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Br em série: Quarentena sem streaming, e agora? – PARTE 02

Dando continuidade ao nosso debate sobre a programação que a Rede Globo vem oferecendo durante este tempo de isolamento social, começamos por uma telenovela um tanto complicada, em minha opinião, principalmente pelo seu discurso de manutenção do protagonismo branco, em detrimento de colocar personagens e enredos que tragam a perspectiva de outras etnias, que tragam outras narrativas que não sejam as mesmas já tanto vistas! Mas, vamos lá!

 

Ah! E para quem não viu a primeira parte da seleção, pode conferir aqui o texto!

 

LISTA

 

Resumo da novela Novo Mundo de terça-feira 09/06/2020 - Novelas ...

 

Novo mundo, velha história

No horário das 18h temos uma escolha coerente, já que a próxima novela do horário será uma continuação dessa, porém, apesar de ter feito sucesso na época, com o argumento de que tratava a história do Brasil de uma maneira diferente (como a propaganda da novela ainda fala: com “mulheres fortes”), com essa reprise no momento que estamos vivendo, fica claro, o quanto reforça narrativas neoliberalistas e estereótipos, a principal delas é o white savior que já citei antes, colocar heróis e heroínas brancas, que querem salvar o indígenas e o povo negro escravizado. Porque dá tanta importância a Dom Pedro e Leopoldina e não as figuras da revolta de 2 de julho? Porque a personagem negra mais importante tem que se casar com um alemão (velho por sinal), e juntos constroem uma espécie de quilombo para salvar os escravos? Narrativa típica e real, mas não é essa romantização que a novela coloca. Tenho medo que coloquem a princesa Isabel como a heroína na próxima novela, justificando o fato com fato de ela ser uma mulher forte, “moderna”. Além disso, que sim, pra mim são pontos importantes se estamos falando de história do Brasil, e reforçando estereótipos, a novela tem um ritmo lento, é cansativa. O único enredo que me saltou os olhos de maneira positiva, são os personagens Germana e Licurgo, uma sátira aos personagens dos do filme musical Os Miseráveis, Madame e  Monsieur Thénardier, que dão um pouco de graça a uma história que se leva a sério demais, mas que no fundo não traz relevância.

Não falarei muito dessa, pois na verdade é a que menos tenho acompanhado, mas pelo que vi agora, e os relapsos que vi na primeira versão, esses pontos já se sobressaem apesar, da ideia ser boa, e do sempre figurino e cenários primorosos, demonstra que não há nada de muito novo no que está sendo contado.

 

Totalmente Demais e Fina Estampa: as escolhas erradas

Resumo da novela Totalmente Demais de terça-feira 09/06/2020 ...

Para mim, aqui estão as piores escolhas para re-exibição. A novela das 19/20h, tem até uma premissa interessante que condiz com o tipo de narrativa do horário, porém, ver uma história em que Marina Ruy Barbosa é escolhida a beleza natural do Brasil, é demais para mim. Além do mais o par romântico com Arthur (Fábio Assunção), traz o estereótipo da “Lolita”, além de dar espaço para personagens que estereotipados e caricatos. A ideia da “cinderela” (simplesmente a protagonista não funciona como gata-borralheira) pode até ter colado para alguns, mas pra mim é um enredo fraco em que nenhum personagem cativa de verdade. Sem contar que para colocar um triângulo amoroso, no mínimo os personagens tem que ter química, e não é o vermos aqui.

 

Fina Estampa segue no mesmo caminho. Apesar de trazer alguns personagens marcantes na época, a reprise reforça seu enredo estereotipado e que hoje nem mais sentido faz. O único ponto que salva, a meu ver a novela, são as atuações. Porém, apesar de Lília Cabral (Griselda/Pereirão) suar literalmente para construir essa versão de cinderela, a narrativa aqui também aqui não funciona. Não cativa totalmente, parece ter algo que não está certo. O engraçado é que o horário tinha boas opções para substituir a novela Amor de Mãe, que vinha fazendo sucesso. A Favorita, que está no Globoplay era uma das opções, com enredo mais sólido e menos clichê.

 

É isso, poderia falar dos programas talk show, mas aí o texto ficaria grande demais. Como última indicação temos ainda a série Aruanas que está passando a noite (o qual eu já escrevi um texto pro site), vale a pena conferir (autopropaganda rs).

 

*Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

 

Br em série: Quarentena sem streaming, e agora? – PARTE 01

Após um hiato de alguns meses, a coluna está de volta!!! Com essa situação que estamos vivendo, resolvi fazer um texto diferente do habitual. Temos muitas indicações de boas séries e programas para assistir nesse período de isolamento. O fato é que usamos cada vez mais as plataformas streaming. A Prime Video chegou no Brasil, a Netflix subiu 12% de sua  visualização, a Globo está investindo intensamente em streaming, a Globoplay, assim como outros canais fechados. Você pode encontrar algumas das indicações no próprio site do Série a Sério.  Porém, é importante lembrar que aqui no Brasil, nem todo mundo tem uma boa conexão de internet (ou mesmo internet) em casa e/ou condições de ficar pagando canais fechados e tantas plataformas.

Além disso, existem situações como a minha, que há 3 meses precisei que voltar a morar com minha mãe e avó, e, as vezes, consigo ver um filme ou série nos streaming, mas estou voltando a ver TV no seu sentido clássico: TV aberta, com programação e horários. A primeira coisa que me chamou atenção foi a escolha pela reexibirão de novelas e programas (já que pararam as gravações dos novos programas), e o formato como estão fazendo isso. Então, ao invés de ficar reclamando só na minha cabeça, resolvi ver alguns programas que minha avó assiste e ver com certa criticidade.

