendo piadas metalinguísticas sobre eles estarem vivendo em uma série cômica. Por sinal, a forma que a produção sempre tira sarro de ser uma comédia de situação é uma das coisas mais legais, como ela também não tem medo de sair dessa fórmula e ao mesmo tempo explorar todos os clichês do formato.

 

Crítica | Community – 1ª & 2ª Temporadas – Plano Crítico

 

No grupo temos também Annie (Alison Brie) que é a mais jovem e dedicada (para não dizer obcecada) da turma: Troy (Donald Glover) um ex-quarterback, que tem o maior coração de todos e forma a melhor dupla da série junto com Abed; Shirley (Yvette Nichole Brown), uma mãe cristã e recém-solteira que resolve aproveitar o tempo perdido para estudar e Pierce (Chevy Chase), um baby boomer que sempre diz coisas ofensivas e inapropriadas. Isso sem contar com todos os personagens recorrentes que formam o universo fantástico e absurdo que é Greendale, como o reitor Pelton (Jim Rash) que tem uma paixão nada secreta por Jeff e veste fantasias ao melhor estilo RuPaul; Ben Chang (Ken Jeong) o professor de espanhol que se torna diversas outras coisas mas sempre extremamente assustador (e engraçado).

A força e a genialidade da série está em sua 0 vontade de parecer com a vida real e você pode esperar surpresas maravilhosas como episódios imitando filmes de faroeste com paintball, batalhas de travesseiros, documentários falsos, paródias de Law and Order e muito mais. Ao longo de sua exibição e sempre correndo risco de cancelamento, a série foi ganhando uma legião de fãs na internet, lançando a hashtag #sixseasonsandamovie. E o mais incrível é que funcionou, a série de fato alcançou a sexta temporada (que foi feita pela Yahoo!) e o filme… bem, quem sabe?

 

 

*Laize Ricarte é comediante, roteirista e cineasta.

Maratone como uma Garota! – Liberdades e prisões em Vis a Vis

Muitas (boas) produções espanholas têm marcado presença nas listas de maratonas de muita gente por aí. Nomes como Las Chicas del Cable (As Telefonistas, em Br) e La Casa de Papel apresentam não somente narrativas instigantes, e viciantes, mas também uma ampla diversidade de questões relativas às personagens femininas. Em Vis a Vis, encontramos um cenário muito familiar, do qual nos despedimos recentemente com Orange Is The New Black, finalizada este ano, que é a penitenciária feminina. A densidade das personagens e o desenrolar das suas histórias vão revelando nuances de personalidades e borrando fronteiras morais que poderiam parecer óbvias, levando o espectador a questionar muitos juízos pré-definidos. Mesmo se você ainda não tenha assistido, talvez esse texto possa te dar um empurrãozinho.

Apesar do plot estruturar-se numa prisão, os ares, a estética e as tramas são bem particulares. E para quem sofre de ansiedade para a 4ª temporada de La Casa de Papel, uma boa notícia: além de contar com os mesmos responsáveis (Alex Piña é o criador de LCDP e cocriador de Vis a Vis), ainda encontramos no elenco duas grandes atrizes: a maravilhosa Najwa Nimri, a inspetora Alícia Sierra de LCDP, que vive, em Vis a Vis, a “vilã” Zulema Zahir, e Alba Flores, a rainha do matriarcado Nairobi, que vive aqui a cigana Saray Vargas aqui. Dentre muitos tópicos que poderíamos explorar, a Maratone como uma Garota! deste mês discute um pouco como a noção de liberdade na produção transita entre sonho, esperança e perversão, principalmente a partir das duas personagens principais.

