Comédia em Série

A indicação deste mês definitivamente não é uma novidade, mas é garantia de diversão. Community é uma série em 2009, pela NBC. Entrando no ar junto com grandes nomes da comédia como The Office, Parks and Recreation e 30 Rock, ela acabou passando por muitos despercebida. No começo de abril, a comédia entrou no catálogo da Netlix e é uma ótima pedida para quem está procurando se distrair nesses momentos difíceis, prometendo muita leveza e carinho por esses personagens que te conquistam fácil. À primeira vista pode parecer uma sitcom qualquer mas, ao decorrer dos episódios e com a maturidade dos personagens, ela só cresce.

showrunner da obra, Dan Harmon, é o co-criador do sucesso Rick and Morty, e é perceptível as semelhanças nos plots absurdos e criativos e as diversas referências a cultura pop, mas Community é muito menos niilista que sua irmã mais nova. A série conta a história de um grupo de estudos numa faculdade comunitária, Greendale, formada por pessoas completamente diferentes e que por algum motivo se apegam e viram grandes amigos. Jeff (Joel McHale) é um ex-advogado que perdeu sua licença por ter usado um diploma falso a carreira toda e cria o grupo com o objetivo de conquistar Britta (Gillian Jacobs) uma mulher politizada e que sempre tem algo a dizer, Abed (Danny Pudi) é um jovem aficionado por cinema e TV que tem muita dificuldade de demonstrar emoções e se comportar como os outros esperam que se comporte. Abed é muito importante, pois muitas vezes vemos os personagens pela sua ótica fantasiosa de mundo, sempre trazendo piadas metalinguísticas sobre eles estarem vivendo em uma série cômica. Por sinal, a forma que a produção sempre tira sarro de ser uma comédia de situação é uma das coisas mais legais, como ela também não tem medo de sair dessa fórmula e ao mesmo tempo explorar todos os clichês do formato.

 

Crítica | Community – 1ª & 2ª Temporadas – Plano Crítico

 

No grupo temos também Annie (Alison Brie) que é a mais jovem e dedicada (para não dizer obcecada) da turma: Troy (Donald Glover) um ex-quarterback, que tem o maior coração de todos e forma a melhor dupla da série junto com Abed; Shirley (Yvette Nichole Brown), uma mãe cristã e recém-solteira que resolve aproveitar o tempo perdido para estudar e Pierce (Chevy Chase), um baby boomer que sempre diz coisas ofensivas e inapropriadas. Isso sem contar com todos os personagens recorrentes que formam o universo fantástico e absurdo que é Greendale, como o reitor Pelton (Jim Rash) que tem uma paixão nada secreta por Jeff e veste fantasias ao melhor estilo RuPaul; Ben Chang (Ken Jeong) o professor de espanhol que se torna diversas outras coisas mas sempre extremamente assustador (e engraçado).

A força e a genialidade da série está em sua 0 vontade de parecer com a vida real e você pode esperar surpresas maravilhosas como episódios imitando filmes de faroeste com paintball, batalhas de travesseiros, documentários falsos, paródias de Law and Order e muito mais. Ao longo de sua exibição e sempre correndo risco de cancelamento, a série foi ganhando uma legião de fãs na internet, lançando a hashtag #sixseasonsandamovie. E o mais incrível é que funcionou, a série de fato alcançou a sexta temporada (que foi feita pela Yahoo!) e o filme… bem, quem sabe?

 

 

*Laize Ricarte é comediante, roteirista e cineasta.

Terror em Série: Dicas para a Quarentena

 

Os fãs do gênero de terror crescem a cada dia e, no meio de tantas possibilidades de canais de streaming, plataformas do ambiente digital e Youtubes da vida, às vezes fica difícil saber por onde começar. Pensando nisto, a coluna Terror em Série elenca agora algumas dicas de seriados que podem dar uma animada, ou melhor aterrorizada em tempos de Coronavírus.

A seleção conta com cinco produções vinculadas nos últimos 7 anos. Com estilos diversificados, as escolham podem agradar distintos gostos e tipos de viciados no gênero. Há quem goste de todos, não é mesmo? Então, corre para ver as sugestões agora e descubra se seu seriado favorito aparece!

 

LISTA

 

O Mundo Sombrio de Sabrina | Saiba quando a 4 temporada deve ser ...

 

O Mundo Sombrio de Sabrina (2018 – )

A readaptação das aventuras da bruxa Sabrina Spellman tem até então três temporadas e dosa bem entretenimento e pautas feministas, ainda que com uma olhar um tanto genérico e, muitas vezes, superficial. Numa progressão de qualidade, o seriado mantém seu fôlego e pode prender aqueles espectadores que não dispensam um bom conteúdo  voltado ao público adolescente. Buscando quebrar as amarras patriarcais, aqui representada como a própria figura do capeta clássico, Spellman tem conflitos morais e a clássica luta entre desejo e o bem maior de todos. Além da progressiva qualidade narrativa, a obra cresce também em qualidade de linguagem, apurando seu conceito visual, numa direção que se preocupa em trazer estímulos visual que podem se refletir no efeito mais clássico do terror: despertar medo e repulsa.