Já que tá difícil até ver série de verdade, resolvi escrever sobre esses programas que tenho acompanhado, para quem está na mesma situações como a minha, com a vó ou mães que não veem filmes e séries, ou que não tem internet em casa. Admito que me surpreendi positivamente com algumas coisas! Há muito tempo que não vejo novelas e globo (tentei ver outros canais, mas não deu. Nem novelas mexicanas antigas passam mais). Também vi que recentemente a minha ídola Tia Má está com um quadro no programa Encontro em que, de maneira bem humorada e crítica, fala de assuntos variados, desde maternidade até sobre os programas que estão no ar na emissora. Fiquei feliz de ver que temos um gosto parecido! Fica aí a primeira dica pra acompanhar: https://www.instagram.com/tiamaoficial/

 

Assim, resolvi dar minha sincera opinião (não é uma análise, resenha crítica como os outro textos que escrevi) sobre o que está passando na Globo de entretenimento nessa quarentena (tirando os programas jornalísticos e noticiosos).

 

Relembre a história de Êta Mundo Bom!, substituta de Avenida ...

Vale a pena ver de novo: Êta, mundo bom! substitui Avenida Brasil

Vela a pena ver de novo já é um programa fixo de reprises das novelas na Globo, e quando a pandemia começou aqui no Brasil, uma das novelas mais adoradas do público estava no ar: A mundialmente conhecida e premiada Avenida Brasil. Não vamos entrar aqui em méritos referentes a imitações, sabemos que o enredo da vingança faz sucesso desde O Conde de Monte Cristo, com as mais variadas narrativas (amamos vinganças, eu particularmente gosto mais de Ana Francisca, em Chocolate com Pimenta, que relembra também Carrie, mas recentemente tivemos O outro lado do Paraíso, que também teve boa receptividade com uma protagonista “vingadora”). De fato a novela, merece o sucesso pela boa construção de personagens, que têm enredos bem pensados, que fazem sentido. Personagens cativantes, mesmo que alguns meio “bobos”, nos quais é possível identificar os “tipos” em nosso dia a dia. A trama e o ritmo são bastante interessantes, tanto que aumentaram o tempo até dá reprise, batendo recordes de audiência no horário (claro, que a quarentena ajudou isso). Porém, como a maioria das novelas, principalmente as do horário das 21/22h, no final se prolongam demais, e tornam situações desnecessárias. Outro problema também é a questão da representatividade (sim, vamos falar disso), a novela escolhe falar de um tema muito complicado da nossa sociedade que são as pessoas que vivem no lixão, e apesar de ser um tempo importante de ser abordado, a maneira como a novela faz, soa leviana, beirando a romantização.

Agora está no ar substituindo Avenida Brasil, uma novela das 18h, quase seu oposto no quesito enredo. Se a anterior chamava atenção pelos personagens quase satirizados, situações de violência, vingança e maldade, Êta, mundo bom! agrada pelo seu enredo leve e engraçado. Traz uma narrativa sobre a vida na fazenda, do amor da família, e da história de São Paulo dos anos 1950, além de passar uma mensagem de positividade, homenageado a simplicidade das pessoas do interior. A novela segue os padrões das novelas dos horários, as “senhorinhas”, como eu, gostam muito desse tipo de enredo engraçado e ingênuo, bom para um entretenimento despretensioso.

No fim, as duas escolhas me parecem acertadas, pelo menos aqui em casa, eu e minha avó assistimos Avenida Brasil pela primeira vez, gostamos, entendo o sucesso que fez, e estamos gostando de Êta, mundo bom! (ela já viu, mas não lembra).

 

Malhação: Viva a Diferença ganha oportuna reprise

 

Malhação Viva a diferença

Pra começar a falar de Malhação, é preciso que me explique em um ponto: minha última referência da produção foi a da Vagabanda (2004), quando eu tinha 12 anos. Ou seja, uma pré adolescente bem insegura e viciada em histórias adolescente clichês. Não por nada, ainda vejo séries adolescentes, e fico feliz vendo como as narrativas têm evoluído tanto em forma e conteúdo (vale citar a maravilhosa Sex Education, que também temos texto aqui no site). Não assisto mais Malhação, principalmente pelo horário, e também por uma rejeição a tradicional maneira como foi conduzida a novela. Levando isso em conta, queria começar fazendo os devidos elogios a essa temporada, que traz, não um casal romântico como protagonistas (como fui pesquisar tem sido quase todos os anos), mas sim, cinco meninas, personagens bem construídas, com narrativas próprias, e arcos (desenvolvimento e história) bem definidos. Não preciso justificar que ter mulheres protagonistas, ainda mais diferentes em personalidade, cor e situação social, é importante, principalmente se estamos lidando com crianças e adolescentes.

A série com essa configuração de personagens principais traz temas importantes a serem debatidos, muitos de maneira diferente do usual (como gravidez na adolescência, padrão de beleza, racismo e relacionamentos não padrões, inclusive – soube (por spoiler) relacionamento lésbico e bissexual). Outro ponto positivo, que tem a ver essas construções de personagem e roteiro, é a direção de Cao Hamburger, conhecido por filmes como O Ano que meus Pais saíram de Férias, e nosso querido, Castelo Rá-Tim-Bum.  A temporada sai daquele enredo engessado e melodramático demais das telenovelas, além de não ficar “enrolando” ou trazendo conflitos apenas para “encher linguiça”. Os personagens secundários são muito bem pensados também, reforçam os temas trabalhados (é bom ver falando do funk como um tipo de cultura e não apenas como estereótipo da favela) e com particularidades, enredos desenvolvidos, não apenas para apoiar as protagonistas. Porém, se a temporada ganha potência com essas mudanças, perde ao continuar tratando os conflitos de maneira pouco profunda. Parece que, por se tratar de uma narrativa adolescentes, que a narrativa pode se guiar pelo superficial e ingênuo.  Ainda mais, com essa geração que tem pautado e debatido tantas coisas, está mais do que na hora de tratar esse publico alvo com seriedade.

 

Por enquanto, ficamos por aqui! Confira a segunda parte do post em breve! 🙂

 

*Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

Plano em Série – O impacto visual de O Conto da Aia

O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) é uma série estadunidense baseada no livro homônimo de 1985 da escritora canadense Margaret Atwood, que fantasia sobre uma realidade onde poucas mulheres são capazes de gerar filhos e, em virtude dessa limitação, os Estados Unidos viram um regime totalitário teocrático para controlar a procriação a partir da escravização sexual. Uma temática chocante e que beira o absurdo, tem conquistado cada vez mais espectadores brasileiros por sua bizarra aproximação com a realidade.

Protagonizada por Elisabeth Moss no papel de June, uma escrava sexual de Gilead, O Conto da Aia assume o ponto de vista quase que exclusivo da personagem, conduzindo o espectador por suas memórias, angústias e lutas. June é afastada de sua filha Hannah (Jordana Blake), de seu marido Luke (O-T Fagbenle) para ser a reprodutora da família Waterford. Nesse processo, perde seu nome e é identificada pelo nome de seu possuidor “Fred” (Joseph Fiennes) associado ao prefixo Of (de, em inglês), sendo renomeada por Offred.

O que torna O Conto da Aia uma série completa, que combina a força narrativa com nuances estéticas é a sofisticação dos seus planos, a partir de uma câmera engenhosa que sufoca June em sensações que se descritas perderiam o sentido. Para compartilhar as angústias da personagem, os diretores de fotografia Colin Watkinson, Zoe White e Stuart Biddlecombe assumem uma estética que flerta entre a claustrofobia de June e a grandiosidade horrenda de Gilead. Usam então câmeras menos robustas como a Alexa Mini e a Sony a7S, que dão conta de registrar a protagonista visual da série: a luz. As dinâmicas de claro/escuro são tão importantes para construir a narrativa que muitas vezes não há sequer diálogos (ou no máximo uma voz over da protagonista) – os corpos sofrem estáticos, a luz os atravessa e os recheia de contrastes e acentos dramáticos.

Se a luz fala sobre os sentimentos de June, é a composição que grita sobre a opressão de Gilead. Em uma planificação cheia de simetrias, geometrias e centralizações desconcertantes, os fotógrafos utilizam da potência individual dos planos coletivos para agredir o espectador com a organização plástica das mulheres escravizadas. Em associação com a colorização meticulosa,  sem temperatura, onde tudo parece não ter cor, exceto as Aias que vestem o vermelho escarlate, a geometria fica ainda mais acentuada. Tudo é perfeito, balanceado e, portanto, absolutamente desconfortável, em perfilamentos dignos de campos de extermínio nazistas, a tortura visual acompanha a física e em poucas tomadas se percebe do que a instituição Gilead é capaz.

Tudo o que os fotógrafos constroem se baseia na
ausência de familiaridade com a realidade. Há algum conforto em cenas de flashbacks,
quando June recorre as memórias mais antigas para conseguir sobreviver ao mundo
agora posto – as situações são mais saturadas, com tons levemente mais quentes,
filmados a partir de ângulos mais usuais. Mas ainda assim o espectador não se
sente tranquilo, há inquietude nas lembranças que anunciam insistentemente a
possibilidade de um desastre brutal. Distópica ou sutilmente preditiva, O Conto
da Aia caminha para a sua quarta temporada confirmada para 2020, construindo
uma linguagem visual que transmite a principal sensação descrita no livro de
Atwood, a capacidade do ser humano em ser abominável.

Br em Série: Aruanas, o entretenimento e a urgência de tratar do ativismo ambiental

Estamos vivendo um momento político crítico no Brasil, e a pauta do meio ambiente e da preservação da Amazônia, seja para o bem ou para o mal, nunca esteve tão em alta. Algo que reflete um pouco disso é Aruanas, uma das novas séries da Globoplay. Exibida também no canal aberto às terças-feiras à noite e escrita por Estela Renner e Marcos Nisti, o seriado é uma coprodução entre Globo e Maria Farinha Filmes, e fruto de parcerias com organizações como o Greenpeace e a Anistia Internacional.

Frisei que a obra é entretenimento (melhor, entretenimento televisivo), pois quando se fala em audiovisual e preservação ambiental, normalmente, pelo menos no Brasil, estamos falando em vídeos educativos, documentários, reportagens, e filmes de caráter mais acadêmico. Muitas dessas produções acabam caindo nos velhos estigmas, de desinteressante, didático e, quando não, pedante. Assim, já tenciono que o que garante um aspecto de positivo a aqui é justamente o extra-narrativo, ou seja, é a importância política enquanto objeto de comunicação, tanto na questão da relevância temática, a atuação dos ativistas ambientais, quanto de gênero, por trazer mulheres nas principais áreas da produção quanto no protagonismo das personagens.

Por isso esse texto se divide literalmente em dois polos, os velhos pontos positivos e negativos, pois, só separando entende-se porque Aruanas pode ser considerada uma série interessante se pensada dentro do contexto político, mas ao mesmo tempo, não se pode deixar de ter um olhar crítico, pensando o lugar que ocupa o entretenimento, e por que ainda não avançamos nesse sentido.

Um ode às ativistas

Há duas premissas principais no seriado: A atuação dos ativistas e a questão de gênero. A história é centrada em quatro mulheres de personalidades, vidas e experiências diversas, que são ativistas da ONG Aruanas que lutam a favor da preservação a ambiental. Essa mulheres também representam formas de atuação política de um ativista. Luiza (Leandra Leal) é a agente de campo, aquela que se infiltra, espiona. Verônica (Taís Araújo) é a advogada do grupo, quem lida com as conexões políticas. Natalie (Debora Falabella) é apresentadora de programa jornalístico televisivo e usa sua influência para ajudar o grupo. Por último, temos Clara (Thainá Duarte), que traz a relação com a juventude, militância e as redes sociais.

O texto base e os diálogos de Aruanas também trazem essa carga politica, pois toca em pontos fundamentais acerca da exploração desenfreada dos recursos naturais. Mesmo sendo mais “entretenimento”, a trama consegue mostrar os vários lados da problemática. Um dos melhores exemplos disso, é o próprio “vilão”, o empresário Miguel (Luiz Carlos Vasconcellos), que apesar do enredo clássico maniqueísta, expõe seu lado mais humano, como na sua relação com a neta, e seu dom da eloquência, que desconstrói essa imagem do antagonista alienado.

Assim, num contexto político e social como o atual, Aruanas faz um necessário trabalho de conscientização e homenagem aos trabalhadores das causas sociais e ambientais. Como no episódio final, em que as protagonistas dizem em voz alta os nomes de ativistas reais, como Marielle Franco, Chico Mendes entre outros. É realmente emocionante assistir essa cena desfecho, principalmente quando vivemos um momento em que a palavra ativismo no Brasil se tornou um problema sócio-cultural, uma espécie de “xingamento” partidário.

Fora desse contexto político, a direção artística é belíssima, como da maioria das
produções da Globo. O diretor artístico, Carlos Manga Jr, é muito respeitoso ao
retratar com tanta precisão uma região tão importante do nosso país, com uma
fotografia implacável do estado do Amazonas e cenas belíssimas do dia a dia da
região (mesmo a história se passando na cidade fictícia de Cari), com muitos
planos aéreos que englobam a floresta, o rio, mas também expõe as áreas de
desmatamento.

O descaso com o entretenimento

Queria
poder falar só dessa importância política que a série carrega, afinal, estamos
vivendo um período em que tudo parece está dividido em dois lados: esquerda x
direita. Porém, não podemos achar que criticar é estar contra. É preciso
apontar os erros, as divergências, e Aruanas desacerta em muitos pontos.

Falei aqui da importância de ter protagonistas mulheres, mas apesar dessa escolha oportuna no âmbito político, com relação ao enredo acaba desequilibrando, criando situações clichês e previsíveis para as personagens. O maior exemplo disso é talvez o (totalmente desnecessário) triângulo amoroso, que deve ter sido briga na sala de roteiristas. Essa escolha para a trama pessoal de Natalie e Verônica só reforça os velhos estigmas da disputa entre mulheres, sem contar que Verônica no quesito drama pessoal, fica reduzida a isso.

A personagem de Clara também poderia ser muito melhor trabalhada, lidar com o drama da mulher jovem, mas acaba quase apagada e com subtramas que se misturam e não se resolvem. Porém, talvez a pior falha do enredo, é a personagem de Camila Pitanga, que apesar de sempre dar um show de atuação, é enquadrada como a típica femme fatale: mulher forte, sagaz, sensual e independente, mas má, fria, sem sentimentos, e sexualmente livre. Diferente do vilão Miguel, em que vemos suas várias camadas e que conseguimos ver nele pessoas reais, e que problematizam uma questão política (os donos de mineradora, por exemplo), a lobista Olga (Camila Pitanga), além de ter pouco tempo de tela, se apresenta como uma pessoa misteriosa, mas nada traz de novo e nada traz de complexidade a história. Uma pena!

As atuações são de peso, atrizes muito competentes, mas que por conta desses furos e mesmices no roteiro impedem que a gente se identifique mais com a história. Não é questão de não ser melodramático ou novelístico, é como se faz uso dessa estética, e no caso de Aruanas, é reforçando estigmas, padrões, que na verdade exercem o efeito contrário, ao invés de provocar sentimentos e sensações, deixam a história sem graça e forçada.

Outro ponto super problemático é a forma que retratam a questão indígena. Tá certo que vivemos num mundo onde ainda é mais fácil aceitar produções como Green Book que Infiltrado na Klan, só que já tá cansativo ver brancos do bem “salvando” índios, negros, comunidades. No caso da série, entende-se que não é por má fé, mas uma falta de esforço mesmo. No fim, temos uma representação leiga dos índios e a exposição deles como passivos, indefesos, que precisam dos brancos bons para lutarem por eles. Ora, no contexto atual que já temos condições de ter acesso a outras narrativas, o quanto temos visto nas mídias líderes indígenas falando na ONU, mulheres indígenas que estão lutando em várias frentes por suas terras? Acho muito descuido trazer essa questão e não buscar uma referência especial.

Se a justificativa é que assim atrai mais público, porque o horário de exibição foi tão tarde? Esse é o princípio ilógico da defesa dos produtos mainstream. Será que não há uma junção inteligente, tanto estética quanto de consumo, de política e entretenimento? O resumo simplório sobre essa obra pode ser coloquial: a ideia é boa e importante, infelizmente não colou tanto assim.

Confira o trailer, os 10 episódios estão disponíveis na Globoplay :

Comédia em Série: The Other Two

Imagine só ser a irmã mais velha fracassada do Justin Bieber? É mais ou menos essa a proposta da série mais nova do Comedy Central: The Other Two. A trama acompanha Cary (Drew Tarver) e Brooke (Hélene Yorke), dois irmãos nos seus 30 anos que são, respectivamente, um ator fracassado que paga as contas como garçom e uma ex-dançarina que está tentando encontrar sua paixão. Vivendo sua vida em Nova York, eles são surpreendidos com o sucesso repentino do seu irmão mais novo de 13 anos, Chase Dreams (Case Walker) – atenção especial a esse nome! O Chase viraliza com um clipe no Youtube e vira a sensação do momento.

Cary e Brooke acreditam que o sucesso é passageiro, mas não é bem assim. Quando sua mãe, Paty Dubek, vivida por Molly Shannon,  se muda para Nova York com seu filho pródigo, os irmãos percebem que a vida deles está prestes a virar de cabeça para baixo, ou para cima.


Sem querer contar muito mais sobre a história, devo dizer que a série tem um tom muito delicado, o próprio Chase Dreams tinha tudo para ser pura piada mas é um menino muito doce. Sua mãe, a Pat Dubek, é daquelas mães muito empolgadas que se jogam no sucesso do filho, mas não é retratada como uma mulher interesseira ou uma stage mom. A Brooke é sensacional, a clássica millenial sem perspectivas, fútil e amalucada que acaba se mostrando muito responsável e sensível, sem dizer que a sua personagem vive os melhores e mais constrangedores momentos, ou talvez eu deva dar esse posto ao Cary, que deveria ser o cara mais normal da série mas acaba sendo o que encontra mais dificuldade em lidar com a fama de seu irmão mais novo.

Por sinal, um dos momentos mais hilários da série é quando Chase Dreams lança o hit “My Brother’s Gay and That’s Okay!”, jogando a sexualidade do irmão nas mãos da mídia e gerando momentos muito engraçados e até bonitos de discussão.