 

 

O título de “Orange Is the New Black Espanhola” definitivamente não faz jus ao seriado. Apesar de ambas oferecerem personagens e situações empáticas, caricatas e por vezes cômicas, retratando a diversidade que representa o mundo das prisões, o argumento de Vis a Vis, com um tom mais dramático e tenso, gira em torno, entre outros temas, da liberdade e como esta pode se tornar uma perversão. A história inicia-se com a entrada de Macarena Ferrero (Maggie Civantos) na prisão Cruz del Sur, que, enganada e apaixonada pelo ex-chefe, comete crimes fiscais. Em seus primeiros minutos encarcerada, Macarena conhece Zulema (Najwa Nimri), uma detenta geniosa e bastante perigosa. Ao encontrar um chip de celular que continha informações sobre uma grande quantidade de dinheiro escondida, a vida da mocinha e de sua família se transformam em uma montanha russa de perigos e mortes. O trunfo da série, no entanto, está mais em Zulema, quem tem uma construção menos estereotipada e mais bem desenvolvida. 

Macarena começa como a loirinha ingênua e quase inocente (um estereótipo bem típico de “boa moça”) e vai transformando-se numa bad girl* até se tornar uma das chefes da prisão. Em um primeiro momento, a protagonista até tenta ganhar força, mas continua à sombra de uma caricatural transformação de cárcere. Porém, ela começa a ganhar bons contornos a partir de meados da 2ª temporada, quando atinge um patamar em que “mal” e “bem” já não prevalecem, mas a condição humana de imprecisão e inconstância. É aí que a série também vai se mostrando mais atenta a essas falsas definições de certo ou errado. A princípio, Macarena apenas queria provar sua inocência e sua liberdade era mais de uma moral tradicional. É descobrindo como a sociedade e a justiça são bem mais sujas do que parece que seu ideal e a moral da liberdade caminham para outro sentido: entre querer sair, não ter aonde ir, não ter mais as âncoras de antes. A relação de Macarena e de Zulema tem por base, justamente, a ânsia de livrar-se dos encarceramentos, nas fugas e na prisão.

 

 

“O elfo do inferno”, como se autodefine Zulema, é a personagem mais cheia de sutilezas e tensões. Inteligente, ágil, má e sem muito afinco a sentimentalismos, a única coisa que lhe interessa é a liberdade. Seus diálogos sempre conotam, entretanto, que a liberdade é muito mais complexa do que parece. Ela quer sair da cadeia, mas não quer uma vida comum, pois como afirma “ama a vida mais que tudo”. O modo como a narrativa estrutura esta personagem se mostra bem interessante pois temos sempre muito claro que ela é humana, não uma psicopata monstruosa e fria, mas também suas ações não se justificam por conta de traumas, de sofrimentos, ainda que os haja.

Ou seja, a sua humanidade não se oculta na maldade (que ela própria não nega) e nem se apóia numa tentativa de redenção, como encontramos em muitos outros antagonistas. “Vilã” não parece ser um termo aplicável, visto que a vilania está mais nas estruturas do que nas pessoas. Zulema faz o que for necessário para ser livre. Sempre astuta, ela também reforça como os lugares na prisão – o encarcerado e o encarcerador – não estão dados. Há, porém, momentos em que o roteiro parece desfazer-se do seu peso na narrativa, forçando um escanteio mal sucedido. Grande parte da potência e sedução de Zulema (que conquistou a maior parte dos fãs de Vis a Vis) está na carga da atuação de Najwa Nimri, que maneja muito bem ironia, coragem, comédia e terror. 

 

 

A liberdade como uma espécie de perversão está presente o tempo inteiro e é um fio condutor no roteiro. Essa ideia de “perversão”, que foi também discutida pela própria Nimri em algumas entrevistas, nos diz sobre como este valor por transformar os sujeitos radicalmente, tornando-se uma obsessão. A vontade de liberdade e a atração que exerce rege não somente Zulema, mas também outras encarceradas. Muitas vezes, estar fora não é ser livre, como percebe Soledad Nuñes (María Isabel Díaz) que, condenada pelo assassinato do marido abusivo, percebe que o mundo fora das grades só lhe traz dor e culpa, e que lá não tem ninguém. Já Terê (Marta Aledo), uma viciada em heroína, começa a questionar o quão libertar-se do vício tem altos preços.

