Categoria: Enoe Lopes Pontes

Crítica: Entre altos e baixos, “Forever” entrega uma temporada coesa

Caminhando para uma jornada totalmente oposta a do herói, a protagonista de Forever, June (Maya Rudolph), começa extremamente infeliz dentro da história e anda em direção da sua felicidade, posteriormente. Mais do que isso, ela parece demonstrar estar paralisada diante de todo o fracasso que foi e tem sido sua vida. Ela atribui estas sensações e derrotas ao seu casamento com Oscar (Fred Armisen). Toda esta estrutura é posta no piloto da série, que já ambienta ali, de forma bastante eficaz e direta, o cotidiano do casal.

Criado por Matt Hubbard (The Stones) e Alan Yang (Master of None) e produzida pela Prime Video,  o seriado consegue imprimir estilisticamente as sensações vividas pelas personagens. Através de cores predominantemente amarronzadas e pastéis e de planos fixos de situações repetidas há uma atmosfera de tédio estabelecida. Contudo, isto não é um elemento que afeta a dinâmica da obra e a deixa enfadonha. O fator central disto é a quantidade de plot twists existentes, principalmente nos três primeiros episódios.

Durante este período da trama os sustos e surpresas são tão fortes que o espectador pode passar a temporada inteira tenso, esperando a próxima reviravolta. Nesta mescla de suspensão ão e melancolia, a progressão de June é posta. A cada momento ela vai se descobrindo e compreendo suas próprias necessidades. A maneira como foi escrita é o principal ponto de qualidade. Existe uma complexidade nela, desde a sua maneira de expressar seus pensamentos até as ações que performa. No entanto, a atuação de Rudolph acrescenta mais camadas para June.

 

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Através de seu processo de criação, ela entregou uma figura extremamente transparente em suas emoções, porém com movimentos muito pequenos, seja no rosto ou no corpo inteiro. O tom da sua voz, geralmente, não casa com o que ela está dizendo e demonstrando nas suas expressões. Este comportamento vai, gradativamente, mudando e a intérprete vai revelando outros tipos de movimentos e deixando que exista uma unidade entre o que June quer dizer e diz.

Apesar de possuir bons atores e conseguir criar esta vontade de maratonar, por apresentar um clima de possíveis novas ocorrências o tempo inteiro, Forever tem dois problemas que incomodam intensamente. O primeiro é a existência do 1×06, momento da produção que parece mais um filler do que qualquer outra coisa. Ele pouco traz para o enredo em si e está ali muito mais para reforçar algo que já foi compreendido bem antes na projeção: a questão de aproveitar as chances que o destino oferece antes que seja tarde. O que acaba sendo um tanto repetitivo. Ainda há o fator de duas novas figuras serem introduzidas (Andre e Sarah), para logo depois serem descartadas.

Outra questão que deixa a desejar é a construção da relação de June e Kase (Catherine Keener). Ao mesmo tempo que as duas parecem namoradas, após o distanciamento de June e Oscar, o relacionamento da dupla tem uma crescente que é interrompida por uma suposta dúvida de June que, na verdade, soa como uma confusão dos próprios roteiristas. Eles colocam elas dentro de piadas sobre lésbicas, por exemplo, o que faz se pensar até onde aquilo é posto no texto apenas para ser um mero conflito e ganchos para pinceladas cômicas.

Ainda assim, no geral, Forever entrega um resultado equilibrado, quase mediano, porém um pouquinho acima da média. Isto se deve à dinâmica de Rudolph com Armisen, que jogam através dos diálogos, fazendo com que as cenas sejam mais instigantes, por conseguirem deixar o tom cotidiano e distanciado ao mesmo tempo. A expectativa do próximo plot twist também segura quem assiste a continuar interessado na narrativa.

 

Crítica: Novo thriller adolescente da Netflix imprime qualidade técnica e discurso afiado

Nesta semana, a Netflix lançou uma nova série brasileira. Boba a Boca é um thriller adolescente, criado por Esmir Filho (Saliva). A direção da maioria dos episódios também é sua. Ele divide o posto com a cineasta Juliana Rojas (As Boas Maneiras), que comanda o 1×05 e o 1×06. Em seu resultado geral, a produção entrega um equilíbrio significativo de qualidade, com bons atores, diálogos e discurso. No entanto, é possível, ainda, destacar o seu ápice em sua mise-en-scène e em sua decupagem, sendo elas os elementos que mais se sobressaem.

Desde os primeiros minutos do seriado é possível enxergar a sua estilística e que ela está ali para fomentar o que se deseja contar. O azul e o rosa, por exemplo, são predominantes durante toda a exibição. Isto cria uma espécie de dicotomia, que revela não apenas as dualidades e complexidades das personagens dentro da narrativa, mas também dos papéis impostos pela sociedade. Os enquadramentos e cortes também elevam a potência da história desenvolvida na tela. Os quadros diversificados em uma mesma sequência desnudam as personagens, como quando mesclam planos detalhes com os mais abertos, aumentando esta característica e também o nível de tensão nas relação ali mostradas.

 

Boca a Boca" é a série brasileira da Netflix que traumatiza quem ...