Tirando muito sarro do showbiz e da geração influencer, o roteiro, escrito por Chris  Kelly e Sarah Schneider, ex-redatores do Saturday Night Live, é muito esperto ao ser caricato e sutil ao mesmo tempo, conseguindo trazer emoção e carisma ao que poderia ser apenas ridículo. Com boas doses de piadas ácidas, como o agente de Cary que está sempre atuando em um dos seus vários empregos, a série é uma boa pedida pra quem curte referências a cultura pop e uma boa história sobre ser jovem adulto e ainda tentar se encaixar no mundo de hoje.

Vou deixar esse clipe aqui e aposto que vai te deixar ao menos curioso pra conferir essa série – os clipes do Chase são muito engraçados, a paródia perfeita dos sucessos teens.

https://www.youtube.com/watch?v=yUeDkU7HyTs
*Laize Ricarte é comediante, roteirista e cineasta.

Br em série: Guerras do Brasil.doc, revisionando nossa história, questionando nosso presente e pensando nosso futuro

Em tempos de governos que atacam os direitos humanos e, no Brasil, o fortalecimento do descrédito à educação, à filosofia, e à história, eis que surge um seriado documental, conciso, sobre momentos da história do país. No começo de junho, foi lançado na Netflix Guerras do Brasil.doc, do diretor Luiz Bolognesi (Ex- Pajé e Uma História de Amor e Fúria).

Distribuída originalmente pelo Canal Curta!,  traz versões sobre 5 conflitos da história do Brasil: “Guerras da Conquista”, que trata dos confrontos entre portugueses e outros colonizadores com os indígenas brasileiros;  “Guerras dos Palmares” sobre os conflitos com os escravos; “Guerra do Paraguai” desmistificando essa guerra que por muito tempo foi pouco questionada nas escolas e nos programas de comunicação; “Revolução de 30” sobre o período que o Getúlio Vargas esteve no poder; e finalmente o último episódio , “Universidade do Crime”, com tema atual, que fala sobre a criação das facções criminosas a partir das guerras e conflitos penitenciários (como por exemplo, o PCC e massacre de Carandiru).

O caminho é aparentemente cronológico, mas os episódios são independentes entre si e podem ser assistidos fora de ordem, de acordo com interesse pelo tema. Todos tensionam esses pontos históricos, trazendo questionamentos  para a história oficial e a situação atual, como por exemplo a questão das terras indígenas e conflitos de terra, que a toda hora (e mais ainda no atual governo) são debatidas.

 

 

O documentário é construído sem narração (sem a “voz de deus”*), segue através de depoimentos de historiadores, ativistas, professores e pesquisadores, aliados ao uso de intertítulos com dados, que compõem um painel sobre cada uma dessas guerras, possibilitando refletir sobre suas raízes e consequências até os dias atuais e pensar para onde estamos seguindo.

Todos trazem observações instigantes, uso expressivo de imagens com sons e músicas e imagens de arquivo, deixando a narrativa menos engessada e dando luzes à reflexões para buscarmos entender como nós, ditos Brasileiros, chegamos até aqui do jeito que somos, quebrando os velhos estereótipos e revisionando certos elementos da história que nos é ensinada.

Para estudar a história de um país, deveria-se atravessar todos seus momentos, incluindo suas páginas mais sangrentas e lamentáveis – e o Brasil, infelizmente, é pleno de confrontos trágicos desde sua fundação até hoje. É essa parte da história brasileira que a série conta: os fatos, as versões, as revelações e curiosidades sobre os principais conflitos armados da história do Brasil.

 

Brasil de guerras, opressões e resistências

 

 

“Não tem paz em lugar nenhum. É guerra em todos os lugares e o tempo todo”, essa frase do historiador e filósofo indígena Ailton Krenak no primeiro episódio da série e que justifica a afirmação acima. Ele também alega que a “relação” dos europeus com os indígenas não foi pacífica, como hoje muitos ainda pensam, que praticamente exterminou povos e que esse conflito existe até então (e ele ainda acredita que não vai acabar tão cedo).

Durante os episódios vemos o questionamento e a negação de muitas famílias brasileiras, como por exemplo, o fato da “invenção” do Brasil (alguém ainda fala em descobrimento?) ter sido na verdade uma invasão, ou a ironia com o nome do aeroporto de Maceió ser Zumbi dos Palmares e lá ser um dos estados onde mais se matam jovens negros.

 

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No último episódio temos reflexões sobre o sistema prisional brasileiro, a ineficiência da guerra às drogas e a corrupção policial, temas que conversam com outra obra (lançada também na Netflix e no mesmo período), a minissérie americana Olhos que Condenam, da diretora Ava DuVernay. O Brasil tem a terceira maior  população carcerária do mundo. Em 2017, assistimos pelos jornais o massacre e rebeliões dos presos de Alcaçuz, um dos mais brutais e sangrentos episódios da história do sistema prisional. Dois anos depois, parece que nada mudou, mas as marcas seguem reverberando.

A história do que chamamos Brasil (pós-colonização) é uma sangrenta e contínua história de conflitos e violência, de opressão e resistência. Nada de indígenas preguiçosos e “africanos fáceis de serem escravizados”, o que a série faz é mostrar que o Brasil (ou os portugueses e europeus) não são pacíficos como normalmente se constrói. Esse “fio da meada” bate de frente com os “ideais” expostos hoje, como a campanha de armamento. Re-pensar essas questões pode ajudar a buscar construir um futuro mais justo, com menos confrontos, menos guerras.

 

Educacional e político

 

 

O Brasil tem tido boa repercussão de filmes documentários, muitos falam do nosso passado, nossa história, e muitos da nossa política recente, como o Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes e o Democracia em Vertigem, de Petra Costa, poderia citar vários outros títulos. Porém, no ramo das narrativas seriadas ainda não  há um mercado tão consolidado.

Guerras do Brasil.doc não inova em sua narrativa ou estética, não problematiza tão fortemente suas questões como outras obras, e tem um tom meio didático e educacional, então, para muitos não deve acrescentar muita coisa. Porém, mantém um posicionamento firme.

Por exemplo, na fala do historiador Marcelo D’Salete, que afirma que “devemos tratar os  territórios (quilombolas e comunidades indígenas) com dignidade e respeito, proporcionando direitos que eles precisam para continuar existindo”. Ou quando coloca uma jovem mulher negra ativista para recitar sua poesia/ rap sobre a situação do população negra no final do segundo episódio.