É bem verdade que Vis a Vis traz também algumas representações bastante redutoras e problemáticas para algumas mulheres da trama, especialmente a diretora Miranda (Cristina Plazas), que permanece alienada e manipulável e seu intento de humanizar a cadeia, ao invés de fortalecer, a enfraquece. Sororidade e feminismo não são o ponto mais forte desta produção, que escorrega em alguns momentos, colocando disputas um tanto misóginas entre as presas. Muitas relações amorosas são também mal desenvolvidas e algumas situações de violência sexual e estupro não têm um bom tratamento. Porém, a série consegue explorar alguns pontos importantes na trama e é muito viciante. 

 

Terror em Série – Top 5 Girl Power no Terror

 

O universo das séries de terror pode traduzir muito bem a realidade das mulheres, seja do constante medo em suas vidas, como também no poder que possuem de serem fortes, bruxas, de ser o que desejarem. Pensando nesta potência, o Série a Sério separou uma lista com seriados que trazem mulheres que são protagonistas, que lutam para traçar seus destinos e conseguem!

 

Eis o top 5:

 

Resultado de imagem para handmaid's tale

 

5 – Handmaid’s Tale (2017 – Atualidade)

 

Inspirada nos livros de Margaret Atwood, a produção mostra um universo distópico nos Estados Unidos, após um atentado contra o presidente. Apesar de trazer momentos que parecem mais sádicos do que empoderadores e de marcar a ligação da mulher com a maternidade, o seriado tem seus elementos feministas. Toda a construção do poder através da sororidade, evoca uma crença na força da união feminina e da inteligência delas para agir estrategicamente, sem esquecer de que a violência também existe dentro delas. Depois do final de sua última temporada, pode-se dizer que ainda há esperança das mulheres prevalecerem e lutarem e pararem de sofrer gratuitamente em todos os episódios.

 

 

4- Charmed ( 1998 – 2006)

 

Resultado de imagem para charmed

 

Em sua época, as irmãs Halliwell trouxeram um novo pensamento sobre sororidade no sentido mais literal possível. Apesar de seus interesses amorosos e conflitos com os mesmos,  o que mais importava em sua trama era a amizade das três e como elas protegiam umas as outras. A irmandade delas era o centro da questão! O poder das Três nada mais era que o poder da união feminina, inclusive, muitas referências da história vinham do pensamento de sagrado feminino e da energia da natureza como elo mágico na Terra.

 

 

 

3 – American Horror Story: Coven

 

Resultado de imagem para american horror story coven

 

O seriado de Ryan Murphy tem um histórico de construir boas personagens femininas, mas, sua terceira temporada supera por construir uma mitologia própria em torno da potencialidade do universo das mulheres. A força que existe em cada uma de nós e como só podemos nos fortalecer e sermos mais poderosas quando descobrimos que não precisamos estar à sombra de ninguém para sermos alguém. Além de empoderamento, Coven nos traz muitos outros questionamentos, em especial como o medo que as mulheres têm de envelhecer e  de serem substituíveis depois da perda da juventude. Além disso, muitas vezes, há o preço altíssimo para se entrar em padrões de beleza, ser poderosa e ainda ser incentivada a disseminar a rivalidade feminina, pois este é o maior veículo para deixá-las enfraquecidas.

 

 

 

2 – Chilling Adventures of Sabrina

 

Resultado de imagem para chilling adventures of sabrina

 

O universo das bruxas é mais uma vez explorado, só que, dessa vez, de maneira ainda mais sombria. Talvez, menos sombria do que Coven, mas, dentro do conteúdo adolescente, Sabrina traz tons menos ingênuos e busca construir uma linha de pensamento feminista de maneira mais lúdica. A série consegue atingir seu ponto porque trata de feminismo de maneira sutil, mostrando em seus vilões homens, símbolos de opressão masculina e a forma como o ego dos homens afetam a convivência social de forma negativa. Parece didático, e em sua primeira temporada até é, mas, aos poucos, a produção toma forma e traz questionamentos cada vez mais potentes. Eis o trailer da segunda parte:

 

 

 

1 – Buffy – The vampire slayer

 

Resultado de imagem para buffy the vampire slayer

 