 

Apesar de já se iniciar intensa e com uma dinâmica de simulação de velocidade, a obra consegue criar uma espécie de progressão dentro de sua própria lógica. Em alguns momentos, seja pelos acontecimentos ou como a equipe técnica escolhe fazê-los, o ritmo cai, pois tudo parece frenético, sem respiros. Contudo, isto não compromete o seu resultado total, principalmente porque isto se justifica, em partes, pelos próprios rumos do enredo e daqueles indivíduos que estão inseridos na trama.

Por fim, vale destacar a presença de atores de peso no elenco como Grace Passô (Temporada), Thomas Aquino (Bacurau) e Denise Fraga (De Onde eu Te Vejo). Todos os três intérpretes trazem um trabalho afinado, com criações muito certeiras. Ainda que apareçam em momentos pontuais, a cena cresce diante da presença deles. Entre o trio, o ponto alto é a performance de Fraga. Criando uma Guiomar Araújo que passa ações muito calculadas, através de muito tônus, consciência corporal e espacial, ela vai imprimindo lentamente as fragilidades daquela figura que parece imponente e autoritária no início, mas que vai revelando fragilidades e até retirando certas tensões físicas para aumentar essa multiplicidade na personalidade de Guiomar.

 

Crítica: Indecisa e preguiçosa, nova temporada de Dark finaliza mal uma obra promissora

ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS!

Parece ser uma missão sempre um tanto complicada procurar falar sobre as produções da Netflix que começam promissoras ou até mesmo com certo grau de primor, mas que vão se perdendo e se enrolando em sua própria teia. Este é o caso da série Dark, que chegou ao fim, neste final de semana, com o lançamento de sua terceira temporada. Mais do que com uma ideia boa, pois os dois primeiros anos do seriado são bem elaborados, os elementos técnicos possuíam certo refinamento. Este fator fazia não apenas o interesse para os caminhos da trama ser fomentado a todo momento, como a sua estética acariciava os olhos, seja em sua iluminação que dialogava com o enredo e a personalidade das personagens ou os seus cortes e movimentos de câmera que intensificavam as emoções dos conflitos da história, por exemplo.

Nada disto parece se sustentar agora. Diferentemente do que foi visto em 2019 – e você pode ler a crítica aqui -, há um abismo criativo e uma perda do controle dos roteiristas do próprio universo que eles criaram. Acrescentando uma divisão de dois mundos, o espectador se depara com uma realidade na qual Martha Nielsen (Lisa Vicari) é a protagonista, pareada com a que o público já conhece, na qual Jonas Kahnwald (Louis Hofmann) é o responsável pelos nós e desenlaces dos acontecimentos. É ai que o problema começa. Durante os seis episódios iniciais, a equipe de roteiristas – são vários, que mal se repetem – esgarçam as situações até que elas percam sentido dentro da obra. Em um ciclo sem fim, se acompanha as repetições causadas por Martha e Jonas, enquanto os outros conflitos vão sendo apagados, deixados de lado e, muitas vezes, com a morte sendo usada para causar algum tipo de desfecho.

 

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Por tentar criar emoções onde não existe, pois há uma necessidade de trabalhar e sustentar o que foi previamente elaborado para que o que está sendo mostrado crie qualquer tipo de suspensão, o ritmo se perde. Assim, as tensões são quebradas pela certeza de que, não importa o que aconteça, já se é sabido que algum Jonas ou alguma Martha vai apagar o que foi feito para tentar manter ou destruir o acidente que dá início a tudo. No entanto, o mais tenso, por assim dizer, é quando a solução é revelada e descobre-se a origem de todos os equívocos. Quando a grande revelação é feita é como se toda a construção criada no passado pela equipe fosse simplesmente abandonada. Desta maneira, pouco importa a relação de Charlotte Doppler (Karoline Eichhorn) e sua mãe/filha Elisabeth Doppler (Carlotta von Falkenhayn), por exemplo. Porque, como é apontado por Claudia Tiedman (Lisa Kreuzer), nada daquilo é real. A sensação que resta é a de que tudo é uma brincadeira de criança. Sabe quando alguém grita um “não valeu”? Então! Em Dark, acionam esta “estratégia” e os multiversos são, na verdade, somente uma divisão de um terceiro plano, anulando qualquer tipo de acontecimento com as personagens resultantes deste “bug”, porque elas são uma espécie de falha.

Porém, é importante salientar que no momento de trazer o desfecho para a série, o controle da escrita parece retornar. Ainda que as respostas praticamente anulem dois anos de construção e deixem jogadas de lado figuras que pareciam chave para tal fato, a composição da tensão e a sua amarração fazem com que o seriado volte a sua melhor forma. Os recursos de movimentação de câmera, as idas e vindas temporais e espaciais, os enquadramentos que deixam o clima de dúvida e medo, todos voltam para colocar a narrativa nos trilhos outra vez. Isto porque o jogo de gato e rato entre Jonas e Martha cessa e o encerramento vai tomando forma, sem tentar enganar o espectador para ter mais algumas horas de projeção. Além disto, há a maneira como eles criam as distinções entre as duas realidades através das cores, temperaturas e planos, um ponto alto aqui. Assim como já faziam para demarcar as temporalidades, os locais são exibidos de maneira clara, principalmente por algumas dualidades, como o futuro sombrio e úmido no plano Jonas e o quente e iluminado de Martha.