 

Disponível em: Netflix

 

The Twilight Zone de Jordan Peele vai chegar ao Amazon Prime Video

 

The Twilight Zone (2019 -)

A nova versão da série clássica dos anos 1960, agora produzida por Jordan Peele (Corra!), tem, de fato, uma irregularidade em sua qualidade. Mas, o que vale nessa obra antológica é o apuro estético ligado a temas caros ao nosso tempo. Episódios como Replay, Wunderkind e Not All Men trazem de maneira ácida os absurdos das injustiças sociais, exaltando que o cotidiano é diversas vezes tão inacreditável que se encaixa perfeitamente com o universo fantástico do seriado. Um outro destaque é a narração de Peele, sua figura transcende a tela e cria uma conexão de cumplicidade verdadeira entre ele e o espectador, ao mesmo tempo que pode nos deixar desconfortáveis em nossas próprias certezas.

Disponível em: Amazon Prime Video

 

O Escolhido, nova série da Netflix, impressiona com visual e ...

 

O Escolhido (2019 -)

Dentre as séries mais acessíveis e brasileiras de terror, decidi dar uma dica que é mais uma aposta do que qualquer coisa. O Escolhido tem certo desequilíbrio em sua qualidade. Os seus diálogos são, muitas vezes, sofríveis e a aparente falta de preocupação com a direção de atores mostra a descrença dos mesmos em relação aos textos monocórdicos e quase robóticos. Principalmente na primeira temporada, têm momentos difíceis de aturar, a verossimilhança interna é quebrada diversas vezes em prol de surpresas na trama que traem o espectador de maneira constante. Mas, então qual a razão de ela estar nessa lista? O trunfo reside nos seus ganchos. A cada episódio, o roteiro prende o público de certa forma e deixa perguntas que precisam ser resolvidas, o estranhamento dos protagonistas termina sendo o nosso estranhamento e quando eles dão uma resposta, trazem muitas outras perguntas.  O enredo é intrigante e, à medida que os acontecimentos vão se desenvolvendo, a complexidade e a construção das personagens  vão se tornando mais bem realizadas. Um outro fator é o não maniqueísmo de sua protagonista que, além de carismática, tem características realistas e despertam a empatia de quem assiste.

Onde assistir: Netflix

 

Bates Motel não tem a licença renovada e sai da Netflix em fevereiro

 

Bates Motel (2013 – 2017)

A história de Norman Bates, proveniente do filme Psicose, de Alfred Hitchcock , aparece aqui mostrada sob um outro olhar. O então adolescente e sua mãe, ainda viva, mudam-se após a morte do esposo da progenitora do protagonista. Durante cinco temporadas, que conseguem manter de certa forma sua qualidade, vemos o desenvolvimento e o nascimento do psicopata e assassino de Marion Crane. A interpretação de Freddie Highmore (The Good Doctor), no papel de Norman e de Vera Farmiga (Olhos que Condenam), como Norman, se sustenta durante toda a série, jamais destoando da narrativa e, de certa maneira, auxiliam quando a trama começa a dar uma caída e o enredo se enche de fillers lá para o meio da terceira temporada. Seus dois primeiros anos e seu desfecho são o auge de Bates Motel e quando tudo se finda há a sensação de catarse e de até certa reparação na história onde só havia punição para as mulheres! Um destaque é a participação de Rihanna  (Oito Mulheres e um Segredo) como a Crane!

Onde assistir: Prime Video e Claro Video 

 

BUFFY: A caça-vampiros e o que a ... - Aparato do Entretenimento

Buffy – A Caça Vampiros (1997-2003)

Em todos os top 5 ou listas de seriados de terror não pode faltar o seriado que lançou uma das primeiras tramas girl powers da televisão estadunidense. Sarah Michelle Gellar vive a a típica cheerleader. Geralmente, esta é a típica personagem a morrer morrer primeiro em um filme de horror. Com o que a sociedade impôs como rosto angelical, juntamente com uma aptidão reduzida para os assuntos escolares, ela seria a típica personagem dispensável para a maioria das obras criadas, principalmente, pelos homens durante anos e mais anos. E é justamente por isso que Joss Whedon criou o seriado onde esta garota, rodeada por estereótipos, era, na verdade, a maior caçadora de vampiros na Terra. Grande parte dos vilões que a mocinha combate são homens e a cada temporada ela quebra estigmas, destrói representações patriarcais e mostra que é muito mais que uma menina boba numa cidade pequena. Não darei spoilers, mas, o fim da série mostra bem seu crescimento como mulher e da sua não necessidade de um homem para completar sua história. Sempre atual, divertida e repleta de vilões criativos e diferente, há muito pouco de repetição em sua narrativa e seus cliffhangers sempre são muito especiais, instigantes, como devem ser.

Onde assistir: NetNow

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Especial Ryan Murphy: Pontos Altos e Baixos

 

Por Enoe Lopes Pontes

 

Neste mês, a nova produção de Ryan Murphy chega ao catálogo da Netflix. Intitulada Hollywood, a série mostra  um grupo de artistas que deseja ingressar na carreira cinematográfica, no final dos anos 1940. Para realizar tal intento, eles não medem esforços e nem têm limites. Procurando evocar um tom nostálgico da Era de Ouro hollywoodiana, Murphy se vale de personagens típicas de seu leque criativo. Marcam a trama deste seu novo projeto homens e mulheres egoístas, sem escrúpulos e corruptíveis, assim como em todos os outros.

Apesar desta constante repetição criativa, as escolhas de Ryan parecem surtir efeito e o mesmo coleciona sucessos. Obviamente, o realizador consegue emplacar diversos materiais de qualidade e que agradam ao público em menor ou maior medida. Isto há mais de dez anos! Com uma lista extensa de narrativas serializadas bem sucedidas, ele é um showrunner e produtor que parece uma máquina de criação! Títulos como Glee, American Horror Story, American Crime Story, Feud, Pose e The Politician. Pensando nisso, o Série a Sério selecionou os melhores e piores títulos da carreira de Ryan Murphy. Confira!