 

 

*Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

 

 

No fim, a série se faz informativa, educativa e dinâmica. Em tempos de algoritmos que nos sufocam de produções pouco memoráveis, se permitir dar play em obras como essas é, além de um respiro, relevante.

Guerras do Brasil.doc ressaltam, cada uma à sua maneira, a importância da memória e da compreensão de estruturas sociais e arranjos de poder para enxergarmos e entendermos os conflitos da contemporaneidade tal como eles são.

*“voz de Deus” como é comumente chamada o narrador ou locutor que não é visto em cena e também não é personagem

Plano em Série: As texturas de “The Marvelous Mrs. Maisel”

Amy Sherman-Palladino criou séries importantes para a televisão estadunidense e guarda em seu portfólio, por exemplo, a lendária Gilmore Girls, estrelada por Alexis Bledel (Rory Gilmore) e Lauren Graham (Lorelai Gilmore). A roteirista, e também produtora em 2017, dá então início a mais uma de suas obras, a série produzida pela Amazon Prime, The Marvelous Mrs. Maisel, centrada na jovem dona de casa Miriam (Rachel Brosnahan), que reside em Nova York, na década de 1950 e resolve dedicar-se ao stand up comedy (comédia de palco).

A obra de Sherman-Palladino tem vários acertos, a começar por escolher o contexto retrô da cidade mais famosa dos seriados estadunidenses. Se a Nova York contemporânea é inevitavelmente interessante, na década de 1950 contempla situações político-sociais cheias de vigor, sobretudo no que tange as temáticas femininas. Miriam (apelidada de Midge) precisa lidar com suas próprias questões íntimas, seu casamento, filhos e família ao escolher a comédia de stand up como carreira, em um contexto onde mulheres (sobretudo as ricas) geralmente não têm profissão.

 

 

Para criar a atmosfera ideal da comédia de época, os diretores de fotografia M. David Mullen e Eric Moynier adotaram o conceito de realismo romântico, com uma abordagem natural na iluminação, cheia de práticos (janelas, abajures, lâmpadas), assumindo uma certa intensificação que adiciona dramaticidade as cenas. Com a iluminação mais neutra, o design de produção consegue trazer a beleza dos tons pastéis e contrastes de cores sofisticados à personagem principal. As tomadas externas aconteceram em Nova York, Paris e Catskills (as duas últimas apenas na segunda temporada), e foram ambientalmente tratadas com uma luz peculiar para cada uma delas, reforçando as cores vibrantes e luz quente do verão em Catskills, assumindo a temperatura mais aquecida natural que há nas noites parisienses, assim com o inverno azulado da Big Apple.

Em se tratando de equipamento, os fotógrafos escolheram a Panavision para lentes (com uma preferência pela prime 24mm, uma lente grande angular) e a Arri Alexa para o trabalho de câmera principal. Essa dupla permitiu que houvesse praticidade nos movimentos de câmera (há pouco investimento em planos estáticos) e garantiu um acento os espaços geográficos das cenas para garantir a estética de iluminação que contemplasse luz natural.

 

 

 

Duas cenas merecem destaque do ponto de vista da fotografia, realizadas com um Steadycam: a cena de abertura da segunda temporada (S02E01) em um belíssimo plano-sequência e uma cena em flashback sobre a trajetória da vida matrimonial de Midge, com uma câmera que gira em 360 graus e uma montagem graciosa cheia de elipses temporais (S01E04). A premiada The Marvelous Mrs. Maisel é, sem dúvidas, uma série encantadora pela sua temática cheia de poder, em um contexto de interesse do público feminino que cuida de sua forma com um preciosismo impecável.

 

Vídeo de referência:

 

 

 

Trailer:

Terror em Série: American Horror Story – O Apocalipse Chegou

Após sete meses de especial American Horror Story (2011-), chegamos, finalmente, na temporada que deu origem a dedicação de sete meses desta coluna, a oitava season do seriado: Apocalipse. Com altas doses de crossovers, personagens ressuscitando, um crescimento de camadas nas histórias já conhecidas, um aprofundamento na mitologia do produto queridinho de Ryan Murphy; a obra deixou os fãs com muitas expectativas e conseguiu abarcar algumas delas.

A espera principal era o retorno de Cordelia Goode e de todo seu Coven. Elas foram protagonistas da terceira temporada que, apesar de não ser uma das melhores no quesito narrativo, com certeza foi uma das mais potentes no que diz respeito a criação de mitologia. Outro crossover de seasons anteriores era o de Murder House, a primeira história do universo de AHS. No final dela, inclusive, vê-se uma criancinha satânica e, desde então, ficou uma promessa velada de se fechar este arco narrativo, iniciado em 2011.

 

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Apocalipse é a mistura dessas duas temporadas: as mulheres poderosas, bruxas do já consagrado Coven versus o anticristo, o garoto demoníaco que cresceu e agora aparecer para cumprir sua missão na Terra: a de destruir a humanidade. A divulgação do seriado mostrou pouco e talvez tenha gerado nos fãs certa expectativa de já começar vendo no primeiro episódio Cordelia e todas as outras bruxas chegando com tudo.

Mas, não foi o caso. Murphy, como sempre, quebrou as expectativas e as personagens apresentadas no episódio de estreia eram todas novas. Sarah Paulson, por exemplo, interpreta Wilhemina Venable, uma mulher misteriosa e sádica que controla a casa onde alguns poucos afortunados conseguem se refugiar do apocalipse. Este pequeno início já começa dessa maneira, de forma desesperançosa, mostrando o fim do mundo sem dó ou piedade.

 

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O primeiro episódio consegue ser existoso e mantém um ritmo frenético. Mal conhecendo as personagens é difícil se apegar a eles, mas, a total falta de história prévia vem aqui como uma maneira de acrescentar camadas posteriores para a trama e pode prender o público pela curiosidade. Alguns dos atores já conhecidos de outras temporadas como Evan Peters, Leslie Grossman e Billie Lourd aparecem no meio do fim do mundo, desesperados , tentando se salvar.