 

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No final das contas, Dark criou um mundo ficcional com muitas particularidades, cuidado e minúcia em seus dois primeiros anos, mas não soube sustentar isto. Apesar de possuir personagens complexas, com camadas de profundidades, que mereciam ser exploradas, os autores preferiram dar espaço para a cruzada de um ship flodado, desde o seu início, invocando, para tal, situações desconexas que negam as próprias regras pré-estabelecidas, desfazendo os pactos com quem a acompanha. Entre assassinatos, nascimentos e pessoas ressuscitando para simplificar a vida dos roteiristas, a terceira temporada da obra se torna simplória, medrosa e entediante, justamente porque não deixam a história avançar. É como se existisse uma pausa e um pulo para o final, com resoluções fáceis demais para o que antes havia sido oferecido.

 

Crítica: Indecisão de rumo narrativo marca segunda temporada de Coisa Mais Linda

É sempre muito árduo começar uma crítica sobre uma produção como Coisa Mais Linda. Isto porque existe todo um universo criativo esforçado, que procura imprimir certa qualidade técnica. Além do mais, é possível perceber uma pequena vontade em se redimir dos erros da temporada anterior, em relação ao que tange questões voltadas para as minorias sociais, principalmente sobre o racismo e a cegueira do feminismo branco que sufoca o ano 01 da série. No entanto, toda essa procura qualitativa oferta um resultado confuso, cheio de remendos, sem paciência e que caem, mais uma vez, no apagamento das premissas das personagens negras.

Mas, se a obra parece demonstrar ser bem intencionada, nada mais justo que começar por seu melhor núcleo: Adélia Araújo (Pathy Dejesus) e sua família. O primeiro elemento fundamental de qualidade aqui é o fato destas serem as únicas figuras da narrativa que apresentam certa complexidade, deixando a planificação para os outros. A começar pela própria Adélia que consegue mesclar diversos tons em um mesmo episódio ou até cena. Em segundos, ela fica gigante e se defende de todo qualquer perigo e injúria. Além disso, sua intérprete fomenta as camadas dela, revelando estar sempre atenta, colocando seu corpo em prontidão, ainda que esteja em uma contracena ou não seja o foco da sequência. O mesmo pode ser dito de Sarah Vitória, intérprete mirim, que faz a Conceição. A menina apresenta um cuidado, um carisma e uma consciência cênica que impressionam. Vitória parece entender o conceito básico da atuação com profundidade: o de jogar com o colega. Assim, ela não perde um olhar, nem uma oportunidade de acrescentar um detalhe que fazem as relações da garota com os pais e amigos crescerem.

 

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Para completar esta parte do elenco, a trama tem Capitão (Ícaro Silva) e Ivone Araújo (Larissa Nunes). O primeiro faz um trabalho primoroso, porque consegue escapar de diversos clichês que o texto traz, como o do marido ciumento, acomodado e músico festeiro. Silva pega isto e ressignifica, colocando um tom de preocupação, com suavidade, trabalhando com os olhares não vacilantes para a câmera. Já Nunes é ainda mais impactante de assistir! A moça é o destaque desta temporada. Com uma presença e um canto que emocionam, ainda que os autores não saibam o rumo preciso que darão para ela, há em sua construção uma dinamicidade e leveza que dão conta do que a escrita não consegue. Existe o tom jovial e agitado, combinado ao sofrimento de uma vida inteira de racismo e luta. Ela é engraçada, firme e uma das poucas que sabe desfazer a artificialidade impregnada em Coisa Mais Linda. Entre os parentes de Adélia, ainda existe Eliana Pittman, como a Elza e Val Perré, fazendo o Duque. Excelentes atores que poderiam ser muita mais bem aproveitados.

Mas, então, qual seriam os problemas? O primeiro reside nesta artificialidade e o segundo numa espécie de desespero que faz tudo que poderia ser bem realizado ir por água abaixo. A trama parte um pouco depois do cliffhanger da primeira temporada. Contudo, em poucos minutos o conflito se desfaz e outro problema é posto em prática. Assim, as situações passam a se estabelecer. Aos poucos, parece que, ainda que com alguns incômodos, haverá uma crescente de qualidade e as histórias serão exploradas. Mas, não é isto que acontece. Plots são arremessados na tela o tempo inteiro, para serem resolvidos pouquíssimo tempo depois. Nesta onda descontrolada e sem paciência de desenvolvimento narrativo, novamente todo foco vai para Maria Luiza (Maria Casadevall), porém não para a questão mais tensa, que poderia ser uma força e um crescimento dela, mas para seus ímpetos de White Savior e seus casos amorosos mornos.

 

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Com a quantidade de momentos em que ela está com conversas com Chico (Leandro Lima) e Roberto (Gustavo Machado) era possível dar atenção para os enredos de Adélia e Ivone e decidir qual seria o problema central delas durante a temporada, sem fazer todo um nó para depois abandoná-los sem costura. Ou, talvez, os roteiristas poderiam escrever melhor sobre a personalidade e a bissexualidade de Thereza Soares (Mel Lisboa), que parece ter virado outra pessoa agora, um arquétipo de si mesma, cheia de clichês e frases nada orgânicas como “A gente pode pegar as minhas Vogues francesas e procurar um modelitos perfeitos para nossa viagem para Búzios”. Inclusive, é notável a luta de Lisboa para tentar manter seus diálogos críveis.

 

ALERTA DE SPOILER!!!!!!

