Terror Em Série – Não pisque! Maratona de Terror Doctor Who!

 

A nova geração de uma das séries britânicas mais bem sucedidas na história televisiva, Doctor Who, trouxe uma nova leva de fãs, ou melhor, Whovians. Apaixonados pelo universo do viajante do tempo de Gallifrey, Whovian que é Whovian sempre quer aumentar o clã e apresentar a pluralidade temática, visual e narrativa do seriado.

Há uma quantidade expressiva de listas que indicam possíveis ordens para assistir Doctor Who ou por onde começar somente. Aqui, na nossa coluna, aproveitando que temos leitores que curtem terror, traremos uma lista com os episódios mais assustadores, protagonizados do nono doutor em diante. Sim, além de ser uma obra de ficção científica, ela também perpassa por outros gêneros e saiba que muitos dos melhores episódios são, justamente, os de terror.

Para não dar juízo de valor ou criar uma ordem que impõe um tom de hierarquia qualitativa, resolvi colocar os episódios por suas temporadas! Ah! E, tentei não colocar spoilers, mas, sempre sabemos que o conceito de spoiler termina sendo um pouco subjetivo para alguns. Então, atenção!

Preparados?

 

1 – THE EMPTY CHILD (01×09 – Doctor: Christopher Eccleston/ Companion: Rose):

 

 

Em meio a Segunda Guerra Mundial, o Doutor e sua companheira Rose (Billie Piper) estão em busca de um cilindro, mas, acabam encontrando criancinhas estranhas que usam máscara de gás. Essas criaturinhas ,que aparentam não ter personalidade ou até mesmo consciência, perguntam repetidas vezes para todos que encontram: “você é a minha mamãe?”

Além de perseguirem as pessoas com a suas vozes maquinais e assustadoras, todos previnem o Doutor para que ele não deixe que as menininhas e menininhos toquem nele. O episódio consegue estabelecer uma atmosfera de suspense, fazendo com que esses serzinhos assustadores surjam das sombras, dos lugares inesperados e também há uma progressão de urgência, a quantidade de crianças aumenta e o sentimento de repulsa e medo das mesmas se torna inevitável. Após a resolução do conflito, assumo que você pode se sentir culpado de querer jogá-las para o mais longe possível.

Acrescentando-se ao fato de ser bem realizado, existe um outro ponto positivo para conhecer a série a partir de Empty Child. É nele que conhecemos o capitão Jack Harkness (John Borrowman), ao lado de Rose e do Doutor, ele traz os momentos de alívio cômico, deixando o trio mais simpático e divertido.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=UxkaHcI7r18

 

2-  THE SATIN PIT (02X09 – Doctor: David Tennat/ Companion: Rose):

 

Continuação do episódio The Impossible Planet, Satin Pit mostra os encaminhamentos do mistério que assola uma nave. Talvez numa das tramas mais macabras já realizadas na série, vemos uma tripulação que está sendo possuída por uma entidade ou ser desconhecido denominado de A Besta. A trama traz uma representação demoníaca interessante, assumindo os poderes sobrenaturais do ser mostrado, mas, dando uma conotação quase científica para a figura do Santanás.

O que mais aterroriza na trana é que é possível ter a sensação de aprisionamento, já que o Doutor e sua companheira Rose estão sem seu dispositivo de viagem no tempo, a TARDIS. Logo, eles estão presos numa situação misteriosa, lutando, primeiramente, contra um ser ainda amorfo. Apesar de um acertado confronto final trazer questionamentos filosóficos e uma batalha discursiva entre o Doutor e o demônio, a visualização em forma de monstro, que conecta-se com a figura do imaginário coletivo, faz com que seja mais fácil lidar com o que dava mais medo na construção da ambientação de todo episódio: o inimigo não palpável, que não se sabe de onde vem.

Contudo, não deixa de valer a pena conferir, as certezas do Doutor, as tentativas de explicação práticas, caem por terra, mostrando um lado vulnerável do viajante temporal!

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Fr5cqfQJsbo

 

3-  BLINK (03×10 – Doctor: David Tennat/ Companion: Martha):

 

Um dos episódios mais aclamados de Doctor Who, Don’t Blink é uma unanimidade entre os fãs. Na trama onde só vemos os protagonistas quase que somente por fitas gravadas, temos Sally Sparrow, interpretada por Carey Mulligan, como personagem central da história.

O Doutor, preso em 1969, precisa impedir que os Weeping Angels tomem controle da TARDIS que está no mesmo ano que Sally, em 2007. O que mais assustas nessas criaturas, que são estátuas de anjos, é a maneira como agem rápido e, é claro, o fato que elas se movem toda vez que você pisca os olhos, se você não tomar cuidado, elas de transportam para outra época, sem ter como voltar para o período em que vive.

Como já ressaltei nos episódios citados acima, a série sabe trabalhar com o jogo entre horror/pavor e urgência, há uma maestria em cercar os envolvidos na trama, sem deixar muito espaço para esperança. Estou destacando esse fator porque em muitos episódios há uma atmosfera de segurança, sabemos que tudo vai ficar bem, que todos se salvarão. Mas, uma coisa que não existe quando falamos sobre esses seres alados de pedra é segurança.

Quanto mais os Wheeping Angels aparecem maiores são os danos causados por eles, pelo menos é a impressão que fica. Mais adiante, muitas outras histórias acontecem tendo-os como vilões e uma boa mitologia é criada. E deve-se admitir que estátuas pensantes que te transportam para outra época é algo muito assustador. O layout delas, por assim dizer, também não é visualmente agradável, mas há aqueles com coragem para comprar toy art dos Angels, coragem demais.

Eu posso apostar que depois de assistir Blink, você vai ver estátuas de uma outra forma. Eu, pelo menos, sempre confiro para ver se elas estão no mesmo lugar.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=o8ls2oHq8Bw

 

4 – SILENCE IN THE LIBRARY (04×08 – Doctor: David Tennat Companion: Donna):

 

No episódio onde somos apresentados à River Song, uma personagem que se mostrará espetacular e cheia de mistérios particulares que vão se desenvolver por muitas outras temporadas, temos tudo que há de mais especial neste seriado: uma ameaça invisível, predadora e que devasta tudo que há pela frente. Pode ser até um aparente gosto particular, mas, quando o Doutor não consegue explicar ou se ver vulnerável de fato em frente à um perigo, as coisas se tornam mais instigantes.

Dentro de uma biblioteca do tamanho de um planeta, vemos um clima de perigo eminente, onde o jogo de luz e sombras se torna fundamental para reforçar a ambientação terrorífica da história. Vashta Nerada é implacável, tira sua carne até os ossos instantaneamente e pode estar em qualquer lugar e entrar até nos trajes espaciais usados pela comitiva de River.

É interessante ver a paciência para construir a ideia de pânico entre as personagens e a calma de inicial de Song nos deixa mais próximos de um ponto de vista do Doutor que ainda não a conhece, mas, ela afirma que sabe muito sobre ele e tem um diário em forma de TARDIS. O suspense do episódio aumenta por estarmos todos desconfiados, assim como a personagem de Tennat. Eu poderia falar mais sobre a relação dos dois, mas, seria spoiler!

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=htLVk1eFQVE

 

5- THE VAMPIRES OF VENICE (05×06 – Doctor: Matt Smith/ Companions: Amy Pond e Roy Williams):

 

 

Após a saída de Russell T. Jones como produtor executivo e de Tennat como o Doutor, vemos uma outra atmosfera que se instala com a entrada de Steven Moffat e Matt Smith. Certa prioridade em tramas interplanetárias e mais voltadas à ficção científica, dão lugar para uma mitologia mais cunhada no fantástico, principalmente, durante a era do décimo primeiro viajante no tempo.

Neste episódio – que trabalha bem a tríade Doutor, Amy e Roy e suas relações – vemos um clima que remete ao Drácula, de Fracis Ford Coppola, um pouco menos sombrio, de certa maneira. Como diz em seu título, a história se passa em Veneza, na época da Peste e tem em suas locações, direção de arte e figurino o verdadeiro potencial de nos levar junto nessa viagem temporal.

Em The Vampires of Venice há algo que, sempre que se repete no seriado, deve-se dar valor, eles conseguem explicar figuras do imaginário fantástico quase sempre como criaturas alienígenas que têm algum desejo de tomar, possuir e/ou destruir o planeta Terra. Ainda que na verossimilhança externa, ou seja, em nossa realidade, pareça ainda fantástico, no universo de Doctor Who termina sendo uma explicação científica, de compreensão lógica para nosso detetive interplanetário.

Smith também traz um frescor jovial ao personagem que agora tem mais facilidade de escalar prédio e lutar de maneira mais incisiva, deixando esse episódio um dos mais divertidos de sua temporada.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=doATg3A74-s

 

6 – NIGHT OF TERROS (06×09 – Doctor: Matt Smith/ Companions: Amy Pond e Roy Williams):

 

Os primeiros medos, que atormentam todos nós durante a infância, são explorados nesse episódio que sai um pouco da curva e traz respiro para a sexta temporada de Doctor Who. Num ritmo menos apressado, desenvolvendo sua trama com paciência e, pode-se dizer que, até certo sadismo, Night of Terrors mostra o trio ajudando um garoto de oito anos que tem medo de quase tudo. Enquanto o Doctor tenta ajuda-lo, Amy e Roy ficam presos rodeados de bonecos nada fofos.

Nessa história é o não acontecer, os silêncios que permeiam os ambientes que reforçam o absoluto terror da situação vivida pelos protagonistas. Como crianças que todos nós fomos um dia, eles ficam, de certa forma, receosos, tateando no escuro, esperando os fantasmas saírem das sombras, dos armários, debaixo da cama. A empatia de quem já teve algum medo parecido pode ser imediata e a lentidão do desenvolvimento do arco colabora para a sensação de pânico empático, vamos assim dizer.

Claro que, por ter esse ritmo específico, pode não agradar aqueles que preferem episódios mais voltados para aventuras, como o anterior, por exemplo. O que acredito é que, por já ser um produto consolidado, o seriado tem o privilégio de explorar gêneros e maneiras novas de abordar o cotidiano do Doutor e de seus companheiros. Para quem é mais paciente e não fica no furor de maratonar ou acabar tudo de uma vez só, resta saborear essa história que joga com o subconsciente do espectador e com aquele desejo que desperta já quando somos adultos e ouvimos algum barulho misterioso: “não deve ser nada”, repetimos e aqui a gente tem plena convicção de que sim, há algum ser ou seres muito (s) macabro (s).