 

PONTOS ALTOS

 

American Horror Story: Asylum (2012) – Com uma estrutura antológica, a cada ano, American Horror Story traz novos enredos, personagens e temas.  Em uma temporada mais regular, dentro deste sistema unitário criado por Ryan Murphy, Asylum conta com uma progressão dramática aparentemente bem planejada. As características das personagens permanecem firmes. Ainda que exista uma transformação nelas, a partir dos dramas e vivências pesadas que experienciam, cria-se uma conexão com elas e novas camadas são sempre reveladas. A regularidade da trama se completa através das boas escolhas da direção, por exemplo, através da boa utilização de movimentos de câmera e angulações, é possível fomentar as sensações que o texto deseja passar. A instalação do medo do sobrenatural, mesclada com o terror causado pelas figuras humanas completam o tom desta temporada, que é a mais segura dentro da trajetória da produção.

 

 

Pose (2018-) – Conseguido equilibrar a trama e trazendo menos instabilidade, estancando um pouco de sua misoginia e explorando de forma mais honesta a representatividade, Pose entrega um resultado consistente. Talvez, por estar ao lado não apenas de seu colega de criação em American Horror Story, o Brad Falchuk (Nip/tuck), mas por também contar com Steven Canals (Dead of Summer), ele tenha conseguido canalizar a sua criatividade e não se perder no meio de suas criações. As personagens possuem uma certa sofisticação na construção, possuindo não apenas as múltiplas camadas que as séries de Murphy apresentam, mas as mantendo assim em seus dois anos de exibição.

 

 

PONTOS BAIXOS

 

American Horror Story: Hotel (2015) – Com a saída de Jessica Lange (Feud) do elenco da série, criou-se uma expectativa na base de fãs do seriado de que Ryan Murphy fosse suprir essa falta com uma história potente e empolgante. Como de costume, o roteirista trouxe um plot forte, no qual explorava uma história baseada em fatos reais, bastante sombria, a do Hotel Cortez. Para completar, o autor escreveu uma personagem intensa para a Lady Gaga interpretar. O primeiro episódio é minucioso e revela figuras aparentemente sombrio, com mistérios que podem despertar a curiosidade do público. No entanto, tudo que vem depois é repetitivo, inconstante e sem rumo, até para Murphy. Em todo momento, a narrativa parece enganar o espectador, não se sabe ao certo quem é o vilão ali. Tranquilamente, isto poderia ser um elemento positivo. Contudo, a sensação que fica é de uma dúvida dos próprios roteiristas, que buscam chocar e criar reviravoltas exageradamente.

 

The Politician (2019) – Indo por um caminho oposto ao de Pose, aqui tem-se um exemplo perfeito da junção de todos os incômodos do universo Murphy, reunidos em uma só obra. Perdido em sua própria premissa, o roteiro se esgota muito antes de sua finale. As personagens são sombras de estereótipos, não conseguindo ao menos sustentar a proposta exagerada que o início da série parece desejar retratar. Apesar de conter diversidade dentro do elenco e no enredo, o foco está sempre voltado para o rapaz branco, que se agarra ao padrão heteronormativo em qualquer sinal de pânico. O encaminhamento da trama também é frouxo. Nas idas e vindas das confusões do protagonista, a história não consegue focar em um conflito principal, muito menos explorar todas as subtramas que vão sendo jogadas episódio a episódio.

Li, assisti: Delírios da Madrugada Sobre a Adaptação de Sandman

As vezes me perguntam por que dentre todas as histórias que já li escolhi Sandman para tatuar, para amar de uma forma especial. Tem uma coisa sobre histórias, não apenas a qualidade técnica delas, sempre falo isso, mas como ela nos fazem sentir, como nos afeta. Sandman me mexia e remexia tão profundamente, não só pelos temas e choques dos arcos, Casa de Boneca em especial, mas pelo universo que me envolvia de uma forma, eu não conseguia me puxar para fora do Sonhar. Tomava meu dia-a-dia e, ironicamente, tomava meus sonhos. Tive que criar um regra de não ler Sandman antes de dormir, podia sentir Morfeu me rondando.

Mais ironicamente ainda, alguns anos depois, dei ao meu gato o nome de Morfeu e agora ele fica literalmente me rondando à noite, guardando meu sono. Sinto que nunca saí 100% do Sonhar. Uma parte de mim ficou presa pra sempre, uma parte que sempre reflete sobre aquelas histórias, aquelas personalidades, a humanidade de seres perpétuos, e o visceral do ser humano. O sumiço de Destruição, a semelhança entre Desejo e Desespero, a transformação de Deleite em Delírio, a cegueira de Destino, a tranquilidade de Desencarnação e sobretudo Devaneio, que também é chamado de Sonho e Morfeu.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Amo todos os perpétuos e gosto de pensar que consigo entender todos eles. Mas tenho um apreço especial por Sonho, afinal de contas sou uma sonhadora como ele. Ele só quer ser amado, e mesmo com uma longa trajetória não consegue lidar muito bem com rejeição. Acho que meus momentos preferidos da história são quando o Sonhar reflete o seu humor, quando chove porque ele está triste. Tenho vontade de mergulhar ali e dar um abraço nele, confessar que o amo e que o Sonhar não precisa chorar mais.