 

Contudo, ainda existe o ponto alto desta decepção. Quando colocam a Adélia em um estágio de câncer terminal em um episódio, para, de repente, ela estar curada, porque os médicos que disseram que ela iria morrer em pouquíssimo tempo estavam enganados é chocante a preguiça de qualquer tipo de desenvolvimento. A partir daí, passa-se a se pensar que história a equipe deseja contar e por que essa ânsia em abandonar tudo a todo tempo. Estas situações repentinas são bastante recorrentes, principalmente com as personagens negras. O desconforto é ainda maior se o espectador presta atenção nos outros elementos do seriado, que deixam mais visíveis aos olhos a forma exagerada de sua parte criativa em tocar os rumos da obra. A fotografia e a arte são um destes reforços. Principalmente em seu início, a sensação é que há uma vontade extra normal de criar significados, com uma quantidade intensa de cores repetidas, em tons fortes. Lá pela terceira cena do primeiro episódio, o público já entendeu que o amarelo e o laranja vão ser usados com o azul para contrastar com as emoções das personagens: melancolia e euforia. A morte de Lígia e a vontade de se reerguer. Assim, as tonalidades chegam estouradas e repetitivas.

No final das contas, a série reserva algumas discussões relevantes, ainda que se perca em na amarração do próprio conteúdo que traz. Resta esperar por um terceiro ano menos branco hétero cis centrado e que aprofunde as relações e conflitos, ao invés de sufocar quem assiste de situações mal resolvidas, a partir de uma vontade de tirar o fôlego, pois o efeito é reverso.

 

Especial Ryan Murphy: Pontos Altos e Baixos

 

Por Enoe Lopes Pontes

 

Neste mês, a nova produção de Ryan Murphy chega ao catálogo da Netflix. Intitulada Hollywood, a série mostra  um grupo de artistas que deseja ingressar na carreira cinematográfica, no final dos anos 1940. Para realizar tal intento, eles não medem esforços e nem têm limites. Procurando evocar um tom nostálgico da Era de Ouro hollywoodiana, Murphy se vale de personagens típicas de seu leque criativo. Marcam a trama deste seu novo projeto homens e mulheres egoístas, sem escrúpulos e corruptíveis, assim como em todos os outros.

Apesar desta constante repetição criativa, as escolhas de Ryan parecem surtir efeito e o mesmo coleciona sucessos. Obviamente, o realizador consegue emplacar diversos materiais de qualidade e que agradam ao público em menor ou maior medida. Isto há mais de dez anos! Com uma lista extensa de narrativas serializadas bem sucedidas, ele é um showrunner e produtor que parece uma máquina de criação! Títulos como Glee, American Horror Story, American Crime Story, Feud, Pose e The Politician. Pensando nisso, o Série a Sério selecionou os melhores e piores títulos da carreira de Ryan Murphy. Confira!

 

PONTOS ALTOS

 

American Horror Story: Asylum (2012) – Com uma estrutura antológica, a cada ano, American Horror Story traz novos enredos, personagens e temas.  Em uma temporada mais regular, dentro deste sistema unitário criado por Ryan Murphy, Asylum conta com uma progressão dramática aparentemente bem planejada. As características das personagens permanecem firmes. Ainda que exista uma transformação nelas, a partir dos dramas e vivências pesadas que experienciam, cria-se uma conexão com elas e novas camadas são sempre reveladas. A regularidade da trama se completa através das boas escolhas da direção, por exemplo, através da boa utilização de movimentos de câmera e angulações, é possível fomentar as sensações que o texto deseja passar. A instalação do medo do sobrenatural, mesclada com o terror causado pelas figuras humanas completam o tom desta temporada, que é a mais segura dentro da trajetória da produção.

 

 

Pose (2018-) – Conseguido equilibrar a trama e trazendo menos instabilidade, estancando um pouco de sua misoginia e explorando de forma mais honesta a representatividade, Pose entrega um resultado consistente. Talvez, por estar ao lado não apenas de seu colega de criação em American Horror Story, o Brad Falchuk (Nip/tuck), mas por também contar com Steven Canals (Dead of Summer), ele tenha conseguido canalizar a sua criatividade e não se perder no meio de suas criações. As personagens possuem uma certa sofisticação na construção, possuindo não apenas as múltiplas camadas que as séries de Murphy apresentam, mas as mantendo assim em seus dois anos de exibição.

 

 

PONTOS BAIXOS

 

American Horror Story: Hotel (2015) – Com a saída de Jessica Lange (Feud) do elenco da série, criou-se uma expectativa na base de fãs do seriado de que Ryan Murphy fosse suprir essa falta com uma história potente e empolgante. Como de costume, o roteirista trouxe um plot forte, no qual explorava uma história baseada em fatos reais, bastante sombria, a do Hotel Cortez. Para completar, o autor escreveu uma personagem intensa para a Lady Gaga interpretar. O primeiro episódio é minucioso e revela figuras aparentemente sombrio, com mistérios que podem despertar a curiosidade do público. No entanto, tudo que vem depois é repetitivo, inconstante e sem rumo, até para Murphy. Em todo momento, a narrativa parece enganar o espectador, não se sabe ao certo quem é o vilão ali. Tranquilamente, isto poderia ser um elemento positivo. Contudo, a sensação que fica é de uma dúvida dos próprios roteiristas, que buscam chocar e criar reviravoltas exageradamente.

