Crítica: Indecisão de rumo narrativo marca segunda temporada de Coisa Mais Linda

É sempre muito árduo começar uma crítica sobre uma produção como Coisa Mais Linda. Isto porque existe todo um universo criativo esforçado, que procura imprimir certa qualidade técnica. Além do mais, é possível perceber uma pequena vontade em se redimir dos erros da temporada anterior, em relação ao que tange questões voltadas para as minorias sociais, principalmente sobre o racismo e a cegueira do feminismo branco que sufoca o ano 01 da série. No entanto, toda essa procura qualitativa oferta um resultado confuso, cheio de remendos, sem paciência e que caem, mais uma vez, no apagamento das premissas das personagens negras.

Mas, se a obra parece demonstrar ser bem intencionada, nada mais justo que começar por seu melhor núcleo: Adélia Araújo (Pathy Dejesus) e sua família. O primeiro elemento fundamental de qualidade aqui é o fato destas serem as únicas figuras da narrativa que apresentam certa complexidade, deixando a planificação para os outros. A começar pela própria Adélia que consegue mesclar diversos tons em um mesmo episódio ou até cena. Em segundos, ela fica gigante e se defende de todo qualquer perigo e injúria. Além disso, sua intérprete fomenta as camadas dela, revelando estar sempre atenta, colocando seu corpo em prontidão, ainda que esteja em uma contracena ou não seja o foco da sequência. O mesmo pode ser dito de Sarah Vitória, intérprete mirim, que faz a Conceição. A menina apresenta um cuidado, um carisma e uma consciência cênica que impressionam. Vitória parece entender o conceito básico da atuação com profundidade: o de jogar com o colega. Assim, ela não perde um olhar, nem uma oportunidade de acrescentar um detalhe que fazem as relações da garota com os pais e amigos crescerem.

 

Coisa Mais Linda', da Netflix, volta com mulheres mais unidas ...

 

Para completar esta parte do elenco, a trama tem Capitão (Ícaro Silva) e Ivone Araújo (Larissa Nunes). O primeiro faz um trabalho primoroso, porque consegue escapar de diversos clichês que o texto traz, como o do marido ciumento, acomodado e músico festeiro. Silva pega isto e ressignifica, colocando um tom de preocupação, com suavidade, trabalhando com os olhares não vacilantes para a câmera. Já Nunes é ainda mais impactante de assistir! A moça é o destaque desta temporada. Com uma presença e um canto que emocionam, ainda que os autores não saibam o rumo preciso que darão para ela, há em sua construção uma dinamicidade e leveza que dão conta do que a escrita não consegue. Existe o tom jovial e agitado, combinado ao sofrimento de uma vida inteira de racismo e luta. Ela é engraçada, firme e uma das poucas que sabe desfazer a artificialidade impregnada em Coisa Mais Linda. Entre os parentes de Adélia, ainda existe Eliana Pittman, como a Elza e Val Perré, fazendo o Duque. Excelentes atores que poderiam ser muita mais bem aproveitados.

Mas, então, qual seriam os problemas? O primeiro reside nesta artificialidade e o segundo numa espécie de desespero que faz tudo que poderia ser bem realizado ir por água abaixo. A trama parte um pouco depois do cliffhanger da primeira temporada. Contudo, em poucos minutos o conflito se desfaz e outro problema é posto em prática. Assim, as situações passam a se estabelecer. Aos poucos, parece que, ainda que com alguns incômodos, haverá uma crescente de qualidade e as histórias serão exploradas. Mas, não é isto que acontece. Plots são arremessados na tela o tempo inteiro, para serem resolvidos pouquíssimo tempo depois. Nesta onda descontrolada e sem paciência de desenvolvimento narrativo, novamente todo foco vai para Maria Luiza (Maria Casadevall), porém não para a questão mais tensa, que poderia ser uma força e um crescimento dela, mas para seus ímpetos de White Savior e seus casos amorosos mornos.

 

F5 - Colunistas - Tony Goes - Na segunda temporada, 'Coisa Mais ...

 

Com a quantidade de momentos em que ela está com conversas com Chico (Leandro Lima) e Roberto (Gustavo Machado) era possível dar atenção para os enredos de Adélia e Ivone e decidir qual seria o problema central delas durante a temporada, sem fazer todo um nó para depois abandoná-los sem costura. Ou, talvez, os roteiristas poderiam escrever melhor sobre a personalidade e a bissexualidade de Thereza Soares (Mel Lisboa), que parece ter virado outra pessoa agora, um arquétipo de si mesma, cheia de clichês e frases nada orgânicas como “A gente pode pegar as minhas Vogues francesas e procurar um modelitos perfeitos para nossa viagem para Búzios”. Inclusive, é notável a luta de Lisboa para tentar manter seus diálogos críveis.

 

ALERTA DE SPOILER!!!!!!