Nos anos 1990, surgiu um dos maiores fenômenos televisivos da história dos Estados Unidos: a caçadora de vampiros adolescente! Ela amava homens, mas, amava ainda mais lutar contra vampiros e seres sobrenaturais. Tudo bem que esse era o fardo de Buffy Summers, não ser uma adolescente normal. Contudo, era uma das primeiras vezes que via-se uma mulher escolhida. Summers era forte, protegia seus amigos, era inteligente e com um humor sarcástico. Ela não era flawless, tinha seus defeitos, seus desejos, era bonita, mas não sexualizada. Ela era tudo que toda garota achava que não poderia ser e que, depois de  Buffy, entendeu que  tinha o poder de ser dona da sua própria vida. A caça vampiros mais badass de todos os tempos segurou sua balestra e lutou contra muitos lords e homens vampiros, mostrando que era muito mais que uma loirinha cheerleader.

 

https://www.youtube.com/watch?v=jP-lbMSirsA

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Comédia em Série: “Os Normais” e o legado de Fernanda Young

No dia 25 de agosto de 2019, acordei com a notícia da morte de Fernanda Young. Não pude acreditar na partida de uma mulher tão viva em minhas memórias. Eu ainda sonhava que nos conheceríamos!! Mas, quem sabe numa outra vida? Passei o dia pensando em seu trabalho, no quanto ele me inspirou e me mostrou coisas que eu nem imaginava em plena que uma mulher podia falar e fazer, me mostrou que ousar era possível. Em sua homenagem, a coluna de hoje falará sobre sua obra mais famosa e querida pelo público: Os Normais.

A série foi exibida entre 2001 e 2003, nas noites de sexta-feira, na Rede Globo. Eu lembro de assistir ao seriado escondida, com minha tia, e de não entender metade das piadas, mas adorar o quanto aquilo parecia novo e divertido. A abertura icônica, com todos aqueles rostos brasileiros e diferentes entre si, a música brega que dizia “Você é doida demais!”. Por sinal, o cantor e compositor da música, Lindomar Castilho, chegou a ser preso por matar a própria esposa que tinha um caso com o primo do cantor, mas foi solto em pouco tempo. Peço perdão aqui pela curiosidade traumatizante!!!

 

 

O casal Rui e Vani eram protagonistas da produção e dos diálogos mais mirabolantes, sem noção e verdadeiros que a nossa TV já viu. Interpretados por Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães, que estavam no auge da juventude e dos seus corpos sarados, o casal vivia semi nu em cena, expondo o corpo, a neurose e mau caratismo do par favorito dos brasileiros. Noivos por toda a eternidade, representavam um arquétipo moderno dos casais da virada do século XXI, do desapego e da liberdade. Isso sem largarem um do outro, claro.

Usando o formato de sitcom, Fernanda Young e Alexandre Machado, seu marido e parceiro em diversos trabalhos, brincavam com a linguagem, colocando Rui e Vani para conversar com o público e até para convidá-los a participar de suas discussões sem sentido. Chegando a fazer piadas sobre a qualidade da série, sobre a emissora e até sobre os seus espectadores, Fernanda nunca subestimou sua audiência. Lembro que a comédia era uma das coisas mais comentadas da época e que marcou pela sua ousadia. 

 

 

Fernanda fez outras diversas séries, como Os Aspones” – uma espécie de The Office brasileiro que talvez fosse sofisticada demais para o seu tempo-; Minha nada mole vida, Comédia da Vida Privada e sua mais recente Shippados. Ela também atuou, escreveu romance, poesia, apresentou programa de TV e falou o que muita gente preferia deixar calado. Foi e sempre será um exemplo de frescor e ousadia, um tapa na cara dos caretas.

 

 

*Laize Ricarte é comediante, roteirista e cineasta.

Especial – Melhores participantes do Masterchef Brasil

por Enoe Lopes Pontes

 

Neste domingo, 25, acontece a final da sexta temporada do Masterchef Brasil para cozinheiros amadores. Os participantes que integram a noite de disputa são Lorena e Rodrigo. Apresentado pela jornalista Ana Paula Padrão, quem decide o resultado são três chefes de cozinha, considerados pelo público e pela crítica, renomados, são eles: Paola Carosella, Henrique Fogaça e Érick Jacquin. O episódio será exibido às 20h, no canal Band.