Diferentemente de alguns outros anos da produção, em Apocalipse os rumos narrativos acontecem de maneira direta e a série não tem medo de arriscar em nenhum momento. (ALERTA DE SPOILER)!!!!! É claro que, com o desfecho da trama, fica muito fácil de entender a falta de receio em ter medidas tão drásticas durante todos os episódios. Contudo, a sensação de que nada dará certo em nenhum momento pode trazer uma emoção a mais, principalmente, para os que já conhecem muitas das escolhas feitas pelos roteiristas da obra.

 

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Um ponto muito importante de se apontar é a maneira  que o seriado mantém a estética de cada temporada, sem perder a uniformidade de cada episódio. Pode-se ter a sensação de estar retornando para cada um dos universos já vividos pelo espectador. A direção de arte, os tipos de enquadramentos, os figurinos, tudo isso se casa perfeitamente com a energia e a proposta de Apocalipse.  A única diferença é que tudo que envolve as bruxas de Conven tem ainda mais movimento de câmera, mais closes, mais neblina e certa palidez e falta de saturação, enquanto tudo que tem com as personagens de Murder House é ainda mais escuro, mais sombrio. Já os cenários originais da oitava temporada, trazem ou um vermelho forte, bem típico de tramas com demônios, ou ambientes aparentemente sem vida, sem cores, neutros de qualquer caracterização que demonstre personalidade.

O mais importante de destacar dessa temporada é a habilidade usar os crossovers amarrando-os bem na trama, sem quase nenhum gratuidade e ainda dando um bom fan service. Apocalipse é eficiente em contar sua história e tem uma trama bem amarrada que possui um desfecho um pouco previsível mas, não desapontante. Como sempre, algumas pontas são, propositadamente, deixadas soltas para esperarmos por algum tempo a volta dessas bruxas tão poderosas e girl power. Aliás, haja empoderamento feminino!!!! Talvez, essa seja a temporada com mais personagens mulheres que são interessantes e saem de suas zonas de conforto para se unirem entre si, cada uma de sua forma, com seu talento. Já fazia algum tempo que sr. Murphy não servia uma season com tantas qualidades. Agora é esperar pela safra 2019. Até lá!

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Na Trilha da Série: o seriado musical Sandy & Junior

Se sua infância/adolescência aconteceu em algum momento entre os anos 1980 e 2000, é muito provável que você tenha acompanhado a trajetória de uma das duplas de irmãos mais famosas do Brasil: Sandy & Junior. Com carreira iniciada em 1989 – comemorando 30 anos em 2019, marco que será celebrado com uma turnê nacional –, o duo alcançou muito sucesso em diferentes vertentes, incluindo algumas experiências de atuação.

Os cantores se transformaram em atores para protagonizar o filme Acquária, (2003), e Sandy chegou até a interpretar a personagem principal de uma telenovela das seis da Globo, Estrela-Guia (2001). No entanto, foi entre 1999 e 2002 que a dupla teve seu início na televisão, encabeçando um seriado musical nessa mesma emissora, intitulado Sandy & Junior. No início desse projeto, a cantora possuía 16 anos, e seu irmão, 15.

 

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Contando com quatro temporadas e 114 episódios, o seriado trazia uma mistura entre ficção e realidade, sendo que Sandy & Junior eram os protagonistas, interpretando uma versão de si próprios em um contexto ficcional. A série se passava em um colégio onde eles supostamente estudavam, e trazia as aventuras de seu grupo de amigos adolescentes e sua rotina na escola, constituindo um tipo de Malhação encabeçada pelos irmãos famosos.

Sandy & Junior trazia um entrelaçamento da narrativa com a música, contando com números musicais no desenvolvimento da trama. Como os dois personagens principais se interessavam por música – Junior era instrumentista e DJ, e Sandy era vocalista principalmente de eventos escolares –, havia a realização constante de números da dupla sozinha ou acompanhada de seu grupo de amigos. Além disso, eram realizados também números em formato de videoclipe, evocados na abertura e/ou no encerramento dos episódios, que possuíam relação com alguma temática abordada no dia.

 

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A série trazia alguns desenvolvimentos regulares de jovens na faixa etária dos irmãos – como amizade, relacionamentos românticos e preocupações com carreira, por exemplo – além de pautar uma construção de carreira musical. As três primeiras temporadas tinham a escola como cenário central, cada uma representando um ano do ensino médio, e a última temporada já mostrava a transformação dos protagonistas em universitários – Sandy na faculdade de Psicologia e Junior na de Música – e também realizando o seu sonho de cantar, se tornando artistas famosos.

As canções evocadas para números musicais geralmente seguiam a carreira real dos irmãos e seu lançamento de discos. Isso aconteceu também com a abertura: a canção escolhida durante as três primeiras temporadas era “Eu acho que pirei”, lançada antes da estreia da série e um dos hits da dupla. Na quarta temporada, a abertura se modificou não só musicalmente, mas também em imagens, trazendo, ao invés do ambiente escolar, o conjunto de apartamentos em que os irmãos moravam enquanto universitários, e a canção “Não dá pra não pensar”, recém-lançada música de trabalho deles. Havia também o apoio em fatos reais da carreira da dupla de irmãos para construir a trama ficcional: o seriado foi finalizado no ano de 2002, com uma viagem dos protagonistas para Nova Iorque para estudar e investir na carreira de cantores. Nesse momento na carreira real de Sandy e Junior, era lançado seu CD Internacional.

Muitos atores que participaram desse programa em sua adolescência permaneceram como parte do elenco de telenovelas e séries da Rede Globo posteriormente, como é o caso de Fernanda Paes Leme e Paulinho Vilhena, por exemplo. Confiram no vídeo abaixo, realizado pelo canal de Youtube do Viva, uma comparação de fotos de atores do seriado Sandy & Junior enquanto jovens em relação à atualidade, ao som da última canção de abertura da série:

 

*Hanna Nolasco é jornalista, doutoranda e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

 

Na trilha da série: The Voice (EUA) e a força da country music

O reality show musical The Voice encerrou, em dezembro, sua décima quinta temporada nos Estados Unidos, e já tem data de estreia da temporada 16 agendada para o mês de fevereiro de 2019. O argumento original desse longevo reality vem da Holanda, e foi criado por John de Mol, o fundador da Endemol e da Talpa Media Group, empresas responsáveis por outros grandes sucessos de TV de realidade, como Big Brother e Masterchef, por exemplo.

