Crítica: Novo thriller adolescente da Netflix imprime qualidade técnica e discurso afiado

Nesta semana, a Netflix lançou uma nova série brasileira. Boba a Boca é um thriller adolescente, criado por Esmir Filho (Saliva). A direção da maioria dos episódios também é sua. Ele divide o posto com a cineasta Juliana Rojas (As Boas Maneiras), que comanda o 1×05 e o 1×06. Em seu resultado geral, a produção entrega um equilíbrio significativo de qualidade, com bons atores, diálogos e discurso. No entanto, é possível, ainda, destacar o seu ápice em sua mise-en-scène e em sua decupagem, sendo elas os elementos que mais se sobressaem.

Desde os primeiros minutos do seriado é possível enxergar a sua estilística e que ela está ali para fomentar o que se deseja contar. O azul e o rosa, por exemplo, são predominantes durante toda a exibição. Isto cria uma espécie de dicotomia, que revela não apenas as dualidades e complexidades das personagens dentro da narrativa, mas também dos papéis impostos pela sociedade. Os enquadramentos e cortes também elevam a potência da história desenvolvida na tela. Os quadros diversificados em uma mesma sequência desnudam as personagens, como quando mesclam planos detalhes com os mais abertos, aumentando esta característica e também o nível de tensão nas relação ali mostradas.

 

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Apesar de já se iniciar intensa e com uma dinâmica de simulação de velocidade, a obra consegue criar uma espécie de progressão dentro de sua própria lógica. Em alguns momentos, seja pelos acontecimentos ou como a equipe técnica escolhe fazê-los, o ritmo cai, pois tudo parece frenético, sem respiros. Contudo, isto não compromete o seu resultado total, principalmente porque isto se justifica, em partes, pelos próprios rumos do enredo e daqueles indivíduos que estão inseridos na trama.

Por fim, vale destacar a presença de atores de peso no elenco como Grace Passô (Temporada), Thomas Aquino (Bacurau) e Denise Fraga (De Onde eu Te Vejo). Todos os três intérpretes trazem um trabalho afinado, com criações muito certeiras. Ainda que apareçam em momentos pontuais, a cena cresce diante da presença deles. Entre o trio, o ponto alto é a performance de Fraga. Criando uma Guiomar Araújo que passa ações muito calculadas, através de muito tônus, consciência corporal e espacial, ela vai imprimindo lentamente as fragilidades daquela figura que parece imponente e autoritária no início, mas que vai revelando fragilidades e até retirando certas tensões físicas para aumentar essa multiplicidade na personalidade de Guiomar.

 

Inglês pelo mundo das séries: 8 cidades, 8 sotaques em Sense 8

Umas das perguntas que mais ouço como professora de inglês é: “Você tem sotaque americano ou britânico?”, ao que respondo sem titubear: “Meu sotaque é brasileiro. Mais especificamente baiano, de Salvador”. Claro que do lado de cá dos trópicos a influência americana na cultura que consumimos faz com que meu inglês tenda a soar como o inglês americano a maior parte das vezes, mas com exceção do título da série Sex in the city, não tem quem me faça pronunciar “ciRí” com sotaque americano; aprendi com Ms.Marcela (uma das minhas professoras- inglesa) a falar “ciTí” e assim é até hoje a minha fala.

Das oito cidades onde foram gravadas a série Sense 8,  duas são estadunidenses: aproximadamente 4000km de distância separaram a personagem Nomi (São Francisco) de Will (Chicago), lonjura suficiente para encontrarmos variações linguísticas. Cidade do México (México), Reykyavík (Islândia), Berlim (Alemanha), Mumbai (Índia), Nairobi (Quênia) e Seoul (Coréia do Sul) completam o cenário dos personagens principais. Diferente de mim quando exercia a função de comissária de voo, e diferente da equipe de filmagem da série, que precisava encarar horas de voo entre um país e outro, nesta produção escrita por Lana e Lilly Wachowski e J. Michael Straczynski, ao longo de 2 temporadas, os Sense 8’s (sensitivos) conseguem se transportar de um lugar para o outro pelo que a personagem Riley numa conversa com Nyx, descobre logo no primeiro episódio.

 

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Veja:

“-Limbic resonance. It’s a language older than our species.(…). It’s a simple molecule present in all living things. Scientists talk about it being part of an eco-biological synaptic network. When people take it, they see their birth, their death, worlds beyond this one. They talk of truth, connection, transcendence.”

[Ressonância límbica. É um idioma mais antigo que nossa espécie (…). É uma molécula presente em todos os seres vivos. Cientistas dizem ser parte de uma rede sináptica ecobiológica. Quando as pessoas têm acesso a essa rede, elas vêem seu nascimento, sua morte, mundos além deste aqui. Eles falam sobre verdade, conexão, transcendência].

Se você está aprendendo a língua inglesa, já assistiu Sense 8 , e não prestou atenção a esse diálogo, (sorry, mas preciso dizer que) você assistiu errado. Sugiro que reveja esse trecho: e não estou falando do conteúdo da conversa! Feche os olhos, ouça o ritmo das palavras, (sobretudo dos personagens que estão por perto de Riley). Se puder, coloque a legenda em inglês e  preste atenção nas palavras onde aparecem palavras com “R”. Na cena que vem logo em seguida, surge a personagem Kala, em Mumbai (Índia), e mesmo para quem está começando agora os estudos da língua inglesa, é possível perceber que o inglês dela é bem diferente do inglês falado na cena anterior; se for preciso, volte algumas vezes, sugiro que acompanhe essa transição de uma cena pra outra…

 

 