 

Pensando na popularidade do reality, o Série a Sério preparou uma lista com o melhores integrsntes de todos os tempos, das últimas seis edições do seriado. A decisão foi muito difícil, mas no final, acabamos tendo que fazer algumas escolhas tensas! Confira!

 

Resultado de imagem para jiangpu masterchef

 

10 – Jiang Pu – Participante da segunda temporada do programa, Jiang conquistou o público com seu jeito doce e as suas referências asiáticas. Concentrada dentro da cozinha, Pu ficou no terceiro lugar do pódio da competição e provocou lágrimas no Twitter em sua saída. Atualmente, ela continua na profissão e possui um restaurante, em São Paulo.

 

Resultado de imagem para estefano zaquini

 

9 – Estefano Zaquini – Com um foco maior para a confeitaria, mas buscando ir bem em todos os tipos de pratos, Estefano foi integrante do primeiro Masterchef Brasil. Após sair do programa, Zaquini estagiou no restaurante de Érick Jacquin, o Tarta&Co. Atualmente, o jovem está perto de se formar em gastronomia e tem um quadro no “Mulheres”, da TV Gazeta. O chefe está nesta lista por ter demonstrado garra, determinação e carisma durante o tempo em que esteve no Masterchef.

 

Resultado de imagem para eliane roibeiro masterchef

 

8 – Eliane Ribeiro – Treta! É impossível esquecer as polêmicas e confusões que envolveram Eliane, na quinta temporada do Masterchef. Apesar de possuir alguns haters no caminho, Ribeiro sempre demonstrou uma vontade imensa de estar no reality e era leal aos que faziam parceria com ela. Apesar de não ter vencido a competição, chegou perto, ficando em terceiro lugar. Atualmente, a jovem chefe possui um canal no Youtube, chamado Lili e o Mundo.

 

Resultado de imagem para lorena dayse masterchef

 

7 – Lorena Dayse – Finalista na competição da sexta temporada do Masterchef Brasil, Lorena chegou no programa com um discurso potente e coerente sobre a força do Norte e Nordeste e toda a sua vontade de vencer para representar a região! E o desejo ficava estampado em seus pratos, com temperos que faziam jus as suas origens, incluindo o seu amado coentro! Se a competidora irá vencer, somente o futuro dirá, porém sua popularidade já é considerável! Lorena acumula 128 mil seguidores no instagram e quase 10 mil no Twitter.

 

Resultado de imagem para haila santuá masterchef

 

6 – Haila Santuá – Também integrante da sexta edição do Masterchef Brasil amadores, Haila ficou com o quinto lugar da competição. Ela demonstrou que doçura combinada com determinação podem virar uma arma extremamente forte dentro de uma disputa. Sempre atenta aos colegas, ela conseguiu equilibrar, na maioria das vezes, um bom resultado, junto com um help para os concorrentes de reality. Quem lembra quando ela parou a torta de limão para ajudar Imaculada na fase de seleção inicial? Pois este foi seu jeito de lidar com o Mastechef, mesmo não aguentando a pressão de quando em quando. Santuá não venceu, mas acumulou um belo fandom e uma trajetória muito intensa para recordar e trilhar um caminho bacana. Quem sabe? Vamos acompanhar!

 

Resultado de imagem para helena masterchef

 

5 – Helena Manosso – Integrante da primeira edição do Masterchef Brasil, Helena começou discreta e foi crescendo em cada episódio, chegando na final com um menu muito elogiado pelos chefes. Apesar de ter ficado em segundo lugar, Manosso se manteve na profissão. Ao lado de seu marido e colega de temporada, o Lúcio, ela comanda a Salt&Pepper, rede de consultoria gastronômica. Helena ocupa a quinta posição, por ter sido uma participante marcante, que brilhava nas provas do reality e que possuía muito carisma e simpatia.

