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Inglês pelo mundo das séries: 8 cidades, 8 sotaques em Sense 8

Umas das perguntas que mais ouço como professora de inglês é: “Você tem sotaque americano ou britânico?”, ao que respondo sem titubear: “Meu sotaque é brasileiro. Mais especificamente baiano, de Salvador”. Claro que do lado de cá dos trópicos a influência americana na cultura que consumimos faz com que meu inglês tenda a soar como o inglês americano a maior parte das vezes, mas com exceção do título da série Sex in the city, não tem quem me faça pronunciar “ciRí” com sotaque americano; aprendi com Ms.Marcela (uma das minhas professoras- inglesa) a falar “ciTí” e assim é até hoje a minha fala.

Das oito cidades onde foram gravadas a série Sense 8,  duas são estadunidenses: aproximadamente 4000km de distância separaram a personagem Nomi (São Francisco) de Will (Chicago), lonjura suficiente para encontrarmos variações linguísticas. Cidade do México (México), Reykyavík (Islândia), Berlim (Alemanha), Mumbai (Índia), Nairobi (Quênia) e Seoul (Coréia do Sul) completam o cenário dos personagens principais. Diferente de mim quando exercia a função de comissária de voo, e diferente da equipe de filmagem da série, que precisava encarar horas de voo entre um país e outro, nesta produção escrita por Lana e Lilly Wachowski e J. Michael Straczynski, ao longo de 2 temporadas, os Sense 8’s (sensitivos) conseguem se transportar de um lugar para o outro pelo que a personagem Riley numa conversa com Nyx, descobre logo no primeiro episódio.

 

Lembra de Sense8? Aprenda 8 expressões e advérbios com a série da ...

 

Veja:

“-Limbic resonance. It’s a language older than our species.(…). It’s a simple molecule present in all living things. Scientists talk about it being part of an eco-biological synaptic network. When people take it, they see their birth, their death, worlds beyond this one. They talk of truth, connection, transcendence.”

[Ressonância límbica. É um idioma mais antigo que nossa espécie (…). É uma molécula presente em todos os seres vivos. Cientistas dizem ser parte de uma rede sináptica ecobiológica. Quando as pessoas têm acesso a essa rede, elas vêem seu nascimento, sua morte, mundos além deste aqui. Eles falam sobre verdade, conexão, transcendência].

Se você está aprendendo a língua inglesa, já assistiu Sense 8 , e não prestou atenção a esse diálogo, (sorry, mas preciso dizer que) você assistiu errado. Sugiro que reveja esse trecho: e não estou falando do conteúdo da conversa! Feche os olhos, ouça o ritmo das palavras, (sobretudo dos personagens que estão por perto de Riley). Se puder, coloque a legenda em inglês e  preste atenção nas palavras onde aparecem palavras com “R”. Na cena que vem logo em seguida, surge a personagem Kala, em Mumbai (Índia), e mesmo para quem está começando agora os estudos da língua inglesa, é possível perceber que o inglês dela é bem diferente do inglês falado na cena anterior; se for preciso, volte algumas vezes, sugiro que acompanhe essa transição de uma cena pra outra…

 

 

Algo que eu não havia dito ainda: o inglês pode variar de sotaque entre pessoas brancas e negras: essa variação linguística é o que chamamos de Black English/ Ebonic English/ Afrikan-American English. Quando Amanita no segundo episódio apresenta sua namorada às suas amigas ela diz “Hey, yall! She’s the one I’ve been talking about”. Esse yall é o mesmo que you all, e é uma abreviação especificamente feita por pessoas negras (dos Estados Unidos). Talvez você não soubesse até agora (tudo bem, Riley também não sabia), mas o inglês junto com o Suaíli, é uma das línguas oficiais do Quênia, e lá eles não usam essa expressão, mas o personagem Capheus traz no encontro com Riley: “Yes, I speak very good English”* [temporada 1 Ep.05]- Ouça como o “R” falado por ele é diferente do falado por Amanita (negra norte americana), e da própria Riley (branca inglesa),  e isso sem falar no sotaque da personagem Sun, de Seul, onde a língua oficial não é o inglês, e que também conta com suas particularidades de inglês como segunda língua… É preciso dissociar de uma vez por todas sotaque de fluência: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. E você, qual o seu sotaque?

 

 

*Sim, eu falo inglês muito bem

 

**Luane Souto é graduanda em letras com inglês, pela Universidade Federal da Bahia, é ex-comissária de bordo e atriz.

 

Li, Assisti: Um devaneio importante sobre o novo livro de Crepúsculo

Muitas séries não envelhecem bem. Fazia sentido e era socialmente aceitável Seth Cohen ter duas namoradas em The O.C. Era considerado normal o ciúme doentio de Ross por Rachel, em Friends. E era normal o retrato da dependência emocional de Bella em Crepúsculo. Quando foi anunciado que O Sol da Meia Noite finalmente seria lançado, dez anos depois eu comemorei. Fui muito envolvida com a história dos moradores de Forks e fiquei genuinamente feliz com o material novo. A obra será um spin-off da saga, sendo que é a mesma história, mas sob a perspectiva de Edward Cullen. Ficar animada foi a primeira reação, a de fã alucinada.

 Depois o meu lado pesquisadora e feminista entrou em ação e me perguntei como esse livro seria aceito. Não é uma atualização do enredo, é apenas o lado de Edward dos exatos acontecimentos de Crepúsculo. Toda a problemática irá permanecer, não tem jeito de renovar uma narração que já foi feita. A mudança de ponto de vista ainda manterá as partes problemáticas da história. Bella ainda será impotente, com uma baixa auto estima e um lado autodestrutivo. Edward ainda será machista, invasivo, stalker até, por olhar Bella dormindo noite após noite sem a sua permissão e a necessidade obsessiva de protegê-la.

 

8 'Twilight' