Crítica: Novo thriller adolescente da Netflix imprime qualidade técnica e discurso afiado

Nesta semana, a Netflix lançou uma nova série brasileira. Boba a Boca é um thriller adolescente, criado por Esmir Filho (Saliva). A direção da maioria dos episódios também é sua. Ele divide o posto com a cineasta Juliana Rojas (As Boas Maneiras), que comanda o 1×05 e o 1×06. Em seu resultado geral, a produção entrega um equilíbrio significativo de qualidade, com bons atores, diálogos e discurso. No entanto, é possível, ainda, destacar o seu ápice em sua mise-en-scène e em sua decupagem, sendo elas os elementos que mais se sobressaem.

Desde os primeiros minutos do seriado é possível enxergar a sua estilística e que ela está ali para fomentar o que se deseja contar. O azul e o rosa, por exemplo, são predominantes durante toda a exibição. Isto cria uma espécie de dicotomia, que revela não apenas as dualidades e complexidades das personagens dentro da narrativa, mas também dos papéis impostos pela sociedade. Os enquadramentos e cortes também elevam a potência da história desenvolvida na tela. Os quadros diversificados em uma mesma sequência desnudam as personagens, como quando mesclam planos detalhes com os mais abertos, aumentando esta característica e também o nível de tensão nas relação ali mostradas.

 

Boca a Boca" é a série brasileira da Netflix que traumatiza quem ...

 

Apesar de já se iniciar intensa e com uma dinâmica de simulação de velocidade, a obra consegue criar uma espécie de progressão dentro de sua própria lógica. Em alguns momentos, seja pelos acontecimentos ou como a equipe técnica escolhe fazê-los, o ritmo cai, pois tudo parece frenético, sem respiros. Contudo, isto não compromete o seu resultado total, principalmente porque isto se justifica, em partes, pelos próprios rumos do enredo e daqueles indivíduos que estão inseridos na trama.

Por fim, vale destacar a presença de atores de peso no elenco como Grace Passô (Temporada), Thomas Aquino (Bacurau) e Denise Fraga (De Onde eu Te Vejo). Todos os três intérpretes trazem um trabalho afinado, com criações muito certeiras. Ainda que apareçam em momentos pontuais, a cena cresce diante da presença deles. Entre o trio, o ponto alto é a performance de Fraga. Criando uma Guiomar Araújo que passa ações muito calculadas, através de muito tônus, consciência corporal e espacial, ela vai imprimindo lentamente as fragilidades daquela figura que parece imponente e autoritária no início, mas que vai revelando fragilidades e até retirando certas tensões físicas para aumentar essa multiplicidade na personalidade de Guiomar.