Categoria: Hilda Lopes pontes

Terror Em Série – Não pisque! Maratona de Terror Doctor Who!

 

A nova geração de uma das séries britânicas mais bem sucedidas na história televisiva, Doctor Who, trouxe uma nova leva de fãs, ou melhor, Whovians. Apaixonados pelo universo do viajante do tempo de Gallifrey, Whovian que é Whovian sempre quer aumentar o clã e apresentar a pluralidade temática, visual e narrativa do seriado.

Há uma quantidade expressiva de listas que indicam possíveis ordens para assistir Doctor Who ou por onde começar somente. Aqui, na nossa coluna, aproveitando que temos leitores que curtem terror, traremos uma lista com os episódios mais assustadores, protagonizados do nono doutor em diante. Sim, além de ser uma obra de ficção científica, ela também perpassa por outros gêneros e saiba que muitos dos melhores episódios são, justamente, os de terror.

Para não dar juízo de valor ou criar uma ordem que impõe um tom de hierarquia qualitativa, resolvi colocar os episódios por suas temporadas! Ah! E, tentei não colocar spoilers, mas, sempre sabemos que o conceito de spoiler termina sendo um pouco subjetivo para alguns. Então, atenção!

Preparados?

 

1 – THE EMPTY CHILD (01×09 – Doctor: Christopher Eccleston/ Companion: Rose):

 

 

Em meio a Segunda Guerra Mundial, o Doutor e sua companheira Rose (Billie Piper) estão em busca de um cilindro, mas, acabam encontrando criancinhas estranhas que usam máscara de gás. Essas criaturinhas ,que aparentam não ter personalidade ou até mesmo consciência, perguntam repetidas vezes para todos que encontram: “você é a minha mamãe?”

Além de perseguirem as pessoas com a suas vozes maquinais e assustadoras, todos previnem o Doutor para que ele não deixe que as menininhas e menininhos toquem nele. O episódio consegue estabelecer uma atmosfera de suspense, fazendo com que esses serzinhos assustadores surjam das sombras, dos lugares inesperados e também há uma progressão de urgência, a quantidade de crianças aumenta e o sentimento de repulsa e medo das mesmas se torna inevitável. Após a resolução do conflito, assumo que você pode se sentir culpado de querer jogá-las para o mais longe possível.

Acrescentando-se ao fato de ser bem realizado, existe um outro ponto positivo para conhecer a série a partir de Empty Child. É nele que conhecemos o capitão Jack Harkness (John Borrowman), ao lado de Rose e do Doutor, ele traz os momentos de alívio cômico, deixando o trio mais simpático e divertido.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=UxkaHcI7r18

 

2-  THE SATIN PIT (02X09 – Doctor: David Tennat/ Companion: Rose):

 

Continuação do episódio The Impossible Planet, Satin Pit mostra os encaminhamentos do mistério que assola uma nave. Talvez numa das tramas mais macabras já realizadas na série, vemos uma tripulação que está sendo possuída por uma entidade ou ser desconhecido denominado de A Besta. A trama traz uma representação demoníaca interessante, assumindo os poderes sobrenaturais do ser mostrado, mas, dando uma conotação quase científica para a figura do Santanás.

O que mais aterroriza na trana é que é possível ter a sensação de aprisionamento, já que o Doutor e sua companheira Rose estão sem seu dispositivo de viagem no tempo, a TARDIS. Logo, eles estão presos numa situação misteriosa, lutando, primeiramente, contra um ser ainda amorfo. Apesar de um acertado confronto final trazer questionamentos filosóficos e uma batalha discursiva entre o Doutor e o demônio, a visualização em forma de monstro, que conecta-se com a figura do imaginário coletivo, faz com que seja mais fácil lidar com o que dava mais medo na construção da ambientação de todo episódio: o inimigo não palpável, que não se sabe de onde vem.

Contudo, não deixa de valer a pena conferir, as certezas do Doutor, as tentativas de explicação práticas, caem por terra, mostrando um lado vulnerável do viajante temporal!

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Fr5cqfQJsbo

 

3-  BLINK (03×10 – Doctor: David Tennat/ Companion: Martha):

 

Um dos episódios mais aclamados de Doctor Who, Don’t Blink é uma unanimidade entre os fãs. Na trama onde só vemos os protagonistas quase que somente por fitas gravadas, temos Sally Sparrow, interpretada por Carey Mulligan, como personagem central da história.

O Doutor, preso em 1969, precisa impedir que os Weeping Angels tomem controle da TARDIS que está no mesmo ano que Sally, em 2007. O que mais assustas nessas criaturas, que são estátuas de anjos, é a maneira como agem rápido e, é claro, o fato que elas se movem toda vez que você pisca os olhos, se você não tomar cuidado, elas de transportam para outra época, sem ter como voltar para o período em que vive.

Como já ressaltei nos episódios citados acima, a série sabe trabalhar com o jogo entre horror/pavor e urgência, há uma maestria em cercar os envolvidos na trama, sem deixar muito espaço para esperança. Estou destacando esse fator porque em muitos episódios há uma atmosfera de segurança, sabemos que tudo vai ficar bem, que todos se salvarão. Mas, uma coisa que não existe quando falamos sobre esses seres alados de pedra é segurança.