Sempre tento ser muito otimista em relação às adaptações, como toda leitora gosto de ver o livro na tela, gosto de analisar, de criticar então, adoro! Mas tenho ressalvas com a adaptação de Sandman, mesmo acontecendo em uma das melhores situações possíveis (pela Netflix e com a mão de Gaiman) não sei se a atmosfera dos perpétuos conseguirá ser mantida, se o trágico desses seres imortais será retratado. Fico me perguntando: será que as pessoas vão entender o simplismo de Morte? E ao mesmo tempo fico implorando para que não diminuam a história ou deixem os personagens rasos. Do que eu já li, sempre imaginei Sandman como o mais difícil de se adaptar. Pedia internamente para que adaptassem, exatamente na mesma quantidade que rezava para que não fosse adaptado. Mas vai acontecer e espero amar e me envolver com os minutos na tela da mesma forma que com as páginas coloridas.

 

*Krystal Baqueiro é pesquisadora, mestranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas, pela Universidade Federal da Bahia e consumidora intensa de literatura – ainda mais se for a seriada!

Li, assisti: A grande conquista da nova adaptação de Percy Jackson

Eu, diferente de muitas crianças/adolescentes da minha geração não comecei a ler com Harry Potter! Meu vício de leitura veio com Crepúsculo, fiquei encantada por aquele romance, envolvida pela leve tragédia daquilo tudo. Fui a uma feira de livros, na stand da editora da saga (nem sonhava em saber o que era Intrínseca na época), por falta de livros novos de Stephanie Meyer, escolhi comprar O Ladrão de Raios.

Lembro de chegar em casa e abrir o livro despretensiosamente, era umas 21h. Não consegui parar de ler, foi a primeira vez que virei a noite lendo um livro. A sensação permanece comigo até hoje, de curiosidade sobre o que ia acontecer e um leve medo dos monstros, principalmente do minotauro. Não consegui acordar pra ir pra escola no dia seguinte, levei bronca mas valeu tanto a pena.

 

percy vs ares | Heróis do olimpo, Livros de percy jackson, Percy ...

Ilustração de John Rocco

 

Alguns meses depois, fui passear na livraria e para a minha surpresa tinha sido lançado um segundo volume de Percy Jackson: O Mar de Monstros. Naquela época, não tinha essa fonte de informação que tenho agora, do que será lançado, o que é série e o que não é. Me lembro do deleite e do pânico ao explicar pra minha mãe como aquele livro era importante pra mim e o porquê deu precisar dele naquele instante. Sei que ela compraria de qualquer jeito, mas como adolescente não gostava de perder a oportunidade de ser dramática. Olhando pra esse momento com o conhecimento que tenho agora, de formatos e narrativas, aquela foi minha primeira experiência com uma narrativa seriada literária. Me tornei uma leitora ávida com Percy Jackson, o que influenciou a minha vida toda, o que sou e com o que trabalho hoje.
Esse longo discurso veio para justificar a grande decepção que foi ir no cinema e assistir a adaptação do Ladrão de Raios. Pra voltar o meu caráter dramático, acho que foi a pior adaptação que eu já vi (empatando talvez com O Último Dobrador do Ar). A atmosfera estava errada, o roteiro não respeitava nada, e um dos personagens mais queridos da série Annabeth Chase, a filha de Atena, era arrogante e briguenta, quase uma filha de Ares (cito aqui meu amigo Iago). Sem falar a idade inapropriada do elenco. Minha decepção foi tanta que nem assisti o segundo. Minha alma de fã foi minimamente restaurada quando tio Rick (apelido carinhoso que os fãs usam para o autor Rick Riordan) expressou o quanto tinha odiado a adaptação, e o quanto se sentiu impotente de ver seus personagens sendo adaptados daquela forma.

 

Percy Jackson e o Ladrão de Raios | Edição ilustrada tem novas imagens divulgadas
Ilustração de John Rocco

Depois de muita espera, muita antecipação, esse mês foi divulgado uma nova adaptação do Ladrão de Raios, com total envolvimento do autor. E para mim foi um bálsamo na minha alma, minha adolescente, leitora inexperiente aflorou e pulou de puro êxtase. Tenho plena fé nessa adaptação, não só pelo carinho de tio Rick com a história, mas os fãs já sofreram demais e duvido que queiram que a gente sofra mais. Estarei preparando comidas azuis e contando os dias pacientemente!

 

*Krystal Baqueiro é pesquisadora, mestranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas, pela Universidade Federal da Bahia e consumidora intensa de literatura – ainda mais se for a seriada!

Maratone como uma Garota! – La Reina del Sur

Em tempos de isolamento social, maratonar uma produção recheada de paixões, tiros, crimes, perigos, suspense – e o plus de uma protagonista feminina com muita coragem, inteligência, estratégia e pouca paciência pra traições e misoginia – é a melhor pedida. La Reina del Sur (A Rainha do Tráfico, no Br) é uma narcoserie* situada entre o México, Espanha e Estados Unidos, com tramas bem desenvolvidas e uma evolução de personagens bem interessante. Cola com a gente e vem se apaixonar por Teresa Mendoza (Kate del Castillo), la mexicana! Ah, tá disponível na Netflix hein? Então bora soltar esse espanhol aí! Só se liga, porque tem duas versões, uma delas é da USA Network e do canal Space, e protagonizada pela diva Alice Braga, e a outra é que falamos aqui, protagonizada por Kate del Castillo. 

Produzida pelo Canal Telemundo e exibida (a princípio) nos Estados Unidos, a primeira temporada estreou em 2011. A história é baseada na novela homônima do espanhol Arturo Pérez-Reverte e, na TV, é criada por Roberto Stopello. Se tornou um grande sucesso no México e em outros países só após algum tempo, especialmente depois de polêmicas** envolvendo a atriz Kate del Castillo e o Chapo Guzmán (El Chapo – o capo mexicano mais famoso). Muita gente considera uma obra inaugural para o gênero. Com a popularidade alta, a Netflix e a Telemundo produziram uma segunda temporada, que estreou em 2019.

 

Venezuela censura 'A rainha do tráfico' por considerar ...

 

A trama gira em torno de Teresa Mendoza, uma mexicana inocente que, após o assassinato do amante e traficante Güero D’ávila, foge da morte e se esconde na Espanha, onde uma série de acontecimentos a conduz ao posto de maior narcotraficante do sul do país, lhe rendendo o título de Reina del Sur. Entre amigos, inimigos e amores, vemos a transformação da personagem em um roteiro que, mesmo não poupando o toque de dramalhão mexicano, com tequila e rancheras***, conduz bem os plots e os eventos, que rodeiam o imaginário popular do mundo dos narcos. Um dos pontos altos é, sem dúvida, o elenco. Com atores de várias partes do mundo, o universo diegético toma uma profundidade e riqueza de detalhes.

Teresa passa um tempo na prisão, onde conhece a excêntrica socialite Patty O’Farrell (Cristina Urgel), bissexual assumida e militante (!), e a Conejo (Carmen Navajo), que se tornam aliadas no novo negócio de tráfico, sob a fachada de uma transportadora. Lupita, agente da DEA, se infiltra na organização como namorada de Patty, repassando à polícia toda informação sobre Teresa, e o resto vocês podem imaginar, né non? Falemos do que mais me interessa, então: o protagonismo e as representações das mulheres. Embora, na primeira temporada, a sexualidade e sensualidade da atriz (e de outras mulheres) tenha sido superexplorada, com muitos closes de corpo, pouca roupa, e tudo aquilo que circunda o estereótipo da mulher latina, já aí o amadurecimento de Teresa e sua imersão como narco já são bem conduzidos. As outras personagens, mesmo muito importantes para os arcos narrativos, não escaparam de estereotipações. O bacana é que há espaço para várias nuances de personalidades (mesmo a branquitude prevalecendo). 

 

Kate del Castillo Returns to Kick Butt in La Reina Del Sur | E! News

 

Entre a primeira e a segunda temporada houve um intervalo de pouco mais de oito anos, que se manteve na história. É notável uma evolução não apenas dos aspectos técnicos e da dimensão da produção, agora muito mais refinada e elaborada, mas, especialmente, no que se refere à representação feminina, principalmente da protagonista (o que não deixa de ser reflexo também da força ativista que a atriz Kate del Castillo tem, assumidamente feminista). O figurino está bem mais cuidadoso (e charmoso) e as cenas de ação mais elaboradas. Na segunda temporada, a história divide a atenção entre Teresa e sua filha Sofía. Após fechar um trato com a DEA, Teresa muda de nome e se refugia na Itália.

Nove anos depois, sua filha é sequestrada por seu inimigo e antigo padrinho, Epifânio Vargas, e Teresa é obrigada a retornar ao México e ao mundo do crime e fazer de tudo para recuperar Sofía. É nesse rolo de problemas que vemos toda a potência e poder da personagem como estrategista, e agora sem receio de pegar em armas e sem medo de denunciar o machismo. Não falta espaço para demonstrações de afeto, cuidado e proteção entre mulheres, e a repetição de que nosso corpo é nosso e só nosso! As temporadas são longas, mas o vício é garantido!

TRAILER!

 

 

 

 

*Narcoserie: gênero televisivo que surgiu na Colômbia e tem forte presença em produções da América Latina. Drogas, prostituição e violência são situações que marcam estas tramas.

**: A polêmica se refere a uma obsessão que o narcotraficante Chapo Guzmán desenvolveu pela atriz e pelo encontro secreto que ela e o ator americano Sean Penn tiveram com o Chapo enquanto ele estava fugido da prisão, no qual eles conversaram sobre uma possível produção de um filme sobre o traficante. O governo mexicano chegou a acusar a atriz de colaborar com o Chapo, e muitas falsas acusações sobre ela começaram a surgir, forçando-a a evitar seu país. 
***: Ranchera é um ritmo musical popular e tradicional do México, tipicamente associado aos Mariachis.

 

Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Plano em Série – O impacto visual de O Conto da Aia

O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) é uma série estadunidense baseada no livro homônimo de 1985 da escritora canadense Margaret Atwood, que fantasia sobre uma realidade onde poucas mulheres são capazes de gerar filhos e, em virtude dessa limitação, os Estados Unidos viram um regime totalitário teocrático para controlar a procriação a partir da escravização sexual. Uma temática chocante e que beira o absurdo, tem conquistado cada vez mais espectadores brasileiros por sua bizarra aproximação com a realidade.

Protagonizada por Elisabeth Moss no papel de June, uma escrava sexual de Gilead, O Conto da Aia assume o ponto de vista quase que exclusivo da personagem, conduzindo o espectador por suas memórias, angústias e lutas. June é afastada de sua filha Hannah (Jordana Blake), de seu marido Luke (O-T Fagbenle) para ser a reprodutora da família Waterford. Nesse processo, perde seu nome e é identificada pelo nome de seu possuidor “Fred” (Joseph Fiennes) associado ao prefixo Of (de, em inglês), sendo renomeada por Offred.