Algo que eu não havia dito ainda: o inglês pode variar de sotaque entre pessoas brancas e negras: essa variação linguística é o que chamamos de Black English/ Ebonic English/ Afrikan-American English. Quando Amanita no segundo episódio apresenta sua namorada às suas amigas ela diz “Hey, yall! She’s the one I’ve been talking about”. Esse yall é o mesmo que you all, e é uma abreviação especificamente feita por pessoas negras (dos Estados Unidos). Talvez você não soubesse até agora (tudo bem, Riley também não sabia), mas o inglês junto com o Suaíli, é uma das línguas oficiais do Quênia, e lá eles não usam essa expressão, mas o personagem Capheus traz no encontro com Riley: “Yes, I speak very good English”* [temporada 1 Ep.05]- Ouça como o “R” falado por ele é diferente do falado por Amanita (negra norte americana), e da própria Riley (branca inglesa),  e isso sem falar no sotaque da personagem Sun, de Seul, onde a língua oficial não é o inglês, e que também conta com suas particularidades de inglês como segunda língua… É preciso dissociar de uma vez por todas sotaque de fluência: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. E você, qual o seu sotaque?

 

 

*Sim, eu falo inglês muito bem

 

**Luane Souto é graduanda em letras com inglês, pela Universidade Federal da Bahia, é ex-comissária de bordo e atriz.

 

Crítica: Indecisa e preguiçosa, nova temporada de Dark finaliza mal uma obra promissora

ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS!

Parece ser uma missão sempre um tanto complicada procurar falar sobre as produções da Netflix que começam promissoras ou até mesmo com certo grau de primor, mas que vão se perdendo e se enrolando em sua própria teia. Este é o caso da série Dark, que chegou ao fim, neste final de semana, com o lançamento de sua terceira temporada. Mais do que com uma ideia boa, pois os dois primeiros anos do seriado são bem elaborados, os elementos técnicos possuíam certo refinamento. Este fator fazia não apenas o interesse para os caminhos da trama ser fomentado a todo momento, como a sua estética acariciava os olhos, seja em sua iluminação que dialogava com o enredo e a personalidade das personagens ou os seus cortes e movimentos de câmera que intensificavam as emoções dos conflitos da história, por exemplo.

Nada disto parece se sustentar agora. Diferentemente do que foi visto em 2019 – e você pode ler a crítica aqui -, há um abismo criativo e uma perda do controle dos roteiristas do próprio universo que eles criaram. Acrescentando uma divisão de dois mundos, o espectador se depara com uma realidade na qual Martha Nielsen (Lisa Vicari) é a protagonista, pareada com a que o público já conhece, na qual Jonas Kahnwald (Louis Hofmann) é o responsável pelos nós e desenlaces dos acontecimentos. É ai que o problema começa. Durante os seis episódios iniciais, a equipe de roteiristas – são vários, que mal se repetem – esgarçam as situações até que elas percam sentido dentro da obra. Em um ciclo sem fim, se acompanha as repetições causadas por Martha e Jonas, enquanto os outros conflitos vão sendo apagados, deixados de lado e, muitas vezes, com a morte sendo usada para causar algum tipo de desfecho.

 

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Por tentar criar emoções onde não existe, pois há uma necessidade de trabalhar e sustentar o que foi previamente elaborado para que o que está sendo mostrado crie qualquer tipo de suspensão, o ritmo se perde. Assim, as tensões são quebradas pela certeza de que, não importa o que aconteça, já se é sabido que algum Jonas ou alguma Martha vai apagar o que foi feito para tentar manter ou destruir o acidente que dá início a tudo. No entanto, o mais tenso, por assim dizer, é quando a solução é revelada e descobre-se a origem de todos os equívocos. Quando a grande revelação é feita é como se toda a construção criada no passado pela equipe fosse simplesmente abandonada. Desta maneira, pouco importa a relação de Charlotte Doppler (Karoline Eichhorn) e sua mãe/filha Elisabeth Doppler (Carlotta von Falkenhayn), por exemplo. Porque, como é apontado por Claudia Tiedman (Lisa Kreuzer), nada daquilo é real. A sensação que resta é a de que tudo é uma brincadeira de criança. Sabe quando alguém grita um “não valeu”? Então! Em Dark, acionam esta “estratégia” e os multiversos são, na verdade, somente uma divisão de um terceiro plano, anulando qualquer tipo de acontecimento com as personagens resultantes deste “bug”, porque elas são uma espécie de falha.

Porém, é importante salientar que no momento de trazer o desfecho para a série, o controle da escrita parece retornar. Ainda que as respostas praticamente anulem dois anos de construção e deixem jogadas de lado figuras que pareciam chave para tal fato, a composição da tensão e a sua amarração fazem com que o seriado volte a sua melhor forma. Os recursos de movimentação de câmera, as idas e vindas temporais e espaciais, os enquadramentos que deixam o clima de dúvida e medo, todos voltam para colocar a narrativa nos trilhos outra vez. Isto porque o jogo de gato e rato entre Jonas e Martha cessa e o encerramento vai tomando forma, sem tentar enganar o espectador para ter mais algumas horas de projeção. Além disto, há a maneira como eles criam as distinções entre as duas realidades através das cores, temperaturas e planos, um ponto alto aqui. Assim como já faziam para demarcar as temporalidades, os locais são exibidos de maneira clara, principalmente por algumas dualidades, como o futuro sombrio e úmido no plano Jonas e o quente e iluminado de Martha.