 

The Politician (2019) – Indo por um caminho oposto ao de Pose, aqui tem-se um exemplo perfeito da junção de todos os incômodos do universo Murphy, reunidos em uma só obra. Perdido em sua própria premissa, o roteiro se esgota muito antes de sua finale. As personagens são sombras de estereótipos, não conseguindo ao menos sustentar a proposta exagerada que o início da série parece desejar retratar. Apesar de conter diversidade dentro do elenco e no enredo, o foco está sempre voltado para o rapaz branco, que se agarra ao padrão heteronormativo em qualquer sinal de pânico. O encaminhamento da trama também é frouxo. Nas idas e vindas das confusões do protagonista, a história não consegue focar em um conflito principal, muito menos explorar todas as subtramas que vão sendo jogadas episódio a episódio.

Crítica Coringa

por Enoe Lopes Pontes

Luzes, cores, temperaturas, sons. Coringa é um filme que traz uma estética que demonstra o desejo de se fazer notar. Seja na direção de Todd Phillips (Se beber, não case), na fotografia de Lawrence Sher (Hora de Voltar), na interpretação do próprio Joaquin Phoenix (Gladiador) ou qualquer outro elemento,o longa parece não querer passar despercebido. Todos os detalhes são intensos. São evidenciados. No geral, o resultado disto é positivo.

A produção traça o perfil de uma personagem insana, trazendo um retrato que foge de algo caricato. A questão da sanidade mental do protagonista é não o distanciada da humanidade e ele está inserido na sociedade. Ainda assim, o roteiro lembra ao público constantemente que o Arthur Fleck (Phoenix) não se encaixa no padrão de regras de comportamentos impostos por todos. Um ponto de partida para falar sobre esta característica pode ser corpo do intérprete, que narra para o espectador um pouco da trajetória daquela figura.

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Raquítico, curvado, cabelo ensebado, Fleck parece ter um desespero em se encaixar no mundo, em ser aceito e ter pessoas que o admiram. Ao mesmo tempo, ele se sente preso a esta necessidade e, quando passa por um momento de virada em seu caminho, nota que o que ele precisa é bem diferente do que imaginava. E aí, talvez, esteja o maior ganho da obra. A partir de certa parte do enredo, o tão conhecido vilão das HQs, aqui, começa a ser visto como uma espécie de herói.

Ao trazer os conflitos sociais de Gotham e novas perspectivas de que são os algozes – sob o olhar um tanto mais desconstruído do século XXI – o texto de Phillips e Scott Silver (O Vencedor) consegue propor uma visão menos maniqueísta sobre as situações e desmascarar a vilania humana que habita em todas as personagens e, claro, em todos os seres humanos. E um dos elementos chaves, além da escrita e direção, que causam efeitos e sensações de reflexão e ligação daquele contexto com a realidade é a trilha sonora de Hildur Guðnadóttir (A Chegada). Ela dialoga diretamente com a figura principal da história e a sua constante sensação de estar sendo machucado pelo mundo constantemente e de várias formas.

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Outros pontos elementares da qualidade do filme são as atuações. Duas delas são as mais destacáveis. A de Joaquin Phoenix é mais óbvia. O ator, além de suas modificações na aparência físicas, criou um corpo, uma voz e um olhar diferente. Ele transmite acolhimento e terror em uma única expressão. A tensão é também criada por esse ser que aparenta estar sempre em prontidão para agir, podendo dar um um sorriso, uma ajuda ou cometer um assassinato. Esse limiar do Coringa é alcançado. É impossível saber o que ele fará em seguida.

Outro trabalho que chama atenção é o de Robert De Niro (Murray Franklin) que incorpora um apresentador de programa de TV. A construção do ator deixa sempre um mistério nos próximos passos de Murray. Ele é a própria figura idealizada na mente do protagonista, por isso não dá para saber durante a projeção quem é aquele homem de fato e De Niro faz isso nas intenções textuais e gestuais, mudando a cadência em cada sequência que aparece.

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Apesar de toda qualidade do longa, ele peca por certa falta de progressão dramática, que, talvez, se equilibrasse com um algum respiro ou um início com menos vontade de oferecer de vez todos os recursos técnicos que a equipe era capaz de trazer. No final, a experiência não é comprometida, mas, lá no fundo, fica um cansaço de ter visto tanta câmera lente e luz hiper estilizada desde os primeiros segundos de exibição.

https://www.youtube.com/watch?v=ntSvI2qaRxU

Especial – Melhores participantes do Masterchef Brasil

por Enoe Lopes Pontes

 

Neste domingo, 25, acontece a final da sexta temporada do Masterchef Brasil para cozinheiros amadores. Os participantes que integram a noite de disputa são Lorena e Rodrigo. Apresentado pela jornalista Ana Paula Padrão, quem decide o resultado são três chefes de cozinha, considerados pelo público e pela crítica, renomados, são eles: Paola Carosella, Henrique Fogaça e Érick Jacquin. O episódio será exibido às 20h, no canal Band.

 

Pensando na popularidade do reality, o Série a Sério preparou uma lista com o melhores integrsntes de todos os tempos, das últimas seis edições do seriado. A decisão foi muito difícil, mas no final, acabamos tendo que fazer algumas escolhas tensas! Confira!

 

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10 – Jiang Pu – Participante da segunda temporada do programa, Jiang conquistou o público com seu jeito doce e as suas referências asiáticas. Concentrada dentro da cozinha, Pu ficou no terceiro lugar do pódio da competição e provocou lágrimas no Twitter em sua saída. Atualmente, ela continua na profissão e possui um restaurante, em São Paulo.

 

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9 – Estefano Zaquini – Com um foco maior para a confeitaria, mas buscando ir bem em todos os tipos de pratos, Estefano foi integrante do primeiro Masterchef Brasil. Após sair do programa, Zaquini estagiou no restaurante de Érick Jacquin, o Tarta&Co. Atualmente, o jovem está perto de se formar em gastronomia e tem um quadro no “Mulheres”, da TV Gazeta. O chefe está nesta lista por ter demonstrado garra, determinação e carisma durante o tempo em que esteve no Masterchef.

 

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8 – Eliane Ribeiro – Treta! É impossível esquecer as polêmicas e confusões que envolveram Eliane, na quinta temporada do Masterchef. Apesar de possuir alguns haters no caminho, Ribeiro sempre demonstrou uma vontade imensa de estar no reality e era leal aos que faziam parceria com ela. Apesar de não ter vencido a competição, chegou perto, ficando em terceiro lugar. Atualmente, a jovem chefe possui um canal no Youtube, chamado Lili e o Mundo.

 

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7 – Lorena Dayse – Finalista na competição da sexta temporada do Masterchef Brasil, Lorena chegou no programa com um discurso potente e coerente sobre a força do Norte e Nordeste e toda a sua vontade de vencer para representar a região! E o desejo ficava estampado em seus pratos, com temperos que faziam jus as suas origens, incluindo o seu amado coentro! Se a competidora irá vencer, somente o futuro dirá, porém sua popularidade já é considerável! Lorena acumula 128 mil seguidores no instagram e quase 10 mil no Twitter.

 

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6 – Haila Santuá – Também integrante da sexta edição do Masterchef Brasil amadores, Haila ficou com o quinto lugar da competição. Ela demonstrou que doçura combinada com determinação podem virar uma arma extremamente forte dentro de uma disputa. Sempre atenta aos colegas, ela conseguiu equilibrar, na maioria das vezes, um bom resultado, junto com um help para os concorrentes de reality. Quem lembra quando ela parou a torta de limão para ajudar Imaculada na fase de seleção inicial? Pois este foi seu jeito de lidar com o Mastechef, mesmo não aguentando a pressão de quando em quando. Santuá não venceu, mas acumulou um belo fandom e uma trajetória muito intensa para recordar e trilhar um caminho bacana. Quem sabe? Vamos acompanhar!

 

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5 – Helena Manosso – Integrante da primeira edição do Masterchef Brasil, Helena começou discreta e foi crescendo em cada episódio, chegando na final com um menu muito elogiado pelos chefes. Apesar de ter ficado em segundo lugar, Manosso se manteve na profissão. Ao lado de seu marido e colega de temporada, o Lúcio, ela comanda a Salt&Pepper, rede de consultoria gastronômica. Helena ocupa a quinta posição, por ter sido uma participante marcante, que brilhava nas provas do reality e que possuía muito carisma e simpatia.

 

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4 – Izabel Alvares – Vencedora da segunda edição do Masterchef Brasil, Izabel chegou no topo do pódio com muita humildade, doçura, foco e depois de assumir certa confiança em si mesma. Sendo eliminada no sexto episódio, ela retornou na repescagem e passou a demonstrar mais segurança e estudo. O resultado foi o troféu que ela tanto sonhava. Atualmente, Izabel possui a marca Magrela, rede de produtos alimentícios saudáveis.

 

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3 – Maria Antonia Russi – A terceira colocada da lista divide opiniões dentro do público do Masterchef. Adorada por uma parte dos espectadores e odiada por outra, ela ocupa esta posição em nosso top 10 por ter sido uma participante que venceu muitos desafios e, assim como Izabel, por ter conseguido dar a volta por cima e ter mais confiança em si mesma. Com um jeito um tanto atrapalhado, Maria era uma integrante engraçada e divertida e que foi demonstrando sua capacidade dentro da cozinha cada vez mais. Na final, ela surpreendeu os jurados montando um menu com bastante personalidade! O que fez com que Russi ganhasse a competição e enlouquecesse seu fandom. Atualmente, Maria Antonia possui um canal do no Youtube, que carrega o seu nome como título!

 

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2 – Cecília Padilha – Favorita de sua temporada, Cecília ficou em sexto lugar na primeira edição do Masterchef. No entanto, apesar desta zebra, ela vinha trilhando um caminho de acúmulo de vitórias e o mezanino era conhecido como o “Camarote da Cecília”. A sua popularidade com o público do programa foi intensa na época e reveberou para o sucesso de seus empreendimentos desde então. hoje em dia, ela escreve para o Prazeres da Mesa e a Revista do Gramado. Padilha também possui um canal, chamado Yes, we cook, que acumula mais de 5 mil seguidores.

 

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1 – Raquel Novais – Participante de uma temporada disputadíssima como foi a terceira edição do Masterchef, Raquel conseguia se destacar com feedbacks muito positivos, mas que jamais abalavam seu comportamento. Sempre humilde e de ouvidos atentos, Novais buscava uma relação amistosa com seus colegas de competição e tentava não entrar nas inúmeras tretas que aconteciam. O resultado foi o terceiro lugar no pódio, que poderia ter sido primeiro se não fosse um pequeno deslize na semifinal. Atualmente, Raquel tem um programa chamado Cozinha Amiga, na TV Gazeta.

Crítica: Violência e polêmica são tentativas da primeira temporada de The Boys

por Enoe Lopes Pontes

 

Adaptada da HQ homônima da Wildstorm*, The Boys chega no canal streaming Amazon Prime, com oito episódios. Num clima que mescla sátira e crítica ao espírito heroico tipicamente visto em produtos ficcionais e no imaginário estadunidense, a série possui um estilo claro e marcante desde o seu início. A utilização de temperaturas azuladas é o start para esta percepção da ambientação que já vem desde os quadrinhos e que é um pouco intensificada. A escolha pode criar no espectador a sensação de estar assistindo uma das adaptações da DC para o cinema, por exemplo. Existe algo lúgubre e taciturno no ar. Além disso, o tom remete a melancolia e a angústia retratadas na tela. Um exemplo disso é que a cor do super mais abalado emocionalmente é azul.

Neste universo, no qual o tempo inteiro os humanos acreditam que estão sendo salvos, quem tem poderes está constantemente perturbado e agindo de forma negativa, seja para sociedade ou para si mesmo. A lógica aqui é que os supostos protetores da Terra são os verdadeiros vilões. O ponto alto da qualidade do enredo é que, ainda que haja essa reversão de valores, não ocorre a planificação de suas personalidades. É possível notar as nuances em seus caracteres, a medida em que a trama avança.

 

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No entanto, apesar de uma premissa que chama atenção, The Boys é um tanto cansativa, porque possui uma história óbvia. Cena após cena, já é possível saber o que irá ocorrer, inclusive o final da temporada fica previsível em sua metade. A criação das tensões são perdidas pelas escolhas fáceis que Eric Kripke (Supernatural) e sua equipe de roteiristas fizeram. Mesmo partindo de uma outra perspectiva, a dos “supers” que não estão trabalhando para o planeta de verdade e sim são celebridades, todo o resto é semelhante a qualquer publicação com heróis, incluindo a figura do “mocinho”, Hughie (Jack Quai), sem poderes e injustiçado, buscando uma espécie de vingança.

Apesar deste fator, o como as situações acontecem é o que chama atenção. Existe certa coragem em possuir algumas sequências gráficas de violência e ação, que são o recheio principal deles. É este elemento que dá o tom certeiro do seriado: pinceladas de humor sombrio, desenvolvimento dramático** das personas retratadas e um leve dose de horror com a ação. A expectativa que falta no decorrer dos fatos é coberto pelo nervoso em saber como será o próximo cérebro esmagado, a morte seguinte ou algum tipo explosão.

 

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No geral, o resultado é aceitável e até equilibrado. O plot inicial se sustenta, ainda que seja seguido de caminhos previsíveis, o risco no “como” faz o tempo gasto valer. Um possível destaque é a atuação de Erin Moriaty (Jessica Jones), que construiu a jovem heroína com várias camadas, indo de expressões de ingenuidade até de crueldade e falta de empatia, ela consegue elevar os elementos da escrita e imprimir nos seus diálogos a sutileza e o peso necessários para sua Annie.

 

 

* Em seguida, as HQs passaram a ser publicadas pela Dynamite Entertainment.

** Drama mais no sentido mais próximo do trágico, de situações triste e não do significado atribuído pelas Artes Cênicas ao falar dos gêneros textuais (Épico, lírico e dramático).

Crítica: Terceira parte de La Casa de Papel é morna e um grande déjà vu

por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de um hiato de quase dois anos, chega ao catálogo da Netflix a terceira parte de La Casa de Papel. Logo no início, é possível notar como o valor de produção cresceu. A percepção pôde ser confirmada pelo criador da série, Álex Pina (Vis a Vis), afirmou, em entrevista para o G1, que não havia limites de gastos por episódio. Assim, o espectador pode encontrar uma roupagem mais sofisticada imageticamente. Mais ângulos, mais locações, efeitos, quantidade de atores, figurantes e equipe técnica envolvida na obra etc.

Nesta parte, é inegável afirmar o avanço do seriado, em comparação com sua temporada anterior. Nos oitos novos episódios, com a maior fatia dirigida por Jésus Colmar (Vis a Vis), a câmera revela um clima de mais tensão e ação, com explosões intensas, revolta de uma multidão e perseguição de carro, que inclui capturas áreas da imagem. No entanto, apesar deste crescimento técnico, La Casa de Papel continua pecando em alguns mesmos aspectos vistos em 2017 e em questões outras.

 

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Primeiramente, existe um incomodo que são as repetições narrativas em relação ao assalto anterior. Situações  semelhantes são postas, apenas com mudanças de local e detalhes. A personagem Palermo (Rodrigo de la Serna), por exemplo, entra como um substituto de Berlín (Pedro Alonso), sendo o machista asqueroso e com textos que poderiam ter sido facilmente ditos pela personagem de Alonso. Este é apenas um caso de tantos outros que ocorrem. As cenas de cantoria, as discussões, os conflitos entre as figuras centrais da trama, tudo remete ao roubo da Casa da Moeda.

A sensação é de que os produtores queriam repetir seu sucesso e criar momentos memoráveis o tempo inteiro e isto faz com que o ritmo não se equilibre. As cenas de ação e os plots twists acabam tendo seus impactos reduzidos pela certeza dos próximos acontecimentos mostrados na tela, já que o público viu as mesmas estratégias, os mesmos problemas e resoluções anteriormente. Mas, existe o ponto alto deste fator e não siga para os próximo parágrafos se ainda não assistiu a terceira parte do enredo.