O que torna O Conto da Aia uma série completa, que combina a força narrativa com nuances estéticas é a sofisticação dos seus planos, a partir de uma câmera engenhosa que sufoca June em sensações que se descritas perderiam o sentido. Para compartilhar as angústias da personagem, os diretores de fotografia Colin Watkinson, Zoe White e Stuart Biddlecombe assumem uma estética que flerta entre a claustrofobia de June e a grandiosidade horrenda de Gilead. Usam então câmeras menos robustas como a Alexa Mini e a Sony a7S, que dão conta de registrar a protagonista visual da série: a luz. As dinâmicas de claro/escuro são tão importantes para construir a narrativa que muitas vezes não há sequer diálogos (ou no máximo uma voz over da protagonista) – os corpos sofrem estáticos, a luz os atravessa e os recheia de contrastes e acentos dramáticos.

Se a luz fala sobre os sentimentos de June, é a composição que grita sobre a opressão de Gilead. Em uma planificação cheia de simetrias, geometrias e centralizações desconcertantes, os fotógrafos utilizam da potência individual dos planos coletivos para agredir o espectador com a organização plástica das mulheres escravizadas. Em associação com a colorização meticulosa,  sem temperatura, onde tudo parece não ter cor, exceto as Aias que vestem o vermelho escarlate, a geometria fica ainda mais acentuada. Tudo é perfeito, balanceado e, portanto, absolutamente desconfortável, em perfilamentos dignos de campos de extermínio nazistas, a tortura visual acompanha a física e em poucas tomadas se percebe do que a instituição Gilead é capaz.

Tudo o que os fotógrafos constroem se baseia na
ausência de familiaridade com a realidade. Há algum conforto em cenas de flashbacks,
quando June recorre as memórias mais antigas para conseguir sobreviver ao mundo
agora posto – as situações são mais saturadas, com tons levemente mais quentes,
filmados a partir de ângulos mais usuais. Mas ainda assim o espectador não se
sente tranquilo, há inquietude nas lembranças que anunciam insistentemente a
possibilidade de um desastre brutal. Distópica ou sutilmente preditiva, O Conto
da Aia caminha para a sua quarta temporada confirmada para 2020, construindo
uma linguagem visual que transmite a principal sensação descrita no livro de
Atwood, a capacidade do ser humano em ser abominável.

Br em Série: Aruanas, o entretenimento e a urgência de tratar do ativismo ambiental

Estamos vivendo um momento político crítico no Brasil, e a pauta do meio ambiente e da preservação da Amazônia, seja para o bem ou para o mal, nunca esteve tão em alta. Algo que reflete um pouco disso é Aruanas, uma das novas séries da Globoplay. Exibida também no canal aberto às terças-feiras à noite e escrita por Estela Renner e Marcos Nisti, o seriado é uma coprodução entre Globo e Maria Farinha Filmes, e fruto de parcerias com organizações como o Greenpeace e a Anistia Internacional.

Frisei que a obra é entretenimento (melhor, entretenimento televisivo), pois quando se fala em audiovisual e preservação ambiental, normalmente, pelo menos no Brasil, estamos falando em vídeos educativos, documentários, reportagens, e filmes de caráter mais acadêmico. Muitas dessas produções acabam caindo nos velhos estigmas, de desinteressante, didático e, quando não, pedante. Assim, já tenciono que o que garante um aspecto de positivo a aqui é justamente o extra-narrativo, ou seja, é a importância política enquanto objeto de comunicação, tanto na questão da relevância temática, a atuação dos ativistas ambientais, quanto de gênero, por trazer mulheres nas principais áreas da produção quanto no protagonismo das personagens.

Por isso esse texto se divide literalmente em dois polos, os velhos pontos positivos e negativos, pois, só separando entende-se porque Aruanas pode ser considerada uma série interessante se pensada dentro do contexto político, mas ao mesmo tempo, não se pode deixar de ter um olhar crítico, pensando o lugar que ocupa o entretenimento, e por que ainda não avançamos nesse sentido.

Um ode às ativistas

Há duas premissas principais no seriado: A atuação dos ativistas e a questão de gênero. A história é centrada em quatro mulheres de personalidades, vidas e experiências diversas, que são ativistas da ONG Aruanas que lutam a favor da preservação a ambiental. Essa mulheres também representam formas de atuação política de um ativista. Luiza (Leandra Leal) é a agente de campo, aquela que se infiltra, espiona. Verônica (Taís Araújo) é a advogada do grupo, quem lida com as conexões políticas. Natalie (Debora Falabella) é apresentadora de programa jornalístico televisivo e usa sua influência para ajudar o grupo. Por último, temos Clara (Thainá Duarte), que traz a relação com a juventude, militância e as redes sociais.

O texto base e os diálogos de Aruanas também trazem essa carga politica, pois toca em pontos fundamentais acerca da exploração desenfreada dos recursos naturais. Mesmo sendo mais “entretenimento”, a trama consegue mostrar os vários lados da problemática. Um dos melhores exemplos disso, é o próprio “vilão”, o empresário Miguel (Luiz Carlos Vasconcellos), que apesar do enredo clássico maniqueísta, expõe seu lado mais humano, como na sua relação com a neta, e seu dom da eloquência, que desconstrói essa imagem do antagonista alienado.