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=tXAsB5zn6TI

 

7 – HIDE (07×09 –  Doctor: Matt Smith/ Companion: Clara Oswald)

 

 

O que estava faltando nessa lista, dentro do imaginário das histórias de terror, aparece neste episódio: fantasmas. Apesar de poder despertar um certo estranhamento, por trazer um estilo visual um pouco diferente do que o costumeiro, o diretor Jaime Payne consegue criar um microuniverso visual com seu olhar criativo.

Há uma decupagem, certamente, muito característica do horror, que presa por cortes rápidos e planos médios de aparentes vultos que passam atrás dos mocinhos, mas, há também uma liberdade de movimentação de câmera e escolha de enquadramentos que traz deste episódio em diante uma busca por esse olhar de diretor. Depois de Hide, nota-se uma interferência de tentar sair do lugar comum para traduzir em imagens os sentimentos das personagens.

Claro que, desde a entrada de Moffat, houve um cuidado de arte e direção, não direi maiores, mas, mostrando uma particularidade de cada episódio, trazendo estéticas menos genéricas e marcando a singularidade de cada trama.

Este é um episódio que até o Doctor assume que está com medo, da empolgação como se estivesse num filme de Ghost Busters até o verdadeiro pavor e incerteza, passeamos por uma mansão repleta de cenários especialmente aterrorizantes. Há na narrativa uma proximidade com o lugar comum, com já conhecidas histórias de mistério, mas aqui, vê-se a utilização da mesma com plena consciência de que há uma mistura entre pastiche e homenagem para, no fim dos acontecimentos, tentar fugir do desenlace esperado.

Hide é tão cool e pode fazer o espectador imergir tanto na trama que talvez haja a chance de esquecer que nele há a sem graça Clara Oswald.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=0C8io51oTAo

 

8 – LISTEN (08×04 – Doctor: Peter Capaldi/ Companion: Clara Oswald):

 

Ok…esse episódio também tem fantasma e também tem a Clara Oswald. Talvez, para ter um punch a mais, realmente, só com seres etéreos e, claro, a combinação Capaldi+Oswald já é melhor do que Smith+Oswald.

De qualquer maneira, vamos lá. As temporadas estreladas pelo décimo segundo doutor têm um teor muito mais próximo às criaturas alienígenas ou histórias de naves, mais ligadas à ficção científica clássica. Aos poucos, isso vai mudando até o fim do seu ciclo, contudo, no geral, é bem por aí. Por isso, Listen se destaca dentre as tramas capaldianas e desperta na memória aquela sensação de perigo e urgência vista somente no tempo onde Tennat era estrela ou, no máximo, quando os Wheeping Angels apareciam.

Novamente jogando com os medos da infância, a história nos faz questionar: e se nunca tivermos estado sós no mundo? E se esses seres estivessem nos acompanhando e ficassem embaixo da cama aguardando pela oportunidade de puxar nossos pés de noite. O destaque de episódio vai para a construção narrativa e o despertar do medo através daquilo que não vemos ou que vemos em pedaços, em fragmentos que traduzem pesadelos, que remetem aos sonhos mais sombrios cravados no imaginário coletivo. “Não olhe”, diz o Doctor e tudo o que queremos é olhar, numa mistura de pânico e curiosidade, na sensação que essa história pode nos levar para um abismo, ainda que subconsciente.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=6MEHSCBYaHQ

 

9 – UNDER THE LAKE (09×03 – Doctor: Peter Capaldi/ Companion: Clara Oswald):

 

Terminando a trilogia fantasma feat. Clara Oswald, temos agora seres etéreos verdadeiramente assassinos. Com um visual mais humanizado, talvez até mais palpável, a ameaça vem de uma tripulação em perigo onde suas mortes alimentam cada vez mais o exército de mortos.

O mais interessante desta trama é a maneira como a compulsão por gerar novos fantasmas é explicada, mais uma vez trazendo um teor científico ao inexplorado. Quanto mais mortos, maior o sinal das coordenadas que estão sendo enviadas para uma igreja na cidade submersa. Outro destaque é o retorno dos Tivolians, criaturas que foram anteriormente mostradas na era do décimo primeiro doutor, no episódio Complexo de Deus.

Apesar de não trazer muitas novidades para o arco da temporada, vale como uma das aventuras despretensiosas do Doutor, desmembrando-se no episódio seguinte, Before the Flood. Para um Whovian, ainda há sempre o prazer de conhecer mais um pouco sobre os outros seres intergalácticos que habitam a enciclopédia de espécies do viajante no tempo.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=5msVQwu-xgk

 

10 – KNOCK KNOCK (10×04 – Doctor: Peter Capaldi/ Companion: Bil Potts e Nardole):

 

Voltando às aventuras mais emocionantes e que despertam aquele típico desespero de quem assiste Doctor Who, temos mais um elemento clássico de gênero: a casa que tem vida própria. Vejam bem, diferente de mansões mal-assombradas, onde há fantasmas e afins, aqui temos um local que é perigoso em si, onde as portas, paredes, tudo ao redor pode ser fonte de ataque.

O episódio lembra um pouco Playtest, de Black Mirror, principalmente pela direção de arte e paleta de cores da fotografia. As escolhas visuais estão atreladas aos elementos que irão provocar o terror, apresentando uma estrutura coesa que amarra a trama para dentro. Apesar de ser um lugar grande e supostamente espaçoso, seus corredores são, além de estreitos, povoados de móveis e prateleiras com livros, deixando o ambiente sufocante e repressor.