 

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Em um dado momento, nota-se que o Professor (Álvaro Morte) finalmente tem um ponto fraco e que ele é a sua namorada, Raquel Murillo/Lisboa (Itziar Ituño). Numa sequência que busca ser tensa, por seus cortes e música incidental, fica subentendido que a ex-inspetora Murillo foi executada. Quando o fato parece ter ocorrido, fica a reflexão de que o seriado parece tentar discutir a misoginia e trazer todo um discurso progressista, mas coloca a figura feminina mais forte da narrativa inteira para ser apenas o interesse amoroso do protagonista e eliminá-la seria o elemento que o deixaria mais forte e poderoso.

Como se não bastasse esta visão antiquada, fica-se sabido, minutos depois, que Lisboa não faleceu, está viva, no caminhão da polícia. Ou seja, além dela ser a isca para o homem que assume o comando de tudo, dela ter sido fraca e de pouca inteligência para escapar com suas escolhas, a obra não tem coragem de eliminar a personagem, tomando um caminho óbvio e sem graça, porque em todo o percurso que fez, jamais retirou personas mais importantes, sempre as deixando em grandes cliffhangers, para depois salvá-las.

 

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No final das contas, é perceptível que a discussão feminista é rasa, apenas de enfeite para demonstrar uma imagem positiva, mas que mantém o patriarcado incrustado completamente nos diálogos e ações, deixando as mulheres como mais fracas (Tóquio bêbada porque foi deixada por Rio; Nairóbi com um tiro porque seu instinto maternal foi mais forte do que ela e Raquel na prisão por estar apaixonada). Os rapazes ficam, assim, no comando de toda situação e retém todo poder. Não à toa, todos os episódios são comandados por diretores masculinos e os roteiristas são quase todos…? Homens.

No resultado geral, La Casa de Papel entrega um resultado mediano, nada além da já esperada estrutura feita para criar frases de efeito para internet, memes e posts que podem virar textão,  mas vazio por dentro. As personagens não ganham complexidades e a terceira parte é uma cópia das anteriores, criando tédio durante sua exibição.

 

Críticas: Segunda Temporada de “Dark” é mais sólida e intensa

 

Por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de uma espera de quase dois anos, a Netflix disponibilizou a segunda temporada da série Dark. Realizada na Alemanha, a produção chega neste novo ano com mais fôlego, um enredo menos óbvio do que a da sua antecessora e com mais fios para compor a sua teia de Ariadne. Após o cliffhanger do 1×10, o público descobre um pouco das consequências das ações de Jonas (Louis Hofmann) no “passado”, “presente” e no “futuro”. Com isto posto, o jovem precisa compreender quais os melhores passos seguir para evitar uma tragédia que está por vir.

Aqui, um dos maiores ganhos é a forma como o protagonista continua a ser o fio condutor da trama, mas agora deixando que as outras histórias se desenvolvam com mais profundidade e sob outras óticas além da sua. Não apenas as viagens no tempo, mas as decisões e suas consequências são postas nas mãos de todos os indivíduos importantes da trama, mas o gancho nunca deixa de ser a personagem principal. Assim, as escolhas de Baran bo Odar (Crimes na Madrugada), e dos outros roteiristas que assinam com ele, traz um equilíbrio e maiores surpresas para o desenvolver dos atos postos em cada sequência.

 

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O jogo de cores no figurino – criado por uma equipe de mais de dez pessoas – e o de luz e sombra na fotografia, feita por Nikolaus Summerer (Invasores: Nenhum sistema está salvo), continuam sendo marcas de linguagem selecionadas para ambientar o espectador em que período os fatos narrados estão acontecendo. Contudo,  sem nunca perder os tons neutros, principalmente bege e marrom, que instalam sensações ambíguas que vão de uma ambiente depressivo até um local caseiro, que inspira conforto e segurança.

A complexidade de Dark também está na direção, nos movimentos de câmera que revelam múltiplas visões de um mesmo fato, revelado apenas depois que o público descobre quem está envolvido na situação. Outro recurso bem utilizado é a câmera subjetiva que instaura um clima de tensão e dúvida, até que o narrador seja evidenciado, com uma plano médio ou até um close, criando uma espécie de cumplicidade com a plateia. Nestes instantes, sempre fica estabelecida uma incerteza se um plot twist virá ou não. Além disso, mais uma camada de informação é colocada, podendo instigar quem assiste e amarrando acontecimentos prévios.

 

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No entanto, apesar de conseguir elevar a qualidade em relação ao primeiro ano, os novos episódios pecam em não irem tão além do que já tinha sido mostrado. Apesar dos reforços em contar as trajetórias dos indivíduos mostrados na tela, dos fatos serem esmiuçados e duas revelações serem contadas – uma muito impactante e outra nem tanto – a finale deixa certo gosto de engano. Isto porque o cliffhanger é perigoso para a qualidade do desfecho do seriado – outras ficções já tentaram seguir por este caminho e falharam, ou não – e porque nenhum elemento diferente é posto. As ações prosseguem e as vidas permanecem. Resta apenas descobrir se toda a premissa original irá levar a história para algum lugar.

 

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