 

Resultado de imagem para izabel alvares masterchef

 

4 – Izabel Alvares – Vencedora da segunda edição do Masterchef Brasil, Izabel chegou no topo do pódio com muita humildade, doçura, foco e depois de assumir certa confiança em si mesma. Sendo eliminada no sexto episódio, ela retornou na repescagem e passou a demonstrar mais segurança e estudo. O resultado foi o troféu que ela tanto sonhava. Atualmente, Izabel possui a marca Magrela, rede de produtos alimentícios saudáveis.

 

Resultado de imagem para Maria antonia masterchef

 

3 – Maria Antonia Russi – A terceira colocada da lista divide opiniões dentro do público do Masterchef. Adorada por uma parte dos espectadores e odiada por outra, ela ocupa esta posição em nosso top 10 por ter sido uma participante que venceu muitos desafios e, assim como Izabel, por ter conseguido dar a volta por cima e ter mais confiança em si mesma. Com um jeito um tanto atrapalhado, Maria era uma integrante engraçada e divertida e que foi demonstrando sua capacidade dentro da cozinha cada vez mais. Na final, ela surpreendeu os jurados montando um menu com bastante personalidade! O que fez com que Russi ganhasse a competição e enlouquecesse seu fandom. Atualmente, Maria Antonia possui um canal do no Youtube, que carrega o seu nome como título!

 

Resultado de imagem para cecília padilha masterchef

 

2 – Cecília Padilha – Favorita de sua temporada, Cecília ficou em sexto lugar na primeira edição do Masterchef. No entanto, apesar desta zebra, ela vinha trilhando um caminho de acúmulo de vitórias e o mezanino era conhecido como o “Camarote da Cecília”. A sua popularidade com o público do programa foi intensa na época e reveberou para o sucesso de seus empreendimentos desde então. hoje em dia, ela escreve para o Prazeres da Mesa e a Revista do Gramado. Padilha também possui um canal, chamado Yes, we cook, que acumula mais de 5 mil seguidores.

 

Resultado de imagem para raquel novais masterchef

 

1 – Raquel Novais – Participante de uma temporada disputadíssima como foi a terceira edição do Masterchef, Raquel conseguia se destacar com feedbacks muito positivos, mas que jamais abalavam seu comportamento. Sempre humilde e de ouvidos atentos, Novais buscava uma relação amistosa com seus colegas de competição e tentava não entrar nas inúmeras tretas que aconteciam. O resultado foi o terceiro lugar no pódio, que poderia ter sido primeiro se não fosse um pequeno deslize na semifinal. Atualmente, Raquel tem um programa chamado Cozinha Amiga, na TV Gazeta.

Br em Série: A fórmula do sucesso: Cine holliúdy traz a comicidade nordestina e homenagem ao cinema e A TV

Parece que apesar do preconceito e descaso com o Nordeste, a cultura da região ainda é receita de sucesso para as narrativas brasileiras. A Rede Globo demonstra ter entendido isso há algum tempo, pois vira e mexe apresenta narrativas com esse conteúdo, desde novelas, filmes a, mais recentemente, seriados (muitos desses produtos adaptados de realizações regionais). Assim, fomos apresentados a Cine Holliúdy,  trama de dez episódios que trouxe de volta à TV aberta o humor nordestino, mais especificamente cearense. Baseada no longa homônimo de sucesso do cinema nacional, assinado também pelo diretor Halder Gomes, a produção retorna com o personagem Francisgleydisson (Edmilson Filho) e outros atores, para a fictícia Pitombas, cidadezinha do interior do Ceará, onde esse “cabra” sonhador e apaixonado por cinema luta para manter viva a sétima arte que está ameaçada com a chegada da TV.

Tanto a série quanto o filme tem a mesma premissa de homenagear as salas de cinema que movimentavam as cidades do interior, mas que hoje, já quase não existem. Porém, nessa nova roupagem, fica forte a metalinguagem com relação a TV. A narrativa, como a abertura (belíssima e cantada por Elba Ramalho e Falcão) coloca, brinca com essa relação: Qual a diferença da TV para o cinema? Parece um pergunta retórica já que a série reverência a TV e suas próprias produções (novelas da Globo) e o cinema (em especial o cinema regional). O tom nostálgico e a homenagem singela é um trunfo do seriado.