As paredes de madeira, que parecem que se partirão a qualquer momento, tem continuidade de cor com o chão, tudo no mesmo tom de marrom, formando quase que um quadrado sem saída, deixando pouco respiro. A luz corrobora com este possível sentimento, puxada para o âmbar, tendo como fontes abajures, tornando os lugares com uma aparência de pouca iluminação, trazendo uma imersão das personagens dentro do cenário, o que casa muito bem com a proposta da trama. É aquela casa onde as crianças criam histórias aterrorizantes e que dá a impressão de quem entra não sai mais dali. Muito se esconde entre luz e sombra nesse episódio que é exitoso em provocar repulsa ao mesmo tempo que certa ansiedade de ver o mistério sendo desvendado, a clássica, história de agonia.

 

Trailer:  https://www.youtube.com/watch?v=5y-h6_HLyec

 

11-  KERBLAM (11×07 – Doctor: Jodie Whittaker/ Companions: Yasmin, Graham e Ryan):

 

Há muito a ser explorado no que se diz respeito ao medo quando falamos em seres inanimados com vida. Diferente dos Daleks ou Cybermans, os TeamMeats tem um aspecto que deveria ser amigável, contudo, é esse sorriso feliz e robótico que os deixa ainda mais assustadores.

Neste episódio, vemos um crescimento da temporada que é bastante irregular, tirando “Rosa”, até então, vê-se uma falta de rumo e uma quantidade de conflitos, tanto de vilões quanto dos companions que não é possível dar conta em um pouco mais de quarenta minutos, deixando tudo um pouco desinteressante. Por isso, Kerblam traz certo frescor, voltando a se focar em um conflito somente e que pode envolver o público nessa história que une bem terror, ficção científica e narrativa de detetive.

Como o TeamMeats são iluminados, os ambientes escuros ressaltam suas presenças, dando um ar de demoníaco aos bonecos robôs. A trilha de caixinha surpresa também reforça a doçura simpática aterrorizante que parece ter certo poder onipresente. Apesar da premissa meio Skynet aparentar não ser muito inovadora, é na simplicidade narrativa que esse episódio se faz, retornando à trama de uma só locação, do perigo que se mostra como impossível de lutar contra, um clássico Whoviano.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=5hQl17qHHuw

 

 

 

 

 

 

 

 

Terror em Série: Dicas para a Quarentena

 

Os fãs do gênero de terror crescem a cada dia e, no meio de tantas possibilidades de canais de streaming, plataformas do ambiente digital e Youtubes da vida, às vezes fica difícil saber por onde começar. Pensando nisto, a coluna Terror em Série elenca agora algumas dicas de seriados que podem dar uma animada, ou melhor aterrorizada em tempos de Coronavírus.

A seleção conta com cinco produções vinculadas nos últimos 7 anos. Com estilos diversificados, as escolham podem agradar distintos gostos e tipos de viciados no gênero. Há quem goste de todos, não é mesmo? Então, corre para ver as sugestões agora e descubra se seu seriado favorito aparece!

 

LISTA

 

O Mundo Sombrio de Sabrina | Saiba quando a 4 temporada deve ser ...

 

O Mundo Sombrio de Sabrina (2018 – )

A readaptação das aventuras da bruxa Sabrina Spellman tem até então três temporadas e dosa bem entretenimento e pautas feministas, ainda que com uma olhar um tanto genérico e, muitas vezes, superficial. Numa progressão de qualidade, o seriado mantém seu fôlego e pode prender aqueles espectadores que não dispensam um bom conteúdo  voltado ao público adolescente. Buscando quebrar as amarras patriarcais, aqui representada como a própria figura do capeta clássico, Spellman tem conflitos morais e a clássica luta entre desejo e o bem maior de todos. Além da progressiva qualidade narrativa, a obra cresce também em qualidade de linguagem, apurando seu conceito visual, numa direção que se preocupa em trazer estímulos visual que podem se refletir no efeito mais clássico do terror: despertar medo e repulsa.

 

Disponível em: Netflix

 

The Twilight Zone de Jordan Peele vai chegar ao Amazon Prime Video

 

The Twilight Zone (2019 -)

A nova versão da série clássica dos anos 1960, agora produzida por Jordan Peele (Corra!), tem, de fato, uma irregularidade em sua qualidade. Mas, o que vale nessa obra antológica é o apuro estético ligado a temas caros ao nosso tempo. Episódios como Replay, Wunderkind e Not All Men trazem de maneira ácida os absurdos das injustiças sociais, exaltando que o cotidiano é diversas vezes tão inacreditável que se encaixa perfeitamente com o universo fantástico do seriado. Um outro destaque é a narração de Peele, sua figura transcende a tela e cria uma conexão de cumplicidade verdadeira entre ele e o espectador, ao mesmo tempo que pode nos deixar desconfortáveis em nossas próprias certezas.

Disponível em: Amazon Prime Video

 

O Escolhido, nova série da Netflix, impressiona com visual e ...

 

O Escolhido (2019 -)

Dentre as séries mais acessíveis e brasileiras de terror, decidi dar uma dica que é mais uma aposta do que qualquer coisa. O Escolhido tem certo desequilíbrio em sua qualidade. Os seus diálogos são, muitas vezes, sofríveis e a aparente falta de preocupação com a direção de atores mostra a descrença dos mesmos em relação aos textos monocórdicos e quase robóticos. Principalmente na primeira temporada, têm momentos difíceis de aturar, a verossimilhança interna é quebrada diversas vezes em prol de surpresas na trama que traem o espectador de maneira constante. Mas, então qual a razão de ela estar nessa lista? O trunfo reside nos seus ganchos. A cada episódio, o roteiro prende o público de certa forma e deixa perguntas que precisam ser resolvidas, o estranhamento dos protagonistas termina sendo o nosso estranhamento e quando eles dão uma resposta, trazem muitas outras perguntas.  O enredo é intrigante e, à medida que os acontecimentos vão se desenvolvendo, a complexidade e a construção das personagens  vão se tornando mais bem realizadas. Um outro fator é o não maniqueísmo de sua protagonista que, além de carismática, tem características realistas e despertam a empatia de quem assiste.

Onde assistir: Netflix

 

Bates Motel não tem a licença renovada e sai da Netflix em fevereiro

 

Bates Motel (2013 – 2017)

A história de Norman Bates, proveniente do filme Psicose, de Alfred Hitchcock , aparece aqui mostrada sob um outro olhar. O então adolescente e sua mãe, ainda viva, mudam-se após a morte do esposo da progenitora do protagonista. Durante cinco temporadas, que conseguem manter de certa forma sua qualidade, vemos o desenvolvimento e o nascimento do psicopata e assassino de Marion Crane. A interpretação de Freddie Highmore (The Good Doctor), no papel de Norman e de Vera Farmiga (Olhos que Condenam), como Norman, se sustenta durante toda a série, jamais destoando da narrativa e, de certa maneira, auxiliam quando a trama começa a dar uma caída e o enredo se enche de fillers lá para o meio da terceira temporada. Seus dois primeiros anos e seu desfecho são o auge de Bates Motel e quando tudo se finda há a sensação de catarse e de até certa reparação na história onde só havia punição para as mulheres! Um destaque é a participação de Rihanna  (Oito Mulheres e um Segredo) como a Crane!

Onde assistir: Prime Video e Claro Video 

 

BUFFY: A caça-vampiros e o que a ... - Aparato do Entretenimento

Buffy – A Caça Vampiros (1997-2003)

Em todos os top 5 ou listas de seriados de terror não pode faltar o seriado que lançou uma das primeiras tramas girl powers da televisão estadunidense. Sarah Michelle Gellar vive a a típica cheerleader. Geralmente, esta é a típica personagem a morrer morrer primeiro em um filme de horror. Com o que a sociedade impôs como rosto angelical, juntamente com uma aptidão reduzida para os assuntos escolares, ela seria a típica personagem dispensável para a maioria das obras criadas, principalmente, pelos homens durante anos e mais anos. E é justamente por isso que Joss Whedon criou o seriado onde esta garota, rodeada por estereótipos, era, na verdade, a maior caçadora de vampiros na Terra. Grande parte dos vilões que a mocinha combate são homens e a cada temporada ela quebra estigmas, destrói representações patriarcais e mostra que é muito mais que uma menina boba numa cidade pequena. Não darei spoilers, mas, o fim da série mostra bem seu crescimento como mulher e da sua não necessidade de um homem para completar sua história. Sempre atual, divertida e repleta de vilões criativos e diferente, há muito pouco de repetição em sua narrativa e seus cliffhangers sempre são muito especiais, instigantes, como devem ser.

Onde assistir: NetNow

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série – Top 5 Girl Power no Terror

 

O universo das séries de terror pode traduzir muito bem a realidade das mulheres, seja do constante medo em suas vidas, como também no poder que possuem de serem fortes, bruxas, de ser o que desejarem. Pensando nesta potência, o Série a Sério separou uma lista com seriados que trazem mulheres que são protagonistas, que lutam para traçar seus destinos e conseguem!

 

Eis o top 5:

 

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5 – Handmaid’s Tale (2017 – Atualidade)

 

Inspirada nos livros de Margaret Atwood, a produção mostra um universo distópico nos Estados Unidos, após um atentado contra o presidente. Apesar de trazer momentos que parecem mais sádicos do que empoderadores e de marcar a ligação da mulher com a maternidade, o seriado tem seus elementos feministas. Toda a construção do poder através da sororidade, evoca uma crença na força da união feminina e da inteligência delas para agir estrategicamente, sem esquecer de que a violência também existe dentro delas. Depois do final de sua última temporada, pode-se dizer que ainda há esperança das mulheres prevalecerem e lutarem e pararem de sofrer gratuitamente em todos os episódios.

 

 

4- Charmed ( 1998 – 2006)

 

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Em sua época, as irmãs Halliwell trouxeram um novo pensamento sobre sororidade no sentido mais literal possível. Apesar de seus interesses amorosos e conflitos com os mesmos,  o que mais importava em sua trama era a amizade das três e como elas protegiam umas as outras. A irmandade delas era o centro da questão! O poder das Três nada mais era que o poder da união feminina, inclusive, muitas referências da história vinham do pensamento de sagrado feminino e da energia da natureza como elo mágico na Terra.