Assim, num contexto político e social como o atual, Aruanas faz um necessário trabalho de conscientização e homenagem aos trabalhadores das causas sociais e ambientais. Como no episódio final, em que as protagonistas dizem em voz alta os nomes de ativistas reais, como Marielle Franco, Chico Mendes entre outros. É realmente emocionante assistir essa cena desfecho, principalmente quando vivemos um momento em que a palavra ativismo no Brasil se tornou um problema sócio-cultural, uma espécie de “xingamento” partidário.

Fora desse contexto político, a direção artística é belíssima, como da maioria das
produções da Globo. O diretor artístico, Carlos Manga Jr, é muito respeitoso ao
retratar com tanta precisão uma região tão importante do nosso país, com uma
fotografia implacável do estado do Amazonas e cenas belíssimas do dia a dia da
região (mesmo a história se passando na cidade fictícia de Cari), com muitos
planos aéreos que englobam a floresta, o rio, mas também expõe as áreas de
desmatamento.

O descaso com o entretenimento

Queria
poder falar só dessa importância política que a série carrega, afinal, estamos
vivendo um período em que tudo parece está dividido em dois lados: esquerda x
direita. Porém, não podemos achar que criticar é estar contra. É preciso
apontar os erros, as divergências, e Aruanas desacerta em muitos pontos.

Falei aqui da importância de ter protagonistas mulheres, mas apesar dessa escolha oportuna no âmbito político, com relação ao enredo acaba desequilibrando, criando situações clichês e previsíveis para as personagens. O maior exemplo disso é talvez o (totalmente desnecessário) triângulo amoroso, que deve ter sido briga na sala de roteiristas. Essa escolha para a trama pessoal de Natalie e Verônica só reforça os velhos estigmas da disputa entre mulheres, sem contar que Verônica no quesito drama pessoal, fica reduzida a isso.

A personagem de Clara também poderia ser muito melhor trabalhada, lidar com o drama da mulher jovem, mas acaba quase apagada e com subtramas que se misturam e não se resolvem. Porém, talvez a pior falha do enredo, é a personagem de Camila Pitanga, que apesar de sempre dar um show de atuação, é enquadrada como a típica femme fatale: mulher forte, sagaz, sensual e independente, mas má, fria, sem sentimentos, e sexualmente livre. Diferente do vilão Miguel, em que vemos suas várias camadas e que conseguimos ver nele pessoas reais, e que problematizam uma questão política (os donos de mineradora, por exemplo), a lobista Olga (Camila Pitanga), além de ter pouco tempo de tela, se apresenta como uma pessoa misteriosa, mas nada traz de novo e nada traz de complexidade a história. Uma pena!

As atuações são de peso, atrizes muito competentes, mas que por conta desses furos e mesmices no roteiro impedem que a gente se identifique mais com a história. Não é questão de não ser melodramático ou novelístico, é como se faz uso dessa estética, e no caso de Aruanas, é reforçando estigmas, padrões, que na verdade exercem o efeito contrário, ao invés de provocar sentimentos e sensações, deixam a história sem graça e forçada.

Outro ponto super problemático é a forma que retratam a questão indígena. Tá certo que vivemos num mundo onde ainda é mais fácil aceitar produções como Green Book que Infiltrado na Klan, só que já tá cansativo ver brancos do bem “salvando” índios, negros, comunidades. No caso da série, entende-se que não é por má fé, mas uma falta de esforço mesmo. No fim, temos uma representação leiga dos índios e a exposição deles como passivos, indefesos, que precisam dos brancos bons para lutarem por eles. Ora, no contexto atual que já temos condições de ter acesso a outras narrativas, o quanto temos visto nas mídias líderes indígenas falando na ONU, mulheres indígenas que estão lutando em várias frentes por suas terras? Acho muito descuido trazer essa questão e não buscar uma referência especial.

Se a justificativa é que assim atrai mais público, porque o horário de exibição foi tão tarde? Esse é o princípio ilógico da defesa dos produtos mainstream. Será que não há uma junção inteligente, tanto estética quanto de consumo, de política e entretenimento? O resumo simplório sobre essa obra pode ser coloquial: a ideia é boa e importante, infelizmente não colou tanto assim.

Confira o trailer, os 10 episódios estão disponíveis na Globoplay :

Crítica Coringa

por Enoe Lopes Pontes

Luzes, cores, temperaturas, sons. Coringa é um filme que traz uma estética que demonstra o desejo de se fazer notar. Seja na direção de Todd Phillips (Se beber, não case), na fotografia de Lawrence Sher (Hora de Voltar), na interpretação do próprio Joaquin Phoenix (Gladiador) ou qualquer outro elemento,o longa parece não querer passar despercebido. Todos os detalhes são intensos. São evidenciados. No geral, o resultado disto é positivo.

A produção traça o perfil de uma personagem insana, trazendo um retrato que foge de algo caricato. A questão da sanidade mental do protagonista é não o distanciada da humanidade e ele está inserido na sociedade. Ainda assim, o roteiro lembra ao público constantemente que o Arthur Fleck (Phoenix) não se encaixa no padrão de regras de comportamentos impostos por todos. Um ponto de partida para falar sobre esta característica pode ser corpo do intérprete, que narra para o espectador um pouco da trajetória daquela figura.

Resultado de imagem para coringa robert deniro

Raquítico, curvado, cabelo ensebado, Fleck parece ter um desespero em se encaixar no mundo, em ser aceito e ter pessoas que o admiram. Ao mesmo tempo, ele se sente preso a esta necessidade e, quando passa por um momento de virada em seu caminho, nota que o que ele precisa é bem diferente do que imaginava. E aí, talvez, esteja o maior ganho da obra. A partir de certa parte do enredo, o tão conhecido vilão das HQs, aqui, começa a ser visto como uma espécie de herói.