 

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No final das contas, Dark criou um mundo ficcional com muitas particularidades, cuidado e minúcia em seus dois primeiros anos, mas não soube sustentar isto. Apesar de possuir personagens complexas, com camadas de profundidades, que mereciam ser exploradas, os autores preferiram dar espaço para a cruzada de um ship flodado, desde o seu início, invocando, para tal, situações desconexas que negam as próprias regras pré-estabelecidas, desfazendo os pactos com quem a acompanha. Entre assassinatos, nascimentos e pessoas ressuscitando para simplificar a vida dos roteiristas, a terceira temporada da obra se torna simplória, medrosa e entediante, justamente porque não deixam a história avançar. É como se existisse uma pausa e um pulo para o final, com resoluções fáceis demais para o que antes havia sido oferecido.

 

Crítica: Indecisão de rumo narrativo marca segunda temporada de Coisa Mais Linda

É sempre muito árduo começar uma crítica sobre uma produção como Coisa Mais Linda. Isto porque existe todo um universo criativo esforçado, que procura imprimir certa qualidade técnica. Além do mais, é possível perceber uma pequena vontade em se redimir dos erros da temporada anterior, em relação ao que tange questões voltadas para as minorias sociais, principalmente sobre o racismo e a cegueira do feminismo branco que sufoca o ano 01 da série. No entanto, toda essa procura qualitativa oferta um resultado confuso, cheio de remendos, sem paciência e que caem, mais uma vez, no apagamento das premissas das personagens negras.

Mas, se a obra parece demonstrar ser bem intencionada, nada mais justo que começar por seu melhor núcleo: Adélia Araújo (Pathy Dejesus) e sua família. O primeiro elemento fundamental de qualidade aqui é o fato destas serem as únicas figuras da narrativa que apresentam certa complexidade, deixando a planificação para os outros. A começar pela própria Adélia que consegue mesclar diversos tons em um mesmo episódio ou até cena. Em segundos, ela fica gigante e se defende de todo qualquer perigo e injúria. Além disso, sua intérprete fomenta as camadas dela, revelando estar sempre atenta, colocando seu corpo em prontidão, ainda que esteja em uma contracena ou não seja o foco da sequência. O mesmo pode ser dito de Sarah Vitória, intérprete mirim, que faz a Conceição. A menina apresenta um cuidado, um carisma e uma consciência cênica que impressionam. Vitória parece entender o conceito básico da atuação com profundidade: o de jogar com o colega. Assim, ela não perde um olhar, nem uma oportunidade de acrescentar um detalhe que fazem as relações da garota com os pais e amigos crescerem.

 

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Para completar esta parte do elenco, a trama tem Capitão (Ícaro Silva) e Ivone Araújo (Larissa Nunes). O primeiro faz um trabalho primoroso, porque consegue escapar de diversos clichês que o texto traz, como o do marido ciumento, acomodado e músico festeiro. Silva pega isto e ressignifica, colocando um tom de preocupação, com suavidade, trabalhando com os olhares não vacilantes para a câmera. Já Nunes é ainda mais impactante de assistir! A moça é o destaque desta temporada. Com uma presença e um canto que emocionam, ainda que os autores não saibam o rumo preciso que darão para ela, há em sua construção uma dinamicidade e leveza que dão conta do que a escrita não consegue. Existe o tom jovial e agitado, combinado ao sofrimento de uma vida inteira de racismo e luta. Ela é engraçada, firme e uma das poucas que sabe desfazer a artificialidade impregnada em Coisa Mais Linda. Entre os parentes de Adélia, ainda existe Eliana Pittman, como a Elza e Val Perré, fazendo o Duque. Excelentes atores que poderiam ser muita mais bem aproveitados.

Mas, então, qual seriam os problemas? O primeiro reside nesta artificialidade e o segundo numa espécie de desespero que faz tudo que poderia ser bem realizado ir por água abaixo. A trama parte um pouco depois do cliffhanger da primeira temporada. Contudo, em poucos minutos o conflito se desfaz e outro problema é posto em prática. Assim, as situações passam a se estabelecer. Aos poucos, parece que, ainda que com alguns incômodos, haverá uma crescente de qualidade e as histórias serão exploradas. Mas, não é isto que acontece. Plots são arremessados na tela o tempo inteiro, para serem resolvidos pouquíssimo tempo depois. Nesta onda descontrolada e sem paciência de desenvolvimento narrativo, novamente todo foco vai para Maria Luiza (Maria Casadevall), porém não para a questão mais tensa, que poderia ser uma força e um crescimento dela, mas para seus ímpetos de White Savior e seus casos amorosos mornos.

 

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Com a quantidade de momentos em que ela está com conversas com Chico (Leandro Lima) e Roberto (Gustavo Machado) era possível dar atenção para os enredos de Adélia e Ivone e decidir qual seria o problema central delas durante a temporada, sem fazer todo um nó para depois abandoná-los sem costura. Ou, talvez, os roteiristas poderiam escrever melhor sobre a personalidade e a bissexualidade de Thereza Soares (Mel Lisboa), que parece ter virado outra pessoa agora, um arquétipo de si mesma, cheia de clichês e frases nada orgânicas como “A gente pode pegar as minhas Vogues francesas e procurar um modelitos perfeitos para nossa viagem para Búzios”. Inclusive, é notável a luta de Lisboa para tentar manter seus diálogos críveis.

 

ALERTA DE SPOILER!!!!!!