 

 

Para quem acompanhou os filmes, pode ficar tranquilo, que apesar do “mão da Globo” visível na produção, Cine Holliúdy tem uma história nova, mostrando o mesmo Francisgleydisson numa versão, anterior a dos dois filmes da franquia, embora ainda dedicado ao cinema.  Francis aqui vive em Pitombas, onde toca um cinema fixo (Cine Holliúdy) nos anos 1970. O problema surge com a chegada da nova mulher do prefeito, a paulista Socorro (Heloísa Perissé), e sua filha, Marylin (Letícia Colin), que o convencem a comprar uma televisão, a primeira da cidade.

O protagonista logo se encanta pela “platinada” e com nome de “estrela do cinema”, Marylin, e daí surge o romance entre “tapas e beijos” entre eles. A graciosidade e determinação da moça da cidade, em contraponto à ingenuidade e esperteza de Francis dão autenticidade ao romance. Ao longo dos episódios, Francis, seu fiel escudeiro Munízio (Haroldo Guimarães) e Marylin decidem criar seus próprios filmes e reconquistar o público.

 

 

Ao redor deles, atuações da melhor qualidade, como o Prefeito Olegário (Matheus Nachtergaele), que prova mais uma vez o respeito ao interpretar um nordestino, seu assessor (ou capacho) Jujuba (Gustavo Falcão), a primeira-dama Socorro (Heloísa Périssé de volta às telas), e os talentos regionais que fizeram a diferença, como Carri Costa (Lindoso), Solange Teixeira (Belinha) e Frank Menezes (Delegado Nervoso). E é claro, não poderia se deixar de comentar da primorosa narração de Falcão,que também atua como Cego Isaías, com seu sotaque forte dá um aspecto de cordel a narrativa .

 

Ode ao cinema e ao interior nordestino

 

Cine Holliúdy une o bom dos dois mundo: o ritmo rápido (em torno de 25 min), com arcos que se fecham por episódio (trama circular) e que não se enrolam, estilo dos filmes clássicos, com a narrativa simplória, sem tramas muito complexas, típico das novelas. Um história para se distrair, rir e apaixonar pelos personagens.

Os  episódios temáticos são mais uma forma de homenagear o cinema. Em sua saga de herói, Francis lida com situações de filmes de ficção científica, de ação, vampiro, faroeste e até os filmes de luta. Cada aventura dessa vira um filme que ele mesmo produz, e que faz o cinema resistir a TV, pois, em suas palavras, “o povo quer ver filmes com gente do Ceará, e falado em Cearense”.

 

 

Apesar desse clima de descontração, a série não escapa do estilo Globo, com personagens e situações penando para o caricato. A a função de cada personagem é típica e fica explícita logo nas primeiras cenas,  o malandro, o político corrupto, a garota moderna da capital, a fofoqueira, a dondoca, o bobalhão. Porém, a boa atuação, os diálogos, cenários e figurinos caprichados tiram a série do lugar estereotipado e fazem o público se conectar rapidamente.

De um filme de baixo orçamento, que levou mais de 480 mil pessoas aos cinemas, surge uma série, que seguindo o sucesso de produções semelhantes, como Auto da Compadecida e a novela Cordel Encantado, se consagra como mais uma comédia certeira da Globo nas noites de terça-feira,  faixa que teve outras comédias cheias de qualidades, como Tapas & Beijos e Mister Brau. Apesar do horário, Cine Holliúdy exibe um Nordeste colorido, divertido e cheio de aventuras e fantasias que todo mundo pode assistir. O bom resultado trouxe bons ventos, depois do segundo filmes, agora foi confirmada a sua segunda temporada da serie.

 

http://www.adorocinema.com/series/serie-23202/video-19561985/

 

*Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

1 2 5
© 2020 - TV Aratu - Todos Direitos Reservados
Rua Pedro Gama, 31, Federação. Tel: 71 3339-8088 - Salvador - BA