 

Contudo, ainda existe o ponto alto desta decepção. Quando colocam a Adélia em um estágio de câncer terminal em um episódio, para, de repente, ela estar curada, porque os médicos que disseram que ela iria morrer em pouquíssimo tempo estavam enganados é chocante a preguiça de qualquer tipo de desenvolvimento. A partir daí, passa-se a se pensar que história a equipe deseja contar e por que essa ânsia em abandonar tudo a todo tempo. Estas situações repentinas são bastante recorrentes, principalmente com as personagens negras. O desconforto é ainda maior se o espectador presta atenção nos outros elementos do seriado, que deixam mais visíveis aos olhos a forma exagerada de sua parte criativa em tocar os rumos da obra. A fotografia e a arte são um destes reforços. Principalmente em seu início, a sensação é que há uma vontade extra normal de criar significados, com uma quantidade intensa de cores repetidas, em tons fortes. Lá pela terceira cena do primeiro episódio, o público já entendeu que o amarelo e o laranja vão ser usados com o azul para contrastar com as emoções das personagens: melancolia e euforia. A morte de Lígia e a vontade de se reerguer. Assim, as tonalidades chegam estouradas e repetitivas.

No final das contas, a série reserva algumas discussões relevantes, ainda que se perca em na amarração do próprio conteúdo que traz. Resta esperar por um terceiro ano menos branco hétero cis centrado e que aprofunde as relações e conflitos, ao invés de sufocar quem assiste de situações mal resolvidas, a partir de uma vontade de tirar o fôlego, pois o efeito é reverso.

 

BR em Série: Coisa Mais Linda: Um retrato moderno da Bossa Nova

Existem inúmeras histórias sobre mulheres empreendedoras e a frente do seu tempo. Atualmente esse tipo de enredo tem adquirido maior sucesso e prestígio nos programas seriados, obtendo, inclusive, pontos positivos de audiência e crítica. Dentro nessa estimativa, a Netflix estreou a série brasileira Coisa Mais Linda, criada e produzida por Heather Roth, e Giuliano Cedroni, criador das séries (FDP) e Outros Tempo- Velhos, da HBO. A premissa principal é bem comum, representar um contexto histórico a partir da perspectiva de quatro mulheres bem diferentes, Maria Luiza (Maria Casadevall), Adélia (Patrícia Dejesus), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Thereza (Mel Lisboa). Nesse caso, o contexto é final de década de 50 e início dos anos 60, quando o Rio de Janeiro estava fervendo culturalmente e a política vivia um momento de esperança com Juscelino Kubitschek. Isto é emblemático e a escolha define não só o plot da série, como também toda sua construção narrativa e simbólica.

É nesse período que nasce a Bossa Nova, gênero musical brasileiro (ou seria melhor dizer carioca) que mistura samba com Jazz, e que se consagrou internacionalmente, sendo muitas vezes considerado “símbolo do Brasil”. Com o tempo, acarretou a imagem da boemia, de praia, de letras românticas e profundas, que foram compostas por jovens músicos de classe média alta. Mesmo sem viver essa época, nosso imaginário (brasileiro e qualquer pessoa que procure estudar/ler sobre esse gênero) já está carregado com esses símbolos, e também por muitos estereótipos.

 

 

O seriado traz justamente essa atmosfera da Bossa para construir sua narrativa, como fica explícito já no título, em homenagem a música mais marcante de Jobim e Vinícius de Moraes, “Garota de Ipanema”. Coisa Mais Linda tem um bom aparato técnico, como a fotografia, o figurino, a ambientação e, claro, a trilha sonora nostálgica. Escala atrizes jovens e bonitas, com personagens fortes e especiais, que nos trazem aquela sensação de esperança e fantasia. Em resumo, traz a típica da imagem de exportação do Rio turístico, ressaltando as atrações conhecidas pelos turistas, como o samba, as praias e pontos turísticos, valorizados  em plano aberto.

O problema não é essa ordinariedade, afinal, é bem sucedida em tentar captar seu objetivo e seu público alvo. Quem gosta de narrativas melodramáticas e despretensiosas, com certeza aproveita esses pontos positivos. O que quebra a lógica é justamente a série tentar, mas não assumir, o drama político que se propõe (como fica evidente por exemplo, na correria da trama em resolver as coisas). As questões de gêneros e feminismo, acabam se tornando quase como “citações”, justamente, talvez, por essa vontade de falar de tudo sem se aprofundar.

 

Música, referências e superação

 

 

Assim como os seriados As Telefonistas e Maravilhosa Sra. Maisel, Coisa Mais Linda deixa claro que o foco está nas histórias de vida e superação das mulheres protagonistas. É um artifício comum colocar mulheres diferentes (quase opostas) no jeito, personalidade e na aparência como um grupo de amigas, cúmplices, e que ajudam umas às outras a superarem seus desafios, que no caso, é a luta, enquanto mulheres, por sua independência e liberdade. Apesar da ingenuidade retratando essas relações, (ainda) é necessário ver mulheres nas telas não colocadas como rivais, e vê-las trabalhando juntas, mesmo que em um muitos casos, essa ideia de união não aprofunde questões íntimas e de desigualdade entre elas.