 

Contudo, ainda existe o ponto alto desta decepção. Quando colocam a Adélia em um estágio de câncer terminal em um episódio, para, de repente, ela estar curada, porque os médicos que disseram que ela iria morrer em pouquíssimo tempo estavam enganados é chocante a preguiça de qualquer tipo de desenvolvimento. A partir daí, passa-se a se pensar que história a equipe deseja contar e por que essa ânsia em abandonar tudo a todo tempo. Estas situações repentinas são bastante recorrentes, principalmente com as personagens negras. O desconforto é ainda maior se o espectador presta atenção nos outros elementos do seriado, que deixam mais visíveis aos olhos a forma exagerada de sua parte criativa em tocar os rumos da obra. A fotografia e a arte são um destes reforços. Principalmente em seu início, a sensação é que há uma vontade extra normal de criar significados, com uma quantidade intensa de cores repetidas, em tons fortes. Lá pela terceira cena do primeiro episódio, o público já entendeu que o amarelo e o laranja vão ser usados com o azul para contrastar com as emoções das personagens: melancolia e euforia. A morte de Lígia e a vontade de se reerguer. Assim, as tonalidades chegam estouradas e repetitivas.

No final das contas, a série reserva algumas discussões relevantes, ainda que se perca em na amarração do próprio conteúdo que traz. Resta esperar por um terceiro ano menos branco hétero cis centrado e que aprofunde as relações e conflitos, ao invés de sufocar quem assiste de situações mal resolvidas, a partir de uma vontade de tirar o fôlego, pois o efeito é reverso.

 

Terror em Série: Dicas para a Quarentena

 

Os fãs do gênero de terror crescem a cada dia e, no meio de tantas possibilidades de canais de streaming, plataformas do ambiente digital e Youtubes da vida, às vezes fica difícil saber por onde começar. Pensando nisto, a coluna Terror em Série elenca agora algumas dicas de seriados que podem dar uma animada, ou melhor aterrorizada em tempos de Coronavírus.

A seleção conta com cinco produções vinculadas nos últimos 7 anos. Com estilos diversificados, as escolham podem agradar distintos gostos e tipos de viciados no gênero. Há quem goste de todos, não é mesmo? Então, corre para ver as sugestões agora e descubra se seu seriado favorito aparece!

 

LISTA

 

O Mundo Sombrio de Sabrina | Saiba quando a 4 temporada deve ser ...

 

O Mundo Sombrio de Sabrina (2018 – )

A readaptação das aventuras da bruxa Sabrina Spellman tem até então três temporadas e dosa bem entretenimento e pautas feministas, ainda que com uma olhar um tanto genérico e, muitas vezes, superficial. Numa progressão de qualidade, o seriado mantém seu fôlego e pode prender aqueles espectadores que não dispensam um bom conteúdo  voltado ao público adolescente. Buscando quebrar as amarras patriarcais, aqui representada como a própria figura do capeta clássico, Spellman tem conflitos morais e a clássica luta entre desejo e o bem maior de todos. Além da progressiva qualidade narrativa, a obra cresce também em qualidade de linguagem, apurando seu conceito visual, numa direção que se preocupa em trazer estímulos visual que podem se refletir no efeito mais clássico do terror: despertar medo e repulsa.

 

Disponível em: Netflix

 

The Twilight Zone de Jordan Peele vai chegar ao Amazon Prime Video

 

The Twilight Zone (2019 -)

A nova versão da série clássica dos anos 1960, agora produzida por Jordan Peele (Corra!), tem, de fato, uma irregularidade em sua qualidade. Mas, o que vale nessa obra antológica é o apuro estético ligado a temas caros ao nosso tempo. Episódios como Replay, Wunderkind e Not All Men trazem de maneira ácida os absurdos das injustiças sociais, exaltando que o cotidiano é diversas vezes tão inacreditável que se encaixa perfeitamente com o universo fantástico do seriado. Um outro destaque é a narração de Peele, sua figura transcende a tela e cria uma conexão de cumplicidade verdadeira entre ele e o espectador, ao mesmo tempo que pode nos deixar desconfortáveis em nossas próprias certezas.

Disponível em: Amazon Prime Video

 

O Escolhido, nova série da Netflix, impressiona com visual e ...

 

O Escolhido (2019 -)

Dentre as séries mais acessíveis e brasileiras de terror, decidi dar uma dica que é mais uma aposta do que qualquer coisa. O Escolhido tem certo desequilíbrio em sua qualidade. Os seus diálogos são, muitas vezes, sofríveis e a aparente falta de preocupação com a direção de atores mostra a descrença dos mesmos em relação aos textos monocórdicos e quase robóticos. Principalmente na primeira temporada, têm momentos difíceis de aturar, a verossimilhança interna é quebrada diversas vezes em prol de surpresas na trama que traem o espectador de maneira constante. Mas, então qual a razão de ela estar nessa lista? O trunfo reside nos seus ganchos. A cada episódio, o roteiro prende o público de certa forma e deixa perguntas que precisam ser resolvidas, o estranhamento dos protagonistas termina sendo o nosso estranhamento e quando eles dão uma resposta, trazem muitas outras perguntas.  O enredo é intrigante e, à medida que os acontecimentos vão se desenvolvendo, a complexidade e a construção das personagens  vão se tornando mais bem realizadas. Um outro fator é o não maniqueísmo de sua protagonista que, além de carismática, tem características realistas e despertam a empatia de quem assiste.

Onde assistir: Netflix

 

Bates Motel não tem a licença renovada e sai da Netflix em fevereiro

 

Bates Motel (2013 – 2017)

A história de Norman Bates, proveniente do filme Psicose, de Alfred Hitchcock , aparece aqui mostrada sob um outro olhar. O então adolescente e sua mãe, ainda viva, mudam-se após a morte do esposo da progenitora do protagonista. Durante cinco temporadas, que conseguem manter de certa forma sua qualidade, vemos o desenvolvimento e o nascimento do psicopata e assassino de Marion Crane. A interpretação de Freddie Highmore (The Good Doctor), no papel de Norman e de Vera Farmiga (Olhos que Condenam), como Norman, se sustenta durante toda a série, jamais destoando da narrativa e, de certa maneira, auxiliam quando a trama começa a dar uma caída e o enredo se enche de fillers lá para o meio da terceira temporada. Seus dois primeiros anos e seu desfecho são o auge de Bates Motel e quando tudo se finda há a sensação de catarse e de até certa reparação na história onde só havia punição para as mulheres! Um destaque é a participação de Rihanna  (Oito Mulheres e um Segredo) como a Crane!