Apesar de ter sido adaptado em diversos países ao redor do mundo, foi nos EUA que o The Voice teve maior durabilidade e disseminação. Contando com 49 indicações e 7 vitórias nos Emmy Awards – incluindo as conquistas de melhor série de competição de reality em 2013, 2015, 2016 e 2017 – esse produto se estabeleceu no topo do tão variado mercado estadunidense de programas de realidade.

A premissa do programa – e que o diferencia em relação a outros formatos de reality musical, como por exemplo o American Idol – é que a seleção de candidatos para a competição de canto seja somente baseada na voz, e não em qualquer outra avaliação, como por exemplo de gênero, aparência ou idade dos competidores. Sendo assim, as audições são feitas às cegas, com os técnicos virados de costas para os cantores. Eles só podem ver de quem se trata se baterem o botão e escolherem essa pessoa para seus times.

Muitos técnicos célebres já passaram pelo The Voice: Christina Aguilera, Cee Lo Green, Usher, Shakira, Gwen Stefani, Pharrell Williams, Miley Cyrus, Alicia Keys, Jennifer Hudson, Kelly Clarkson, além do novato John Legend, cuja estreia no programa ocorrerá na 16ª temporada. No entanto, dois técnicos estão presentes desde o início da atração em 2011: Adam Levine, do Maroon 5, e o cantor country Blake Shelton. Destacaremos na coluna de hoje o papel desse último técnico, suas vitórias, além da relevância da música country na história desse programa.

A country music é um gênero musical bastante relevante na história dos Estados Unidos. Poderíamos realizar, com ressalvas, uma aproximação da música country nos Estados Unidos com o mercado sertanejo no Brasil. É um gênero antigo, que nasceu como representação da vida interiorana no país, e que hoje compreende diversos subgêneros. A cidade que representa a força desse gênero é Nashville, no Tennessee, que inclusive dá nome a uma série musical que traz as nuances desse mercado nos EUA [série Nashville, 2012-2018].

A série Nashville foi inclusive cancelada pela ABC e posteriormente resgatada para suas últimas temporadas pela CMT – a Country Music Television, um canal privado cuja programação se baseia especificamente na música country. Esse é só um exemplo de como o mercado de música country nos Estados Unidos se estabelece de forma marcante e independente, contando também com seus próprios mecanismos de premiação [Country Music Association Awards, desde 1967] e gravadoras específicas do gênero [diversas, como a Big Machine Records e a Capitol Records Nashville], por exemplo.

The Voice e Blake Shelton

No The Voice, a country music está representada, desde a estreia, pelo técnico Blake Shelton. O cantor, que possui mais de 20 anos de carreira, só não teve representantes de seu time na final do programa uma vez. Em 7 das 15 temporadas, levou inclusive não só um, mas dois participantes para a grande final. Saiu vencedor em 6 temporadas do reality, não exclusivamente com cantores country, porém sempre destacando esse tipo de artista em seu time.

Raras vezes os artistas country, quando possuem o poder de escolha – no caso de mais de um técnico virar a cadeira para o cantor – não escolhem Blake. É uma busca comum, também pelo senso de comunidade desse gênero que é passado por Shelton: por diversas vezes o técnico já falou em um sentimento de família, afirmando que apoia a carreira dos artistas de seu time em um momento posterior ao programa. A escolha por Blake é, portanto, vista como uma oportunidade de maior visibilidade e ascensão na indústria country.

Alguns artistas country que se destacaram no programa são os vencedores Danielle Bradberry (4ª temporada), Craig Wayne Boyd (7ª temporada) e Sundance Head (11ª temporada). Ressalto também a vencedora Cassadee Pope (3ª temporada), parte do time Blake Shelton, que, apesar de ter entrado no The Voice como vocalista de uma banda de pop punk, investiu em outra vertente de carreira, na country music, após o término do programa.

É comum, no The Voice, que os artistas country permaneçam bem votados até as últimas fases da competição, muitas vezes também chegando à final. Em 11 das 15 finais até hoje, houve a presença de pelo menos um artista country, sendo que, na última temporada, três dos quatro finalistas eram artistas desse gênero.

The Voice temporada 15: a estreia de Kelsea Ballerini e a vitória de Kelly Clarkson

Outro ponto a se ressaltar sobre a relevância do country para o programa é que, na 15ª temporada, o The Voice estreou um quadro chamado “The Comeback Stage”, no qual uma quinta técnica convocava alguns dos participantes rejeitados nas audições às cegas e os treinava paralelamente, selecionando um deles para retornar à competição durante os shows ao vivo. A técnica convidada foi mais uma cantora de country: Kelsea Ballerini, da vertente pop country contemporânea, em destaque no cenário atual. Kelsea inclusive sairá em turnê esse ano com Kelly Clarkson, outra técnica do reality.

E foi justamente Kelly que trouxe outro momento importante para a 15ª temporada do The Voice: a técnica saiu vencedora dessa edição com Chevel Shepherd, uma cantora country de 16 anos. Um momento histórico, visto que foi a primeira vez que outro técnico venceu o programa com um artista country – feito apenas realizado outras três vezes por Blake Shelton. Clarkson inclusive disputou Chevel com Shelton durante as audições, e saiu vencedora – já aí um grande choque inicial para os espectadores.

Além disso, essa foi a segunda vitória consecutiva de Kelly como técnica, sendo ela mesma uma artista oriunda de reality show musical (a vencedora da primeira temporada do American Idol, ainda no início dos anos 2000). Fica então o questionamento: será que a vitória de Kelly Clarkson fará com que mais artistas country desejem fazer parte de seu time, trazendo competição ao veterano Blake Shelton? Só assistindo a 16ª temporada para conferir! Por enquanto, vejam aqui a audição às cegas da mais recente vencedora do programa:

 

*Hanna Nolasco é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

 

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