Por tanto, trata-se de uma série leve, do tipo que dá para se assistir de uma só vez, mesmo trazendo à discussão assuntos sérios como preconceito racial, abuso sexual e psicológico e violência. Isso porque a narrativa se constrói de maneira direta, os micro conflitos têm resoluções rápidas e simples. Além disso, é recheada de músicas da Bossa Nova, do samba e do jazz, além outras referências desse período (como o próprio nome das personagens e suas personalidades remeterem a músicas).

Você pode se perguntar, por que falar da lutas de mulheres com um gênero musical tão masculino, que justamente coloca as mulheres como musas e objeto de admiração? Acredito que a proposta da série seja justamente tentar subverter essa questão (inclusive, acho que vem daí a escolha da produção pela versão de Amy Winehouse da música de abertura, além do fato de ser mais interessante a versão em inglês para o público internacional). Não só a Bossa Nova, mas o samba, os meios de comunicação (inclusive os que falam e são para nós, como a revista que Thereza trabalha), tudo é comandado por homens, ou é mais valorizados se feitos por eles. E a série foca bastante nessa problemática, quando, por exemplo, o crítico famoso elogia o músico Chico e menospreza Lígia e Malu, ou, no desfecho da temporada, que simboliza essa eterna sabotagem da sociedade com as mulheres, que mesmo quando tudo vai bem, parece dar certo, somos negadas, roubadas e mortas, diversas vezes.

 

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Resoluções fáceis e problematizações frias

Apesar desses atributos convidativos, a série está longe de trazer grandes discussões e falha em tentar problematizar questões que não consegue sustentar. O primeiro grande problema, é a escolha da protagonista Malu. Isso não é um problema somente dessa narrativa, outras como, Orphan Black, fazem o enredo girar em torno de uma das mulheres ditas protagonistas (afinal o conflito principal começa com elas), só que na maioria dos casos, elas e seus conflitos se tornam chatos e superficiais. No caso de Malu ela ganha na comicidade, mas perde quando tentam forçadamente encaixar ela com a típica protagonista de comédias românticas, que é atrapalhada, mas inteligente, e vive dilemas amorosos com o galã (ou pior, mas não fica claro, criar aquela dúvida de ter que escolher entre dois caras).

Outro ponto sobre isso é o questionamento do por quê ela ser a escolhida para guiar a história, se seu arco é menos interessantes se pensarmos em Brasil. Mesmo com a cena instigante do embate entre Malu e Adélia, quando a primeira quer desistir do empreendimento, e em que se discute justamente questões como, lugar de fala, meritocracia, privilégios, Adélia (mas também as outras duas) não têm seu arco valorizado para além de cenas rápidas como essa. Tanto que, depois desse momento, que ocorre no início da série, não voltam a problematizar essa relação, pois, seguindo a lógica da narrativa, Malu parece se dar conta dos seus privilégios e tudo se resolve de maneira muito ingênua, sem mais embates nesse sentido. Adélia, uma mulher negra, solteira que trabalha como empregada, mas que é muito forte -a ponto de ficar em dúvida se casa com Capitão (Ícaro Silva) ou não-  também perde força, quando sua trama se volta quase que exclusivamente para quem é o pai da sua filha, e de novo esse conflito entre escolher entre dois homens é empregado.

 

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No fundo tudo se resume a essa correria narrativa, sentida na montagem (cortes bruscos) e no ritmo estranho, que concretiza um final apressado, e soluções pouco convincentes para os problemas que eram interessantes de acompanhar, como a questão do pai da filha de Conceição, ou a relação entre Thereza e Helô (Thaila Ayala). O equívoco poderia ser resolvido talvez com mais episódios, ou menos cenas de transição (cenas figurativas que não acrescentam nada à narrativa). A série propõe desenvolvimentos interessantes, mas tira o peso de algumas situações e problemas, como exemplo, todo drama de Lígia, que no começo sentimos seu sofrimento num casamento abusivo e o medo de sair dele, por conta do amor e por pressões da sociedade, mas todo esse impasse é resolvido e superado dentro de quase um episódio (até a discussão sobre aborto quase passa despercebido).

Além disso, a série ainda sofre com alguns vícios novelescos, como o excesso de falas explicativas, e não é por uma questão de atuação. A verborragia excessiva  torna o diálogo sem graça e óbvio, tirando a imersão do público, que mal tem tempo de pensar e já ganha respostas prontas. Outra questão é a marcação de núcleos com a trilha sonora. Se a cena está na praia, ou na classe média toca Bossa Nova, mas no morro, por exemplo, começa a tocar um samba. Sintoma de de pouca criatividade e reforço de estereótipos, mesmo que seja com a intenção de ambientar. A música fundo das cenas de romance, por exemplo, acabam chamando mais atenção por conta da repetição demasiada que cansa o espectador. Por isso, pode se dizer que Coisa Mais Linda é audiovisualização de uma Bossa Nova, só que essa com mulheres protagonistas.

 

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

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