Onde assistir: Prime Video e Claro Video 

 

BUFFY: A caça-vampiros e o que a ... - Aparato do Entretenimento

Buffy – A Caça Vampiros (1997-2003)

Em todos os top 5 ou listas de seriados de terror não pode faltar o seriado que lançou uma das primeiras tramas girl powers da televisão estadunidense. Sarah Michelle Gellar vive a a típica cheerleader. Geralmente, esta é a típica personagem a morrer morrer primeiro em um filme de horror. Com o que a sociedade impôs como rosto angelical, juntamente com uma aptidão reduzida para os assuntos escolares, ela seria a típica personagem dispensável para a maioria das obras criadas, principalmente, pelos homens durante anos e mais anos. E é justamente por isso que Joss Whedon criou o seriado onde esta garota, rodeada por estereótipos, era, na verdade, a maior caçadora de vampiros na Terra. Grande parte dos vilões que a mocinha combate são homens e a cada temporada ela quebra estigmas, destrói representações patriarcais e mostra que é muito mais que uma menina boba numa cidade pequena. Não darei spoilers, mas, o fim da série mostra bem seu crescimento como mulher e da sua não necessidade de um homem para completar sua história. Sempre atual, divertida e repleta de vilões criativos e diferente, há muito pouco de repetição em sua narrativa e seus cliffhangers sempre são muito especiais, instigantes, como devem ser.

Onde assistir: NetNow

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Maratone como uma Garota! – Liberdades e prisões em Vis a Vis

Muitas (boas) produções espanholas têm marcado presença nas listas de maratonas de muita gente por aí. Nomes como Las Chicas del Cable (As Telefonistas, em Br) e La Casa de Papel apresentam não somente narrativas instigantes, e viciantes, mas também uma ampla diversidade de questões relativas às personagens femininas. Em Vis a Vis, encontramos um cenário muito familiar, do qual nos despedimos recentemente com Orange Is The New Black, finalizada este ano, que é a penitenciária feminina. A densidade das personagens e o desenrolar das suas histórias vão revelando nuances de personalidades e borrando fronteiras morais que poderiam parecer óbvias, levando o espectador a questionar muitos juízos pré-definidos. Mesmo se você ainda não tenha assistido, talvez esse texto possa te dar um empurrãozinho.

Apesar do plot estruturar-se numa prisão, os ares, a estética e as tramas são bem particulares. E para quem sofre de ansiedade para a 4ª temporada de La Casa de Papel, uma boa notícia: além de contar com os mesmos responsáveis (Alex Piña é o criador de LCDP e cocriador de Vis a Vis), ainda encontramos no elenco duas grandes atrizes: a maravilhosa Najwa Nimri, a inspetora Alícia Sierra de LCDP, que vive, em Vis a Vis, a “vilã” Zulema Zahir, e Alba Flores, a rainha do matriarcado Nairobi, que vive aqui a cigana Saray Vargas aqui. Dentre muitos tópicos que poderíamos explorar, a Maratone como uma Garota! deste mês discute um pouco como a noção de liberdade na produção transita entre sonho, esperança e perversão, principalmente a partir das duas personagens principais.

 

 

O título de “Orange Is the New Black Espanhola” definitivamente não faz jus ao seriado. Apesar de ambas oferecerem personagens e situações empáticas, caricatas e por vezes cômicas, retratando a diversidade que representa o mundo das prisões, o argumento de Vis a Vis, com um tom mais dramático e tenso, gira em torno, entre outros temas, da liberdade e como esta pode se tornar uma perversão. A história inicia-se com a entrada de Macarena Ferrero (Maggie Civantos) na prisão Cruz del Sur, que, enganada e apaixonada pelo ex-chefe, comete crimes fiscais. Em seus primeiros minutos encarcerada, Macarena conhece Zulema (Najwa Nimri), uma detenta geniosa e bastante perigosa. Ao encontrar um chip de celular que continha informações sobre uma grande quantidade de dinheiro escondida, a vida da mocinha e de sua família se transformam em uma montanha russa de perigos e mortes. O trunfo da série, no entanto, está mais em Zulema, quem tem uma construção menos estereotipada e mais bem desenvolvida. 

Macarena começa como a loirinha ingênua e quase inocente (um estereótipo bem típico de “boa moça”) e vai transformando-se numa bad girl* até se tornar uma das chefes da prisão. Em um primeiro momento, a protagonista até tenta ganhar força, mas continua à sombra de uma caricatural transformação de cárcere. Porém, ela começa a ganhar bons contornos a partir de meados da 2ª temporada, quando atinge um patamar em que “mal” e “bem” já não prevalecem, mas a condição humana de imprecisão e inconstância. É aí que a série também vai se mostrando mais atenta a essas falsas definições de certo ou errado. A princípio, Macarena apenas queria provar sua inocência e sua liberdade era mais de uma moral tradicional. É descobrindo como a sociedade e a justiça são bem mais sujas do que parece que seu ideal e a moral da liberdade caminham para outro sentido: entre querer sair, não ter aonde ir, não ter mais as âncoras de antes. A relação de Macarena e de Zulema tem por base, justamente, a ânsia de livrar-se dos encarceramentos, nas fugas e na prisão.