Quanto mais os Wheeping Angels aparecem maiores são os danos causados por eles, pelo menos é a impressão que fica. Mais adiante, muitas outras histórias acontecem tendo-os como vilões e uma boa mitologia é criada. E deve-se admitir que estátuas pensantes que te transportam para outra época é algo muito assustador. O layout delas, por assim dizer, também não é visualmente agradável, mas há aqueles com coragem para comprar toy art dos Angels, coragem demais.

Eu posso apostar que depois de assistir Blink, você vai ver estátuas de uma outra forma. Eu, pelo menos, sempre confiro para ver se elas estão no mesmo lugar.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=o8ls2oHq8Bw

 

4 – SILENCE IN THE LIBRARY (04×08 – Doctor: David Tennat Companion: Donna):

 

No episódio onde somos apresentados à River Song, uma personagem que se mostrará espetacular e cheia de mistérios particulares que vão se desenvolver por muitas outras temporadas, temos tudo que há de mais especial neste seriado: uma ameaça invisível, predadora e que devasta tudo que há pela frente. Pode ser até um aparente gosto particular, mas, quando o Doutor não consegue explicar ou se ver vulnerável de fato em frente à um perigo, as coisas se tornam mais instigantes.

Dentro de uma biblioteca do tamanho de um planeta, vemos um clima de perigo eminente, onde o jogo de luz e sombras se torna fundamental para reforçar a ambientação terrorífica da história. Vashta Nerada é implacável, tira sua carne até os ossos instantaneamente e pode estar em qualquer lugar e entrar até nos trajes espaciais usados pela comitiva de River.

É interessante ver a paciência para construir a ideia de pânico entre as personagens e a calma de inicial de Song nos deixa mais próximos de um ponto de vista do Doutor que ainda não a conhece, mas, ela afirma que sabe muito sobre ele e tem um diário em forma de TARDIS. O suspense do episódio aumenta por estarmos todos desconfiados, assim como a personagem de Tennat. Eu poderia falar mais sobre a relação dos dois, mas, seria spoiler!

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=htLVk1eFQVE

 

5- THE VAMPIRES OF VENICE (05×06 – Doctor: Matt Smith/ Companions: Amy Pond e Roy Williams):

 

 

Após a saída de Russell T. Jones como produtor executivo e de Tennat como o Doutor, vemos uma outra atmosfera que se instala com a entrada de Steven Moffat e Matt Smith. Certa prioridade em tramas interplanetárias e mais voltadas à ficção científica, dão lugar para uma mitologia mais cunhada no fantástico, principalmente, durante a era do décimo primeiro viajante no tempo.

Neste episódio – que trabalha bem a tríade Doutor, Amy e Roy e suas relações – vemos um clima que remete ao Drácula, de Fracis Ford Coppola, um pouco menos sombrio, de certa maneira. Como diz em seu título, a história se passa em Veneza, na época da Peste e tem em suas locações, direção de arte e figurino o verdadeiro potencial de nos levar junto nessa viagem temporal.

Em The Vampires of Venice há algo que, sempre que se repete no seriado, deve-se dar valor, eles conseguem explicar figuras do imaginário fantástico quase sempre como criaturas alienígenas que têm algum desejo de tomar, possuir e/ou destruir o planeta Terra. Ainda que na verossimilhança externa, ou seja, em nossa realidade, pareça ainda fantástico, no universo de Doctor Who termina sendo uma explicação científica, de compreensão lógica para nosso detetive interplanetário.

Smith também traz um frescor jovial ao personagem que agora tem mais facilidade de escalar prédio e lutar de maneira mais incisiva, deixando esse episódio um dos mais divertidos de sua temporada.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=doATg3A74-s

 

6 – NIGHT OF TERROS (06×09 – Doctor: Matt Smith/ Companions: Amy Pond e Roy Williams):

 

Os primeiros medos, que atormentam todos nós durante a infância, são explorados nesse episódio que sai um pouco da curva e traz respiro para a sexta temporada de Doctor Who. Num ritmo menos apressado, desenvolvendo sua trama com paciência e, pode-se dizer que, até certo sadismo, Night of Terrors mostra o trio ajudando um garoto de oito anos que tem medo de quase tudo. Enquanto o Doctor tenta ajuda-lo, Amy e Roy ficam presos rodeados de bonecos nada fofos.

Nessa história é o não acontecer, os silêncios que permeiam os ambientes que reforçam o absoluto terror da situação vivida pelos protagonistas. Como crianças que todos nós fomos um dia, eles ficam, de certa forma, receosos, tateando no escuro, esperando os fantasmas saírem das sombras, dos armários, debaixo da cama. A empatia de quem já teve algum medo parecido pode ser imediata e a lentidão do desenvolvimento do arco colabora para a sensação de pânico empático, vamos assim dizer.

Claro que, por ter esse ritmo específico, pode não agradar aqueles que preferem episódios mais voltados para aventuras, como o anterior, por exemplo. O que acredito é que, por já ser um produto consolidado, o seriado tem o privilégio de explorar gêneros e maneiras novas de abordar o cotidiano do Doutor e de seus companheiros. Para quem é mais paciente e não fica no furor de maratonar ou acabar tudo de uma vez só, resta saborear essa história que joga com o subconsciente do espectador e com aquele desejo que desperta já quando somos adultos e ouvimos algum barulho misterioso: “não deve ser nada”, repetimos e aqui a gente tem plena convicção de que sim, há algum ser ou seres muito (s) macabro (s).

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=tXAsB5zn6TI

 

7 – HIDE (07×09 –  Doctor: Matt Smith/ Companion: Clara Oswald)

 

 

O que estava faltando nessa lista, dentro do imaginário das histórias de terror, aparece neste episódio: fantasmas. Apesar de poder despertar um certo estranhamento, por trazer um estilo visual um pouco diferente do que o costumeiro, o diretor Jaime Payne consegue criar um microuniverso visual com seu olhar criativo.

Há uma decupagem, certamente, muito característica do horror, que presa por cortes rápidos e planos médios de aparentes vultos que passam atrás dos mocinhos, mas, há também uma liberdade de movimentação de câmera e escolha de enquadramentos que traz deste episódio em diante uma busca por esse olhar de diretor. Depois de Hide, nota-se uma interferência de tentar sair do lugar comum para traduzir em imagens os sentimentos das personagens.

Claro que, desde a entrada de Moffat, houve um cuidado de arte e direção, não direi maiores, mas, mostrando uma particularidade de cada episódio, trazendo estéticas menos genéricas e marcando a singularidade de cada trama.

Este é um episódio que até o Doctor assume que está com medo, da empolgação como se estivesse num filme de Ghost Busters até o verdadeiro pavor e incerteza, passeamos por uma mansão repleta de cenários especialmente aterrorizantes. Há na narrativa uma proximidade com o lugar comum, com já conhecidas histórias de mistério, mas aqui, vê-se a utilização da mesma com plena consciência de que há uma mistura entre pastiche e homenagem para, no fim dos acontecimentos, tentar fugir do desenlace esperado.

Hide é tão cool e pode fazer o espectador imergir tanto na trama que talvez haja a chance de esquecer que nele há a sem graça Clara Oswald.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=0C8io51oTAo

 

8 – LISTEN (08×04 – Doctor: Peter Capaldi/ Companion: Clara Oswald):

 

Ok…esse episódio também tem fantasma e também tem a Clara Oswald. Talvez, para ter um punch a mais, realmente, só com seres etéreos e, claro, a combinação Capaldi+Oswald já é melhor do que Smith+Oswald.

De qualquer maneira, vamos lá. As temporadas estreladas pelo décimo segundo doutor têm um teor muito mais próximo às criaturas alienígenas ou histórias de naves, mais ligadas à ficção científica clássica. Aos poucos, isso vai mudando até o fim do seu ciclo, contudo, no geral, é bem por aí. Por isso, Listen se destaca dentre as tramas capaldianas e desperta na memória aquela sensação de perigo e urgência vista somente no tempo onde Tennat era estrela ou, no máximo, quando os Wheeping Angels apareciam.

Novamente jogando com os medos da infância, a história nos faz questionar: e se nunca tivermos estado sós no mundo? E se esses seres estivessem nos acompanhando e ficassem embaixo da cama aguardando pela oportunidade de puxar nossos pés de noite. O destaque de episódio vai para a construção narrativa e o despertar do medo através daquilo que não vemos ou que vemos em pedaços, em fragmentos que traduzem pesadelos, que remetem aos sonhos mais sombrios cravados no imaginário coletivo. “Não olhe”, diz o Doctor e tudo o que queremos é olhar, numa mistura de pânico e curiosidade, na sensação que essa história pode nos levar para um abismo, ainda que subconsciente.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=6MEHSCBYaHQ

 

9 – UNDER THE LAKE (09×03 – Doctor: Peter Capaldi/ Companion: Clara Oswald):

 

Terminando a trilogia fantasma feat. Clara Oswald, temos agora seres etéreos verdadeiramente assassinos. Com um visual mais humanizado, talvez até mais palpável, a ameaça vem de uma tripulação em perigo onde suas mortes alimentam cada vez mais o exército de mortos.

O mais interessante desta trama é a maneira como a compulsão por gerar novos fantasmas é explicada, mais uma vez trazendo um teor científico ao inexplorado. Quanto mais mortos, maior o sinal das coordenadas que estão sendo enviadas para uma igreja na cidade submersa. Outro destaque é o retorno dos Tivolians, criaturas que foram anteriormente mostradas na era do décimo primeiro doutor, no episódio Complexo de Deus.

Apesar de não trazer muitas novidades para o arco da temporada, vale como uma das aventuras despretensiosas do Doutor, desmembrando-se no episódio seguinte, Before the Flood. Para um Whovian, ainda há sempre o prazer de conhecer mais um pouco sobre os outros seres intergalácticos que habitam a enciclopédia de espécies do viajante no tempo.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=5msVQwu-xgk

 

10 – KNOCK KNOCK (10×04 – Doctor: Peter Capaldi/ Companion: Bil Potts e Nardole):

 

Voltando às aventuras mais emocionantes e que despertam aquele típico desespero de quem assiste Doctor Who, temos mais um elemento clássico de gênero: a casa que tem vida própria. Vejam bem, diferente de mansões mal-assombradas, onde há fantasmas e afins, aqui temos um local que é perigoso em si, onde as portas, paredes, tudo ao redor pode ser fonte de ataque.

O episódio lembra um pouco Playtest, de Black Mirror, principalmente pela direção de arte e paleta de cores da fotografia. As escolhas visuais estão atreladas aos elementos que irão provocar o terror, apresentando uma estrutura coesa que amarra a trama para dentro. Apesar de ser um lugar grande e supostamente espaçoso, seus corredores são, além de estreitos, povoados de móveis e prateleiras com livros, deixando o ambiente sufocante e repressor.

As paredes de madeira, que parecem que se partirão a qualquer momento, tem continuidade de cor com o chão, tudo no mesmo tom de marrom, formando quase que um quadrado sem saída, deixando pouco respiro. A luz corrobora com este possível sentimento, puxada para o âmbar, tendo como fontes abajures, tornando os lugares com uma aparência de pouca iluminação, trazendo uma imersão das personagens dentro do cenário, o que casa muito bem com a proposta da trama. É aquela casa onde as crianças criam histórias aterrorizantes e que dá a impressão de quem entra não sai mais dali. Muito se esconde entre luz e sombra nesse episódio que é exitoso em provocar repulsa ao mesmo tempo que certa ansiedade de ver o mistério sendo desvendado, a clássica, história de agonia.

 

Trailer:  https://www.youtube.com/watch?v=5y-h6_HLyec

 

11-  KERBLAM (11×07 – Doctor: Jodie Whittaker/ Companions: Yasmin, Graham e Ryan):

 

Há muito a ser explorado no que se diz respeito ao medo quando falamos em seres inanimados com vida. Diferente dos Daleks ou Cybermans, os TeamMeats tem um aspecto que deveria ser amigável, contudo, é esse sorriso feliz e robótico que os deixa ainda mais assustadores.

Neste episódio, vemos um crescimento da temporada que é bastante irregular, tirando “Rosa”, até então, vê-se uma falta de rumo e uma quantidade de conflitos, tanto de vilões quanto dos companions que não é possível dar conta em um pouco mais de quarenta minutos, deixando tudo um pouco desinteressante. Por isso, Kerblam traz certo frescor, voltando a se focar em um conflito somente e que pode envolver o público nessa história que une bem terror, ficção científica e narrativa de detetive.

Como o TeamMeats são iluminados, os ambientes escuros ressaltam suas presenças, dando um ar de demoníaco aos bonecos robôs. A trilha de caixinha surpresa também reforça a doçura simpática aterrorizante que parece ter certo poder onipresente. Apesar da premissa meio Skynet aparentar não ser muito inovadora, é na simplicidade narrativa que esse episódio se faz, retornando à trama de uma só locação, do perigo que se mostra como impossível de lutar contra, um clássico Whoviano.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=5hQl17qHHuw

 

 

 

 

 

 

 

 

Crítica: Sob Pressão e suas camadas narrativas e visuais

A série médica brasileira, que é muito conhecida pela maioria por ter sido indicada ao Emmy Internacional, Sob Pressão existe desde 2017 e é derivada de um filme homônimo, que por sua vez é derivado de um livro chamado Sob Pressão: A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro, de Marcio Maranhão. O drama que tem como um dos criadores Jorge Furtado (Saneamento Básico) tem um crescimento exponencial desde seu longa até a terceira temporada e esse sucesso é refletido nos prêmios recebidos e nas apostas de linguagem cada vez mais apuradas, resultado numa possível maior liberdade dos autores para se arriscarem mais.

Para falar da série é importante destacar a relevância do filme para a criação do universo e da construção das personagens que foram posteriormente melhor desenvolvidas. É claro que um longa não dá conta de detalhar a personalidade e os acontecimentos da vida das pessoas retratadas em uma hora e meia, duas horas. Contudo, vemos no filme um cenário básico: médicos do SUS precisam salvar vidas e, em meio a um caos e questões políticas que fragilizam a saúde no Brasil, eles conseguem, ao mesmo tempo lutar pela eficácia proposta pelo Estado, ainda que não consigam dar conta de tudo, há constante falta de materiais.

 

Como será o fim de Sob pressão? | Blog Próximo Capítulo

 

O protagonista, Dr. Evandro (Júlio Andrade), é uma espécie de MacGyver da medicina, fazendo todo tipo de improviso para ajudar um paciente. Ainda no filme, vemos quando o Dr. Evandro conhece a Dra. Carolina (Marjorie Estiano) e como a relação deles surge primeiro de uma admiração e respeito ao trabalho um do outro. Além da relação entre os personagens, cria-se também uma linguagem dentro do filme que reverbera no seriado. O ritmo frenético vivido dentro dos hospitais é traduzido em imagens. Com muitos planos longos e planos sequências, o espectador pode presenciar um mise-en-scène que representa essa urgência de um pronto socorro sem recursos.

Já nas três temporadas de Sob Pressão, temos em seu início uma continuidade na trama deixada pelo longa. Os acontecimentos ocorrem um ano após a entrada de Carolina no hospital e novas personagens são inseridas na narrativa, mantendo os protagonistas e o diretor do local, interpretado por Stepan Nercessian. A produção é cuidadosa e pode-se perceber o preparo da equipe para a construção de uma obra sólida. A começar pela elaboração dos seres que praticamente habitam o hospital e suas linhas narrativas. Durante três temporadas conseguimos acompanhar o desenvolvimento daqueles que possuem mais relevância para as tramas, sem esquecer também de dar tridimensionalidade para as personagens secundárias. Apesar de ter um certo caráter episódico, com o “monstro da semana”, melhor traduzido como os dois pacientes mostrados, há um hibridismo e sempre temos mais conhecimento sobre quem são aquelas pessoas, o que as trouxe ali, suas paixões, segredos, sempre com muita coerência, sem perder elementos plantados seja no filme, seja no seriado.

 

Globo vai produzir mais duas temporadas da série Sob Pressão

 

Essa construção aqui realizada tem seu ganho em optar por trazer do filme os conflitos da primeira temporada. Ainda que quem não tem visto a obra cinematográfica entenda o enredo, é da morte da esposa do protagonista, o passado ainda não desmembrado de Carolina e os conflitos financeiros do hospital que são base para a principal linha que une os episódios. Seja na dualidade entre o ateísmo de Evandro e a religião da personagem de Marjorie, seja nos laços de amizade construídos pelo cotidiano de plantões de mais de 48h ou nos coadjuvantes como o ambulante Barão, o policial Botelho e a hipocondríaca Dercília que compõe quase que o cenário do local, Sob Pressão é exitosa em envolver o público nas histórias. Ninguém está em cena gratuitamente, os arcos são bem delineados ainda quando são simples e é difícil não torcer, vibrar ou até, às vezes, ter a sensação de que estamos ambientados naquele universo tal qual suas personagens. Há um bom equilíbrio também entre as tensões do cotidiano médico e os alívios cômicos, romances, interesses pessoais. Ao contrário de algumas obras estadunidenses que se demoram a resolver conflitos, como House, por exemplo, esta narrativa sempre anda pra frente, encontrando um equilíbrio de ritmo, sem pressa, mas, sem enrolações.

 

Marjorie Estiano é indicada ao Emmy por seu papel em "Sob Pressão ...

 

Contudo, não é só no desenvolvimento da trama e na construção do enredo que o seriado tem mérito. Assim como nos produtos estadunidenses, a televisão tem se preocupado cada vez mais em não só criar tramas que prendam seus espectadores, mas, competir com obras que possuem alta qualidade estética. O padrão técnico visual de Sob Pressão é afinado e tem dois principais elementos que juntos permitem um efeito impactante tanto no sentimento do público que se vê imerso nas situações apresentadas, tanto, para aqueles que entendem mais da linguagem, eles são a decupagem e a montagem. Em cenas de alívio de tensão, como quando surge uma conexão entre duas personagens ou uma família passa por um drama que denomino aqui a grosso modo de ˜drama de versus˜- por exemplo, crença religiosa x a vida de um filho, uma cena onde o filho está cuidando da mãe no leito, etc, temos planos mais clássicos. (ALERTA DE SPOILER!!) Podendo ser, um plano mais aberto, que ambiente o público sem precisar de diálogos para explicar o acontecimento: em uma enfermaria mais vazia, onde tem-se o local mais reservado do hospital, vemos uma adolescente que tentou suicídio inconsciente. Mais distante dela, está o seu pai, que conversa com Carolina para saber as novidades do caso.

O plano aberto nos ambienta do que está ocorrendo.  Vê-se a figura paterna distante, representando uma tradução de sua filha com ele, ao mesmo tempo, conseguimos ver que Carolina está numa posição privilegiada para assistir os fatos que irão se suceder na cena. A garota acorda, depois de um tempo no plano aberto, temos um plano mais fechado, o público pode comprovar a expressão de pânico da adolescente. Em seguida, a menina pula pela janela, novamente em um plano mais aberto onde pode-se ver o pai, Carolina e o salto. Entre o momento do susto e o pulo, um contraplano da reação da personagem de Estiano que, a essa hora já sabemos que sofria assédio em sua infância, e a certeza de que a garota passa pelo mesmo que ela. Nesta cena do segundo episódio da primeira temporada, os diálogos são breves, não há muito o que dizer, a decupagem* fala por si só. O elo narrativo constrói aquele momento de já desconfiança em relação à figura paterna por conta do passado de Carolina, a escolha de planos somente acrescenta, sem redundâncias, a visão da personagem do que acontece em sua frente. A câmera é um reflexo dos sentimentos da médica e as escolhas da sucessão de imagens bem decupadas é um trunfo da montagem que optou por reforçar a sensação de pânico da adolescente somente deixando os planos próximos para ela, sem desprivilegiar as opções da direção de mostrar a vulnerabilidade da menina e a impotência das figuras que poderiam ter a oportunidade de impedir a outra tentativa de suicídio.

 

terceira temporada de Sob pressão | Blog Próximo Capítulo

 

Esse é um dos exemplos da cuidadosa decupagem que é criteriosa e busca expor elementos da história sem diálogos óbvios e didáticos. Até porque, como é um produto para TV aberta, as personagens já passam muito tempo explicando detalhadamente doenças, casos, mensagens de representatividade ou algo do tipo, já há didatismo demais nessa parte. Portanto, os sentimentos, as urgências, a sensação do que se é vivido dentro do hospital é totalmente visual e sonoro. A união entre mise-em-scène e o passeio da câmera pelo hospital também carregam uma intenção da série tanto de mostrar a correria sem fim de um pronto socorro do SUS, mas, a direção também se aproveita disso para nos localizar geograficamente. Da primeira para a segunda temporada, quem acompanha de fato o seriado, já conhece onde ficam as salas de cirurgia, a enfermaria, a porta onde Evandro risca cada paciente que perde.

Os cenários têm histórias e narrativamente o espaço onde as personagens estão são usados para recorrer em temas ou sabe-se que os diálogos mais difíceis com os familiares são perto da escada, próxima a sala de cirurgia. E isso é possível graças aos planos longos onde os atores perfeitamente marcados, conseguem dar um realismo ao que acontece em cena. Já na terceira temporada, no décimo episódio, já quando as personagens estão em outro hospital, o São Tomé, vemos um exemplo de plano sequência orquestrado com maestria. A situação é: a milícia e a policia estão em confronto. O chefe miliciano invade o hospital e obriga Carolina e Evandro a salvarem sua vida. Dividido em três planos sequência (reforçando: com apenas três cortes em mais de uma hora), passeamos energicamente pelo São Tomé desde a primeira cena. A cadência é controlada, no sentido que a temperatura vai crescendo com paciência. Começamos no clássico caminhar da câmera que mostra o que está acontecendo com cada núcleo, todas as tramas que serão desenvolvidas são exibidas.

A câmera começa sem pressa, calma, com planos mais abertos que situam onde está quem, fazendo o que. O hospital está tendo um multirão e muitos pacientes estão presentes.  Entre os match cuts** entre um médico e outro, todo o cenário é “plantado”, a organização espacial é clara. E esse princípio serve, não só para essa consciência de espaço, mas também para nos lembrar e reforçar como estão bem os protagonistas, no auge do casamento, com Carolina esperando um filho. A câmera que estava movimentando-se, não mais anda, ela para, se movendo para vermos com bastante clareza as expressões dos dois. Em seguida, após ambientar, o plano sequência é utilizado para reforça a atmosfera de instabilidade. A chegada do miliciano traz uma urgência e uma pressa na movimentação da câmera. É destacável como há essa mudança. O olhar de um espectador já habituado à série vê dois médicos levando um paciente numa maca. O plano é fluido, podendo nos deixar focados nessa ação. Quando vemos Carolina, ela está para falar com Evandro, que entra na sala de cirurgia, no meio do movimento ela é parada pelo bandido. A fluidez é cortada, a rotina do hospital mudou e agora o ritmo será ainda mais frenético.

 

Sob Pressão | Evandro e Carolina atendem professora agredida por ...

 

Ela quase corre e, ao mesmo tempo, reflete o olhar de Carolina que se preocupa em ser vista. Por isso, ao mesmo tempo que é veloz, o plano mostra que está ao seu redor, horas acompanhando a visão da médica, horas mostrando as ações ao seu fundo. O auge desse momento é quando Carolina entra no elevador e quando ele está prestes a subir, Evandro pede para esperar, mas, termina vendo Carolina indo com o miliciano. A organicidade em que o plano vai do elevador para o rosto do protagonista para a sua subida das escadas reflete o bom posicionamento dos atores e a relação dos mesmos com a câmera, além do reconhecimento do espaço e o possível planejamento e perfeccionismo que um plano sequência bem executado exige.

Os dois episódios citados são somente exemplos primeiros que surgem na mente quando penso na série. Essa que vos escreve percebeu que , talvez, seja uma obra que mereça uma análise de temporadas onde se possa destrinchar mais cada episódio, afinal, há sim uma riqueza narrativa, uma habilidade em saber quais os temas merecem uma visão mais distanciada e uma direção mais contidas e quais os temas jogam a adrenalina do espectador para cima. A união dos episódios formam temporadas concisas e coerentes e um arcabouço total que dá certa curiosidade conferir a Bíblia dessa produção, ver os storyboards e afins.  Termino esse texto lembrando que estamos em tempos de coronavírus e que a próxima temporada deve se passar nesse momento e os médicos do sus mais competentes do país vão ter que lidar com essa pandemia que nos deixa em quarentena. E, nessa quarentena, talvez, uma boa pedida seja maratonar as três temporadas de Sob Pressão, que, apesar de viciante, pede um coração de ferro para resistir a todas as loucuras que  Carolina e Evandro vivem. Até quando vão comprar um colchão…mas, isso já é outro papo.

 

Trailer:

 

 

*Decupagem: o termo se deriva da palavra francesa découpage (recortar), utilizado para traduzir a intenção de dar forma. No cinema, é quando o diretor, com ou sem o diretor de fotografia, divide cada cena em planos e escolhe como cada um deles se conectará com o outro. Ex.: plano aberto para close.

** Chama-se de Match Cut ou Raccord a transição entre um plano e outro, o corte na edição que há uma correspondência entre os dois, no movimento ou temática, criando um link entre ambos.

 

Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série: Dicas para a Quarentena

 

Os fãs do gênero de terror crescem a cada dia e, no meio de tantas possibilidades de canais de streaming, plataformas do ambiente digital e Youtubes da vida, às vezes fica difícil saber por onde começar. Pensando nisto, a coluna Terror em Série elenca agora algumas dicas de seriados que podem dar uma animada, ou melhor aterrorizada em tempos de Coronavírus.

A seleção conta com cinco produções vinculadas nos últimos 7 anos. Com estilos diversificados, as escolham podem agradar distintos gostos e tipos de viciados no gênero. Há quem goste de todos, não é mesmo? Então, corre para ver as sugestões agora e descubra se seu seriado favorito aparece!

 

LISTA

 

O Mundo Sombrio de Sabrina | Saiba quando a 4 temporada deve ser ...

 

O Mundo Sombrio de Sabrina (2018 – )

A readaptação das aventuras da bruxa Sabrina Spellman tem até então três temporadas e dosa bem entretenimento e pautas feministas, ainda que com uma olhar um tanto genérico e, muitas vezes, superficial. Numa progressão de qualidade, o seriado mantém seu fôlego e pode prender aqueles espectadores que não dispensam um bom conteúdo  voltado ao público adolescente. Buscando quebrar as amarras patriarcais, aqui representada como a própria figura do capeta clássico, Spellman tem conflitos morais e a clássica luta entre desejo e o bem maior de todos. Além da progressiva qualidade narrativa, a obra cresce também em qualidade de linguagem, apurando seu conceito visual, numa direção que se preocupa em trazer estímulos visual que podem se refletir no efeito mais clássico do terror: despertar medo e repulsa.

 

Disponível em: Netflix

 

The Twilight Zone de Jordan Peele vai chegar ao Amazon Prime Video

 

The Twilight Zone (2019 -)

A nova versão da série clássica dos anos 1960, agora produzida por Jordan Peele (Corra!), tem, de fato, uma irregularidade em sua qualidade. Mas, o que vale nessa obra antológica é o apuro estético ligado a temas caros ao nosso tempo. Episódios como Replay, Wunderkind e Not All Men trazem de maneira ácida os absurdos das injustiças sociais, exaltando que o cotidiano é diversas vezes tão inacreditável que se encaixa perfeitamente com o universo fantástico do seriado. Um outro destaque é a narração de Peele, sua figura transcende a tela e cria uma conexão de cumplicidade verdadeira entre ele e o espectador, ao mesmo tempo que pode nos deixar desconfortáveis em nossas próprias certezas.

Disponível em: Amazon Prime Video

 

O Escolhido, nova série da Netflix, impressiona com visual e ...

 

O Escolhido (2019 -)

Dentre as séries mais acessíveis e brasileiras de terror, decidi dar uma dica que é mais uma aposta do que qualquer coisa. O Escolhido tem certo desequilíbrio em sua qualidade. Os seus diálogos são, muitas vezes, sofríveis e a aparente falta de preocupação com a direção de atores mostra a descrença dos mesmos em relação aos textos monocórdicos e quase robóticos. Principalmente na primeira temporada, têm momentos difíceis de aturar, a verossimilhança interna é quebrada diversas vezes em prol de surpresas na trama que traem o espectador de maneira constante. Mas, então qual a razão de ela estar nessa lista? O trunfo reside nos seus ganchos. A cada episódio, o roteiro prende o público de certa forma e deixa perguntas que precisam ser resolvidas, o estranhamento dos protagonistas termina sendo o nosso estranhamento e quando eles dão uma resposta, trazem muitas outras perguntas.  O enredo é intrigante e, à medida que os acontecimentos vão se desenvolvendo, a complexidade e a construção das personagens  vão se tornando mais bem realizadas. Um outro fator é o não maniqueísmo de sua protagonista que, além de carismática, tem características realistas e despertam a empatia de quem assiste.

Onde assistir: Netflix

 

Bates Motel não tem a licença renovada e sai da Netflix em fevereiro

 

Bates Motel (2013 – 2017)

A história de Norman Bates, proveniente do filme Psicose, de Alfred Hitchcock , aparece aqui mostrada sob um outro olhar. O então adolescente e sua mãe, ainda viva, mudam-se após a morte do esposo da progenitora do protagonista. Durante cinco temporadas, que conseguem manter de certa forma sua qualidade, vemos o desenvolvimento e o nascimento do psicopata e assassino de Marion Crane. A interpretação de Freddie Highmore (The Good Doctor), no papel de Norman e de Vera Farmiga (Olhos que Condenam), como Norman, se sustenta durante toda a série, jamais destoando da narrativa e, de certa maneira, auxiliam quando a trama começa a dar uma caída e o enredo se enche de fillers lá para o meio da terceira temporada. Seus dois primeiros anos e seu desfecho são o auge de Bates Motel e quando tudo se finda há a sensação de catarse e de até certa reparação na história onde só havia punição para as mulheres! Um destaque é a participação de Rihanna  (Oito Mulheres e um Segredo) como a Crane!

Onde assistir: Prime Video e Claro Video 

 

BUFFY: A caça-vampiros e o que a ... - Aparato do Entretenimento

Buffy – A Caça Vampiros (1997-2003)

Em todos os top 5 ou listas de seriados de terror não pode faltar o seriado que lançou uma das primeiras tramas girl powers da televisão estadunidense. Sarah Michelle Gellar vive a a típica cheerleader. Geralmente, esta é a típica personagem a morrer morrer primeiro em um filme de horror. Com o que a sociedade impôs como rosto angelical, juntamente com uma aptidão reduzida para os assuntos escolares, ela seria a típica personagem dispensável para a maioria das obras criadas, principalmente, pelos homens durante anos e mais anos. E é justamente por isso que Joss Whedon criou o seriado onde esta garota, rodeada por estereótipos, era, na verdade, a maior caçadora de vampiros na Terra. Grande parte dos vilões que a mocinha combate são homens e a cada temporada ela quebra estigmas, destrói representações patriarcais e mostra que é muito mais que uma menina boba numa cidade pequena. Não darei spoilers, mas, o fim da série mostra bem seu crescimento como mulher e da sua não necessidade de um homem para completar sua história. Sempre atual, divertida e repleta de vilões criativos e diferente, há muito pouco de repetição em sua narrativa e seus cliffhangers sempre são muito especiais, instigantes, como devem ser.

Onde assistir: NetNow

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série: O Escolhido – Homem de Fé, Mulher com a Razão

O cinema brasileiro de terror vem crescendo cada vez mais e nomes como Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Juliana Rojas, trazem uma diversidade e características próprias a esses filmes. Produtos de gênero têm cada vez mais espaço e há um crescimento de produção e distribuição.

O público nacional é um dos públicos que mais consome terror no mundo. Mas, ainda existe certo preconceito de muitos espectadores para assistir produtos que lidam com o fantástico e O escolhido traz características que podem ajudar a reforçar essa crença de falta de qualidade nos filmes e séries de gênero brasileiros.

 

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A nova série da Netflix traz uma premissa interessante: médicos tentam extinguir o vírus zika do Pantanal, porém, no caminho, acabam achando uma estranha cidade onde ninguém fica doente, ninguém morre. Parece um bom argumento para ser vendido num pitching, por exemplo. Uma história que quando alguém conta tem sim certo impacto. Narrativamente, fora essa boa ideia, pouco caminha positivamente.

A questão principal de O escolhido são os diálogos. Textos engessados, ditos de maneira robótica, dificilmente conseguirão criar uma conexão com o espectador. Cenas inteiras para explicar acontecimentos, como funciona a cura feita pelo Escolhido. A maneira como a progressão dos fatos acontecem são dispensáveis, isso porque muito do mistério é desnecessário já que de pronto se entende o que está acontecendo na história. O fruto dessa tentativa de criar certo suspense são momentos em que o roteiro busca confundir o espectador, colocar obstáculos para ele demorar de chegar em alguma conclusão.

 

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Então, a série termina sendo um amontoado de explicações que são sempre revogadas ou colocadas em dúvida, mais atuações que despertam pouca crença na mitologia da série. Além disso, as personagens são mal desenvolvidas, o arco dramático de cada uma delas não consegue nem provocar empatia do espectador, nem deixar claro como as mesmas pensam e/ou se sentem em relação aos acontecimentos. Os habitantes da cidade dizem somente coisas clichês, frases de efeito. Os médicos, um pouco mais elaborados, tomam atitudes que movem pouco a trama para frente e são bastante previsíveis. Já o escolhido, é o rei das frases de efeito e diz suas falas de maneira empolada, cheio de gestos, mas, não imprime nuances em sua interpretação.

O seriado é bem filmado e tem seus bons momentos visuais. A escolha de enquadramentos consegue traduzir bem o olhar da protagonista, Dra. Lúcia, e a câmera escolhe bem o que mostrar durante as cenas onde o espectador entende aquele universo da mesma maneira que a médica. Talvez se a série focasse menos em diálogos e mostrasse mais momentos de percepção do fanatismo sem muitas explicações, deixando espaço para o público elucubrar, teríamos uma obra de mais qualidade. O fim da temporada deixa um cliffhanger interessante, se houver mais episódios a expectativa é de uma melhora, até porque há verdadeiro potencial para se explorar.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

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