 

 

 

3 – American Horror Story: Coven

 

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O seriado de Ryan Murphy tem um histórico de construir boas personagens femininas, mas, sua terceira temporada supera por construir uma mitologia própria em torno da potencialidade do universo das mulheres. A força que existe em cada uma de nós e como só podemos nos fortalecer e sermos mais poderosas quando descobrimos que não precisamos estar à sombra de ninguém para sermos alguém. Além de empoderamento, Coven nos traz muitos outros questionamentos, em especial como o medo que as mulheres têm de envelhecer e  de serem substituíveis depois da perda da juventude. Além disso, muitas vezes, há o preço altíssimo para se entrar em padrões de beleza, ser poderosa e ainda ser incentivada a disseminar a rivalidade feminina, pois este é o maior veículo para deixá-las enfraquecidas.

 

 

 

2 – Chilling Adventures of Sabrina

 

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O universo das bruxas é mais uma vez explorado, só que, dessa vez, de maneira ainda mais sombria. Talvez, menos sombria do que Coven, mas, dentro do conteúdo adolescente, Sabrina traz tons menos ingênuos e busca construir uma linha de pensamento feminista de maneira mais lúdica. A série consegue atingir seu ponto porque trata de feminismo de maneira sutil, mostrando em seus vilões homens, símbolos de opressão masculina e a forma como o ego dos homens afetam a convivência social de forma negativa. Parece didático, e em sua primeira temporada até é, mas, aos poucos, a produção toma forma e traz questionamentos cada vez mais potentes. Eis o trailer da segunda parte:

 

 

 

1 – Buffy – The vampire slayer

 

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Nos anos 1990, surgiu um dos maiores fenômenos televisivos da história dos Estados Unidos: a caçadora de vampiros adolescente! Ela amava homens, mas, amava ainda mais lutar contra vampiros e seres sobrenaturais. Tudo bem que esse era o fardo de Buffy Summers, não ser uma adolescente normal. Contudo, era uma das primeiras vezes que via-se uma mulher escolhida. Summers era forte, protegia seus amigos, era inteligente e com um humor sarcástico. Ela não era flawless, tinha seus defeitos, seus desejos, era bonita, mas não sexualizada. Ela era tudo que toda garota achava que não poderia ser e que, depois de  Buffy, entendeu que  tinha o poder de ser dona da sua própria vida. A caça vampiros mais badass de todos os tempos segurou sua balestra e lutou contra muitos lords e homens vampiros, mostrando que era muito mais que uma loirinha cheerleader.

 

https://www.youtube.com/watch?v=jP-lbMSirsA

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série: O Escolhido – Homem de Fé, Mulher com a Razão

O cinema brasileiro de terror vem crescendo cada vez mais e nomes como Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Juliana Rojas, trazem uma diversidade e características próprias a esses filmes. Produtos de gênero têm cada vez mais espaço e há um crescimento de produção e distribuição.

O público nacional é um dos públicos que mais consome terror no mundo. Mas, ainda existe certo preconceito de muitos espectadores para assistir produtos que lidam com o fantástico e O escolhido traz características que podem ajudar a reforçar essa crença de falta de qualidade nos filmes e séries de gênero brasileiros.

 

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A nova série da Netflix traz uma premissa interessante: médicos tentam extinguir o vírus zika do Pantanal, porém, no caminho, acabam achando uma estranha cidade onde ninguém fica doente, ninguém morre. Parece um bom argumento para ser vendido num pitching, por exemplo. Uma história que quando alguém conta tem sim certo impacto. Narrativamente, fora essa boa ideia, pouco caminha positivamente.

A questão principal de O escolhido são os diálogos. Textos engessados, ditos de maneira robótica, dificilmente conseguirão criar uma conexão com o espectador. Cenas inteiras para explicar acontecimentos, como funciona a cura feita pelo Escolhido. A maneira como a progressão dos fatos acontecem são dispensáveis, isso porque muito do mistério é desnecessário já que de pronto se entende o que está acontecendo na história. O fruto dessa tentativa de criar certo suspense são momentos em que o roteiro busca confundir o espectador, colocar obstáculos para ele demorar de chegar em alguma conclusão.

 

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Então, a série termina sendo um amontoado de explicações que são sempre revogadas ou colocadas em dúvida, mais atuações que despertam pouca crença na mitologia da série. Além disso, as personagens são mal desenvolvidas, o arco dramático de cada uma delas não consegue nem provocar empatia do espectador, nem deixar claro como as mesmas pensam e/ou se sentem em relação aos acontecimentos. Os habitantes da cidade dizem somente coisas clichês, frases de efeito. Os médicos, um pouco mais elaborados, tomam atitudes que movem pouco a trama para frente e são bastante previsíveis. Já o escolhido, é o rei das frases de efeito e diz suas falas de maneira empolada, cheio de gestos, mas, não imprime nuances em sua interpretação.