 

 

“O elfo do inferno”, como se autodefine Zulema, é a personagem mais cheia de sutilezas e tensões. Inteligente, ágil, má e sem muito afinco a sentimentalismos, a única coisa que lhe interessa é a liberdade. Seus diálogos sempre conotam, entretanto, que a liberdade é muito mais complexa do que parece. Ela quer sair da cadeia, mas não quer uma vida comum, pois como afirma “ama a vida mais que tudo”. O modo como a narrativa estrutura esta personagem se mostra bem interessante pois temos sempre muito claro que ela é humana, não uma psicopata monstruosa e fria, mas também suas ações não se justificam por conta de traumas, de sofrimentos, ainda que os haja.

Ou seja, a sua humanidade não se oculta na maldade (que ela própria não nega) e nem se apóia numa tentativa de redenção, como encontramos em muitos outros antagonistas. “Vilã” não parece ser um termo aplicável, visto que a vilania está mais nas estruturas do que nas pessoas. Zulema faz o que for necessário para ser livre. Sempre astuta, ela também reforça como os lugares na prisão – o encarcerado e o encarcerador – não estão dados. Há, porém, momentos em que o roteiro parece desfazer-se do seu peso na narrativa, forçando um escanteio mal sucedido. Grande parte da potência e sedução de Zulema (que conquistou a maior parte dos fãs de Vis a Vis) está na carga da atuação de Najwa Nimri, que maneja muito bem ironia, coragem, comédia e terror. 

 

 

A liberdade como uma espécie de perversão está presente o tempo inteiro e é um fio condutor no roteiro. Essa ideia de “perversão”, que foi também discutida pela própria Nimri em algumas entrevistas, nos diz sobre como este valor por transformar os sujeitos radicalmente, tornando-se uma obsessão. A vontade de liberdade e a atração que exerce rege não somente Zulema, mas também outras encarceradas. Muitas vezes, estar fora não é ser livre, como percebe Soledad Nuñes (María Isabel Díaz) que, condenada pelo assassinato do marido abusivo, percebe que o mundo fora das grades só lhe traz dor e culpa, e que lá não tem ninguém. Já Terê (Marta Aledo), uma viciada em heroína, começa a questionar o quão libertar-se do vício tem altos preços.

É bem verdade que Vis a Vis traz também algumas representações bastante redutoras e problemáticas para algumas mulheres da trama, especialmente a diretora Miranda (Cristina Plazas), que permanece alienada e manipulável e seu intento de humanizar a cadeia, ao invés de fortalecer, a enfraquece. Sororidade e feminismo não são o ponto mais forte desta produção, que escorrega em alguns momentos, colocando disputas um tanto misóginas entre as presas. Muitas relações amorosas são também mal desenvolvidas e algumas situações de violência sexual e estupro não têm um bom tratamento. Porém, a série consegue explorar alguns pontos importantes na trama e é muito viciante. 

 

Terror em Série: O Escolhido – Homem de Fé, Mulher com a Razão

O cinema brasileiro de terror vem crescendo cada vez mais e nomes como Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Juliana Rojas, trazem uma diversidade e características próprias a esses filmes. Produtos de gênero têm cada vez mais espaço e há um crescimento de produção e distribuição.

O público nacional é um dos públicos que mais consome terror no mundo. Mas, ainda existe certo preconceito de muitos espectadores para assistir produtos que lidam com o fantástico e O escolhido traz características que podem ajudar a reforçar essa crença de falta de qualidade nos filmes e séries de gênero brasileiros.

 

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A nova série da Netflix traz uma premissa interessante: médicos tentam extinguir o vírus zika do Pantanal, porém, no caminho, acabam achando uma estranha cidade onde ninguém fica doente, ninguém morre. Parece um bom argumento para ser vendido num pitching, por exemplo. Uma história que quando alguém conta tem sim certo impacto. Narrativamente, fora essa boa ideia, pouco caminha positivamente.

A questão principal de O escolhido são os diálogos. Textos engessados, ditos de maneira robótica, dificilmente conseguirão criar uma conexão com o espectador. Cenas inteiras para explicar acontecimentos, como funciona a cura feita pelo Escolhido. A maneira como a progressão dos fatos acontecem são dispensáveis, isso porque muito do mistério é desnecessário já que de pronto se entende o que está acontecendo na história. O fruto dessa tentativa de criar certo suspense são momentos em que o roteiro busca confundir o espectador, colocar obstáculos para ele demorar de chegar em alguma conclusão.

 

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Então, a série termina sendo um amontoado de explicações que são sempre revogadas ou colocadas em dúvida, mais atuações que despertam pouca crença na mitologia da série. Além disso, as personagens são mal desenvolvidas, o arco dramático de cada uma delas não consegue nem provocar empatia do espectador, nem deixar claro como as mesmas pensam e/ou se sentem em relação aos acontecimentos. Os habitantes da cidade dizem somente coisas clichês, frases de efeito. Os médicos, um pouco mais elaborados, tomam atitudes que movem pouco a trama para frente e são bastante previsíveis. Já o escolhido, é o rei das frases de efeito e diz suas falas de maneira empolada, cheio de gestos, mas, não imprime nuances em sua interpretação.