Ao trazer os conflitos sociais de Gotham e novas perspectivas de que são os algozes – sob o olhar um tanto mais desconstruído do século XXI – o texto de Phillips e Scott Silver (O Vencedor) consegue propor uma visão menos maniqueísta sobre as situações e desmascarar a vilania humana que habita em todas as personagens e, claro, em todos os seres humanos. E um dos elementos chaves, além da escrita e direção, que causam efeitos e sensações de reflexão e ligação daquele contexto com a realidade é a trilha sonora de Hildur Guðnadóttir (A Chegada). Ela dialoga diretamente com a figura principal da história e a sua constante sensação de estar sendo machucado pelo mundo constantemente e de várias formas.

Resultado de imagem para coringa critica

Outros pontos elementares da qualidade do filme são as atuações. Duas delas são as mais destacáveis. A de Joaquin Phoenix é mais óbvia. O ator, além de suas modificações na aparência físicas, criou um corpo, uma voz e um olhar diferente. Ele transmite acolhimento e terror em uma única expressão. A tensão é também criada por esse ser que aparenta estar sempre em prontidão para agir, podendo dar um um sorriso, uma ajuda ou cometer um assassinato. Esse limiar do Coringa é alcançado. É impossível saber o que ele fará em seguida.

Outro trabalho que chama atenção é o de Robert De Niro (Murray Franklin) que incorpora um apresentador de programa de TV. A construção do ator deixa sempre um mistério nos próximos passos de Murray. Ele é a própria figura idealizada na mente do protagonista, por isso não dá para saber durante a projeção quem é aquele homem de fato e De Niro faz isso nas intenções textuais e gestuais, mudando a cadência em cada sequência que aparece.

Imagem relacionada

Apesar de toda qualidade do longa, ele peca por certa falta de progressão dramática, que, talvez, se equilibrasse com um algum respiro ou um início com menos vontade de oferecer de vez todos os recursos técnicos que a equipe era capaz de trazer. No final, a experiência não é comprometida, mas, lá no fundo, fica um cansaço de ter visto tanta câmera lente e luz hiper estilizada desde os primeiros segundos de exibição.

https://www.youtube.com/watch?v=ntSvI2qaRxU

Comédia em Série: The Other Two

Imagine só ser a irmã mais velha fracassada do Justin Bieber? É mais ou menos essa a proposta da série mais nova do Comedy Central: The Other Two. A trama acompanha Cary (Drew Tarver) e Brooke (Hélene Yorke), dois irmãos nos seus 30 anos que são, respectivamente, um ator fracassado que paga as contas como garçom e uma ex-dançarina que está tentando encontrar sua paixão. Vivendo sua vida em Nova York, eles são surpreendidos com o sucesso repentino do seu irmão mais novo de 13 anos, Chase Dreams (Case Walker) – atenção especial a esse nome! O Chase viraliza com um clipe no Youtube e vira a sensação do momento.

Cary e Brooke acreditam que o sucesso é passageiro, mas não é bem assim. Quando sua mãe, Paty Dubek, vivida por Molly Shannon,  se muda para Nova York com seu filho pródigo, os irmãos percebem que a vida deles está prestes a virar de cabeça para baixo, ou para cima.


Sem querer contar muito mais sobre a história, devo dizer que a série tem um tom muito delicado, o próprio Chase Dreams tinha tudo para ser pura piada mas é um menino muito doce. Sua mãe, a Pat Dubek, é daquelas mães muito empolgadas que se jogam no sucesso do filho, mas não é retratada como uma mulher interesseira ou uma stage mom. A Brooke é sensacional, a clássica millenial sem perspectivas, fútil e amalucada que acaba se mostrando muito responsável e sensível, sem dizer que a sua personagem vive os melhores e mais constrangedores momentos, ou talvez eu deva dar esse posto ao Cary, que deveria ser o cara mais normal da série mas acaba sendo o que encontra mais dificuldade em lidar com a fama de seu irmão mais novo.

Por sinal, um dos momentos mais hilários da série é quando Chase Dreams lança o hit “My Brother’s Gay and That’s Okay!”, jogando a sexualidade do irmão nas mãos da mídia e gerando momentos muito engraçados e até bonitos de discussão.

Tirando muito sarro do showbiz e da geração influencer, o roteiro, escrito por Chris  Kelly e Sarah Schneider, ex-redatores do Saturday Night Live, é muito esperto ao ser caricato e sutil ao mesmo tempo, conseguindo trazer emoção e carisma ao que poderia ser apenas ridículo. Com boas doses de piadas ácidas, como o agente de Cary que está sempre atuando em um dos seus vários empregos, a série é uma boa pedida pra quem curte referências a cultura pop e uma boa história sobre ser jovem adulto e ainda tentar se encaixar no mundo de hoje.

Vou deixar esse clipe aqui e aposto que vai te deixar ao menos curioso pra conferir essa série – os clipes do Chase são muito engraçados, a paródia perfeita dos sucessos teens.

https://www.youtube.com/watch?v=yUeDkU7HyTs
*Laize Ricarte é comediante, roteirista e cineasta.

© 2020 - TV Aratu - Todos Direitos Reservados
Rua Pedro Gama, 31, Federação. Tel: 71 3339-8088 - Salvador - BA