O seriado é bem filmado e tem seus bons momentos visuais. A escolha de enquadramentos consegue traduzir bem o olhar da protagonista, Dra. Lúcia, e a câmera escolhe bem o que mostrar durante as cenas onde o espectador entende aquele universo da mesma maneira que a médica. Talvez se a série focasse menos em diálogos e mostrasse mais momentos de percepção do fanatismo sem muitas explicações, deixando espaço para o público elucubrar, teríamos uma obra de mais qualidade. O fim da temporada deixa um cliffhanger interessante, se houver mais episódios a expectativa é de uma melhora, até porque há verdadeiro potencial para se explorar.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série – O horror na era pós Trump

Após seis temporadas lidando com temas ligados ao oculto e buscando metáforas entre o sobrenatural e os conflitos da convivência humana, o seriado criado por Ryan Murphy mergulha numa esfera mais realista e decide explorar o horror em sua mais pura forma, o horror da realidade. Nesta penúltima edição do nosso especial American Horror Story, chegamos na season do terror após a eleição de Donald Trump, chegamos em Cult.

A temporada começa estabelecendo quem são as personagens, mostrando um cenário polarizado, reflexo do período das eleições nos Estados Unidos. O primeiro episódio já começa revelando um clima de tensão e coloca em destaque ignorância x conhecimento, demonstrando o ódio daqueles que acreditam que estão perdendo muito ao ter que dividirem seus privilégios.

 

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Vemos na temporada essa dualidade o tempo inteiro. A protagonista, Ally (Sarah Paulson), tem estudo formal, tem consciência política, mas é mulher e lésbica, alguém que lutou muito por suas conquistas e que, por sua batalha e de outras pessoas, tem uma vida confortável, um casamento com outra mulher e um filho adotado. Devido ao seu passado, apesar de ter conforto financeiro e estabilidade, possui diversas fobias.

Já seu antagonista, é um homem branco, que, em sua primeira cena, comemora a eleição de Trump cheio de salgadinho laranja nas mãos, mostrando esse homem que procura culpar o outro pela sua falta de sucesso, como ele mesmo não pudesse ser responsabilizado pelos problemas que causou a si mesmo. A construção dessa dualidade é bem realizada e estabelecida no começo da série, contextualizando bem o enredo e os possíveis encaminhamentos.

 

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Murphy também sabe que o público, depois de sete temporadas, já está treinado e consciente de sua linguagem. Logo, ele tenta jogar com os códigos já entendidos por seus fãs. Os enquadramentos mais fechados nas cenas de Ally, traduzem esse sufocamento da personagem, mas também, deixa o espectador mais confuso sobre a sanidade de sua protagonista. Todos as conspirações, elementos sobrenaturais, coisas estranhas que sempre foram realidade na série, podem nessa temporada ser somente ilusão e a linguagem reforça essa impressão.

A primeira metade da temporada sabe conectar suas personagens, sabe segurar a tensão dos acontecimentos e une trama e visual numa viagem sobre o horror cotidiano, sobre o perigo iminente que são as pessoas ao redor, as pessoas de bem. O Culto, termina sendo o menos forte de certa maneira, porque suas cenas são desnecessariamente alegóricas e quando começamos a ver coisas demais, perde-se a metáfora do inimigo invisível, do olhar ao redor e se perguntar: “será que a aquele cara na outra rua votou em Trump? E se votou, do que ele é capaz?

 

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Por isso, a segunda parte da série se perde um pouco, ainda que mantenha certa qualidade, porque ao invés de se manter criticando um aglomerado de pessoas ególatras, capazes de fazerem mal para toda humanidade para manter o que as fazem felizes, sem pensar nas consequências, a série parte para se focar na vilania de Kai e relativizando todos os erros das outras personagens, tão sedenta por reviravoltas que termina quebrando um pouco o pacto com o espectador, quando o tempo inteiro o confunde com as intenções de suas personagens.

O maior louro de Cult é traduzir em imagens o que está na mente de cada eleitor de Hilary, de cada minoria social que vê a onda conservadora vindo como um tsunami desesperado para apaga-los da humanidade e também a mensagem final de que, quem sofre a vida inteira sem privilégios tem uma única vantagem, a vantagem de saber lutar, de saber esperar calmamente o contra- ataque, deixando uma mensagem de esperança para seu público.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série – American Horror Story: Roanoke e suas múltiplas reviravoltas

A sexta temporada de American Horror Story (AHS) foi exibida em 2016 e trouxe uma tentativa de dar uma complexidade maior para suas tramas, focando em três camadas narrativas diferentes que vão se desenrolando durante os episódios. Além disso, paralelamente, ela mostra o passado da casa na qual a história está centrada.

A narrativa começa bem, mas deixa suspeitas de que talvez se encaminhe por um rumo um pouco repetitivo, trazendo ares muito semelhantes aos de Murder House. Na trama, o casal Matt e Shelby se mudam para uma misteriosa residência, que possui um secreto e sombrio passado. E a história daquele lugar remete bastante à atmosfera da terceira temporada (Coven), onde Kathy Bathes interpreta mais uma vez uma mulher sanguinária, a personagem Thomasin, a açougueira.

 

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Mesmo com as semelhanças, os episódios são consistentes e apresentam um elemento novo: no enredo, uma produção está realizando um documentário sobre os acontecimentos da casa. O tom quase metalinguístico, com pitadas de mocumentário, traz um tom de suspense e uma impressão de que tudo pode acontecer. O risco, algo visto nas obras de terror, se mostra maior, alimentando bem a curiosidade do espectador, dando poucas chaves e abrindo muitas possibilidades.