O seriado é bem filmado e tem seus bons momentos visuais. A escolha de enquadramentos consegue traduzir bem o olhar da protagonista, Dra. Lúcia, e a câmera escolhe bem o que mostrar durante as cenas onde o espectador entende aquele universo da mesma maneira que a médica. Talvez se a série focasse menos em diálogos e mostrasse mais momentos de percepção do fanatismo sem muitas explicações, deixando espaço para o público elucubrar, teríamos uma obra de mais qualidade. O fim da temporada deixa um cliffhanger interessante, se houver mais episódios a expectativa é de uma melhora, até porque há verdadeiro potencial para se explorar.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Crítica: Terceira parte de La Casa de Papel é morna e um grande déjà vu

por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de um hiato de quase dois anos, chega ao catálogo da Netflix a terceira parte de La Casa de Papel. Logo no início, é possível notar como o valor de produção cresceu. A percepção pôde ser confirmada pelo criador da série, Álex Pina (Vis a Vis), afirmou, em entrevista para o G1, que não havia limites de gastos por episódio. Assim, o espectador pode encontrar uma roupagem mais sofisticada imageticamente. Mais ângulos, mais locações, efeitos, quantidade de atores, figurantes e equipe técnica envolvida na obra etc.

Nesta parte, é inegável afirmar o avanço do seriado, em comparação com sua temporada anterior. Nos oitos novos episódios, com a maior fatia dirigida por Jésus Colmar (Vis a Vis), a câmera revela um clima de mais tensão e ação, com explosões intensas, revolta de uma multidão e perseguição de carro, que inclui capturas áreas da imagem. No entanto, apesar deste crescimento técnico, La Casa de Papel continua pecando em alguns mesmos aspectos vistos em 2017 e em questões outras.

 

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Primeiramente, existe um incomodo que são as repetições narrativas em relação ao assalto anterior. Situações  semelhantes são postas, apenas com mudanças de local e detalhes. A personagem Palermo (Rodrigo de la Serna), por exemplo, entra como um substituto de Berlín (Pedro Alonso), sendo o machista asqueroso e com textos que poderiam ter sido facilmente ditos pela personagem de Alonso. Este é apenas um caso de tantos outros que ocorrem. As cenas de cantoria, as discussões, os conflitos entre as figuras centrais da trama, tudo remete ao roubo da Casa da Moeda.

A sensação é de que os produtores queriam repetir seu sucesso e criar momentos memoráveis o tempo inteiro e isto faz com que o ritmo não se equilibre. As cenas de ação e os plots twists acabam tendo seus impactos reduzidos pela certeza dos próximos acontecimentos mostrados na tela, já que o público viu as mesmas estratégias, os mesmos problemas e resoluções anteriormente. Mas, existe o ponto alto deste fator e não siga para os próximo parágrafos se ainda não assistiu a terceira parte do enredo.

 

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Em um dado momento, nota-se que o Professor (Álvaro Morte) finalmente tem um ponto fraco e que ele é a sua namorada, Raquel Murillo/Lisboa (Itziar Ituño). Numa sequência que busca ser tensa, por seus cortes e música incidental, fica subentendido que a ex-inspetora Murillo foi executada. Quando o fato parece ter ocorrido, fica a reflexão de que o seriado parece tentar discutir a misoginia e trazer todo um discurso progressista, mas coloca a figura feminina mais forte da narrativa inteira para ser apenas o interesse amoroso do protagonista e eliminá-la seria o elemento que o deixaria mais forte e poderoso.

Como se não bastasse esta visão antiquada, fica-se sabido, minutos depois, que Lisboa não faleceu, está viva, no caminhão da polícia. Ou seja, além dela ser a isca para o homem que assume o comando de tudo, dela ter sido fraca e de pouca inteligência para escapar com suas escolhas, a obra não tem coragem de eliminar a personagem, tomando um caminho óbvio e sem graça, porque em todo o percurso que fez, jamais retirou personas mais importantes, sempre as deixando em grandes cliffhangers, para depois salvá-las.

 

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No final das contas, é perceptível que a discussão feminista é rasa, apenas de enfeite para demonstrar uma imagem positiva, mas que mantém o patriarcado incrustado completamente nos diálogos e ações, deixando as mulheres como mais fracas (Tóquio bêbada porque foi deixada por Rio; Nairóbi com um tiro porque seu instinto maternal foi mais forte do que ela e Raquel na prisão por estar apaixonada). Os rapazes ficam, assim, no comando de toda situação e retém todo poder. Não à toa, todos os episódios são comandados por diretores masculinos e os roteiristas são quase todos…? Homens.

No resultado geral, La Casa de Papel entrega um resultado mediano, nada além da já esperada estrutura feita para criar frases de efeito para internet, memes e posts que podem virar textão,  mas vazio por dentro. As personagens não ganham complexidades e a terceira parte é uma cópia das anteriores, criando tédio durante sua exibição.

 

Críticas: Segunda Temporada de “Dark” é mais sólida e intensa

 

Por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de uma espera de quase dois anos, a Netflix disponibilizou a segunda temporada da série Dark. Realizada na Alemanha, a produção chega neste novo ano com mais fôlego, um enredo menos óbvio do que a da sua antecessora e com mais fios para compor a sua teia de Ariadne. Após o cliffhanger do 1×10, o público descobre um pouco das consequências das ações de Jonas (Louis Hofmann) no “passado”, “presente” e no “futuro”. Com isto posto, o jovem precisa compreender quais os melhores passos seguir para evitar uma tragédia que está por vir.

Aqui, um dos maiores ganhos é a forma como o protagonista continua a ser o fio condutor da trama, mas agora deixando que as outras histórias se desenvolvam com mais profundidade e sob outras óticas além da sua. Não apenas as viagens no tempo, mas as decisões e suas consequências são postas nas mãos de todos os indivíduos importantes da trama, mas o gancho nunca deixa de ser a personagem principal. Assim, as escolhas de Baran bo Odar (Crimes na Madrugada), e dos outros roteiristas que assinam com ele, traz um equilíbrio e maiores surpresas para o desenvolver dos atos postos em cada sequência.