E aí que mora o maior problema de Roanoke. Muitas portas são abertas e é difícil se conectar com qualquer possibilidade. Após o sucesso da primeira temporada da série ficcional que o público vê na história do seriado, partimos para o segundo ano, agora, com atores interpretando todos os envolvidos na trama. A equipe realiza tudo na mesma casa onde todas as mortes aconteceram. A partir disto, a narrativa se modifica por completo e a metalinguagem e crítica aos realites shows, são substituídos por jump scares baratos e uma grande falta de coesão narrativa.

 

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A relação entre as personagens novas é mal construída e o valor das mesmas parece inexistente. Como elas não possuem um elo forte de ligação com o público, vão se amontoando em mortes diferentes a cada episódio, substituindo aquele suspense característico da série, pela constante procura em provocar medo com fantasmas e assombrações cada vez mais assustadores.

É essa tentativa constante de superar tudo antes já visto no seriado que destrói qualquer forma de conexão que poderia surgir, é extremamente forçada a busca de surpreender. Talvez o maior louro de Roanoke seja a crítica, até um pouco simplista, da sede de sangue que o público estadunidense possui de ver a desgraça alheia. Porém, nada que Black Mirror já não tenha feito em seus primórdios. O sexto ano de AHS fica um pouco no meio do caminho de tudo.

Sobre as intercessões com as temporadas anteriores, os principais destaques são: a primeira bruxa suprema – numa referência à Coven – e a presença de Lana Winters – de Asylum – uma escolha sempre acertada de Murphy. Para os fãs da série, só restou conferir os episódios e esperar pela temporada seguinte, muito superior e que traz de volta o suspense e os dramas que unem psicológico e sobrenatural, explorando o que American Horror Story faz de melhor: encontrar o terror dentro das pessoas mais inesperadas, desvendar almas sombrias de lugares menos prováveis. A quinta  e a sexta temporadas do seriado quase provocaram seu downfall, mas, a mesma se recupera com louvor. Mas, vamos deixar para o próximo mês!

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série: American Horror Story – Le Freak C’ést Chic

Em setembro, tivemos o início da oitava temporada de American Horror Story (AHS), finalizada, de maneira impactante, em novembro. Por conta desse novo ano do seriado, resolvemos fazer um especial sobre o programa de TV, criado por Ryan Murphy, comentando um pouco sobre cada um de seus anos. Este mês, vamos falar sobre a quarta temporada da série, Freak Show. A trama se passa majoritariamente dentro de um circo e traz personagens marcantes e linhas narrativas bem construídas.

O lado fantástico da produção é explorado com a presença do palhaço Twisty (John Carroll Lynch), que comete alguns assassinatos. Todo o plot deste ser macabro é o que quebra o certo tom mais melancólico de Freak Show, trazendo pegadas de gore e de trash para a série. A personagem, inclusive, é a única do quarta ano que aparece em temporadas futuras, até então. Em Cult, ele é retratado numa revista em quadrinhos de Oz, filho de Ally e Ivy.

 

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Além do palhaço Twisty, vemos um circo, bastante decadente, comandado por Elsa Mars (Jessica Lange). Logo no começo da narrativa dentro do circo, a atriz Jessica Lange canta Life on Mars*, numa performance que dita todo o tom do universo desta nova história em AHS, trazendo movimentos de câmera que se traduzem num ballet visual e mostram de maneira poética a vida do circo, unindo as figuras diferentes, que vivem à margem da sociedade com a beleza da cena que carrega em seus tons esverdeados.

As cores em Freak Show são bem exploradas, pois a direção de arte utiliza muitas tons claros e, supostamente, alegres, só que dessaturadas, trazendo uma ambientação melancólica e que elucida a emulação da alegria que há nas atividades circenses. A temporada trabalha bem as características de cada personagem, mostrando de maneira inteligente que o freak não é aquele com tipos físicos diferentes do que a sociedade costuma ver e sim aquele que tem uma crueldade dentro de si, uma maldade que transborda e se constrói numa personalidade distorcida e anormal. Freak Show é um tratado sobre como a natureza humana pode ser doentia.

 

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Os planos e enquadramentos das cenas acompanham esse pensamento. No início da temporada, as cenas com as personagens do circo possuem mais planos holandeses (câmera de lado), o uso do lens flare e do soft focus, criam uma ambientação que mescla o onírico e o estranho. Aos poucos, mesmo com uma fotografia sombria e com pouca saturação, os enquadramentos vão se tornando mais crus, traduzindo bem a curva dramática de Freak Show. Este fator faz com que a energia saia do fantástico e mergulhando num universo sombrio e cruel.

As duas personagens de Sarah Paulson, as irmãs siamesas, Bette e Dot, roubam a cena com suas personalidades bem delineadas, com uma construção minuciosa de Paulson, quebrando estigmas e clichês sobre a relação de gêmeas siamesas. Existe uma complexidade nos desejos das duas, que termina movendo a trama para frente em sua narrativa e atriz mostra a consciência da importância de suas personagens, quando vai fazendo-as crescer episódio por episódio, revelando nuances de cada uma delas.

 

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Freak Show se apresenta como uma sólida temporada, ambientando bem as contradições do universo circense, colocando mais uma vez as crueldades e distorções de personalidade nas personagens mais inesperadas e utilizando bem os aspectos visuais do audiovisual tanto para criar uma ambientação, quanto para construir personagens e justificar aspectos da trama.

 

 

* Life on Mars é uma música de David Bowie, de 1971.

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

 

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