 

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O jogo de cores no figurino – criado por uma equipe de mais de dez pessoas – e o de luz e sombra na fotografia, feita por Nikolaus Summerer (Invasores: Nenhum sistema está salvo), continuam sendo marcas de linguagem selecionadas para ambientar o espectador em que período os fatos narrados estão acontecendo. Contudo,  sem nunca perder os tons neutros, principalmente bege e marrom, que instalam sensações ambíguas que vão de uma ambiente depressivo até um local caseiro, que inspira conforto e segurança.

A complexidade de Dark também está na direção, nos movimentos de câmera que revelam múltiplas visões de um mesmo fato, revelado apenas depois que o público descobre quem está envolvido na situação. Outro recurso bem utilizado é a câmera subjetiva que instaura um clima de tensão e dúvida, até que o narrador seja evidenciado, com uma plano médio ou até um close, criando uma espécie de cumplicidade com a plateia. Nestes instantes, sempre fica estabelecida uma incerteza se um plot twist virá ou não. Além disso, mais uma camada de informação é colocada, podendo instigar quem assiste e amarrando acontecimentos prévios.

 

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No entanto, apesar de conseguir elevar a qualidade em relação ao primeiro ano, os novos episódios pecam em não irem tão além do que já tinha sido mostrado. Apesar dos reforços em contar as trajetórias dos indivíduos mostrados na tela, dos fatos serem esmiuçados e duas revelações serem contadas – uma muito impactante e outra nem tanto – a finale deixa certo gosto de engano. Isto porque o cliffhanger é perigoso para a qualidade do desfecho do seriado – outras ficções já tentaram seguir por este caminho e falharam, ou não – e porque nenhum elemento diferente é posto. As ações prosseguem e as vidas permanecem. Resta apenas descobrir se toda a premissa original irá levar a história para algum lugar.

 

Crítica: Segunda temporada de Samantha! é mais divertida e intensa que anterior

por Enoe Lopes Pontes

 

Neste mês, a Netflix, como de praxe, disponibilizou o conteúdo inteiro do segundo ano da série nacional Samantha! Com sete episódios, a produção conseguiu crescer por apresentar um equilíbrio maior em seu ritmo. Isto, porque a narrativa mesclou os tempos de cena de cada conflito com uma atmosfera dos sentimentos das pessoas mostradas na tela, seus desejos secreto e sensações pessoais. E é aqui que está o grande ganho do seriado! Além de ter as gags e situações divertidas esperadas de Samantha (Emanuelle Araújo), Dodói (Douglas Silva), Cindy (Sabrina Nonata) e Brandon (Cauã Gonçalves), o público descobre também questões do íntimo deles, principalmente da protagonista. Talvez, tenha sido até uma estratégia positiva primeiro apresentar arquétipos de figuras típicas do imaginário brasileiro, como a estrela mirim dos anos 1980 ou o jogador de futebol enrolado, para depois ir mais a fundo nos detalhes sobre elas.

Os roteiristas (Paula Knudsen, Felipe Braga etc) vão colocando pinceladas de informação, lentamente. O espectador vai tendo contanto com a trajetória da “mocinha” e seus problemas na infância. Aos poucos, é possível montar o quebra-cabeça com as peças dadas por eles. Na história, Samantha começa a traçar seu caminho para crescer verdadeiramente e fazer papéis mais sérios, além de buscar ser boa mãe também. Este ápice acontece no 2×06 quando, finalmente, é explicada a relação da artista com a TV e pouco de suas origens.

 

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Araújo traz alguns detalhes em seus olhares que demonstram este amadurecimento e coloca até pequenas modificações de postura corporal, em momentos mais profundos. Contudo, todas as marcas que fazem parte de sua personalidade anteriormente continuam presentes, não se perdem. Assim como Samantha; Dodói, Cindy e Brandon recebem arcos com mais complexidade. Estas são de menor grau, é bem verdade, mas ganham. Porém, os atores não acrescentaram nada de diferente. Não que isto seja um ponto muito negativo. Contudo, poderia ter acontecido um desenvolvimento mais forte na atuação.

Uma possibilidade seria um trabalho do corpo que mostrasse um Dodói com uma pitada de sisudo, porque começou a cursar a faculdade de Direito. Ou, Cindy – que entrou, de fato, na adolescência – e Brandon – que decidiu aceitar que é mesmo uma criança -, poderiam trazer um pesar e uma leveza nas suas interpretações ou qualquer nuance de mudança. Afinal, eles passaram e estão passando por coisas que os afetaram, pelo menos isto aparece no texto que eles dizem, que confirma emoções e decisões novas. Mas, este fator pode ser uma falta de atenção e delicadeza da direção também, que colocou o foco maior na protagonista.

 

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Contudo, esse fato não compromete e coisas como não ter muito filler chamam mais atenção. Todos os acontecimentos são muitos justinhos dentro da trama. Samantha precisa crescer! Este é seu objetivo e toda a narrativa deste ano foca nisso, juntamente com subtramas que, ao invés de atrapalhar, ajudam a levantar o enredo principal. O relacionamento de mãe e filha entre Samantha e Cindy, a nova carreira de Dodói e os medos de Brandon, tudo isso fomenta o nó central, o desenlace e o cliffhanger do final.

Ainda que existam pequenas questões como dicção dass crianças e coadjuvantes de personalidade chapada, Samantha! se superou. A dinâmica entre o elenco continua a funcionar e camadas de complexidade foram colocadas, mostrando que a antiga artista mirim é muito mais do que quem assiste esperava, ela é uma OR…

 

 

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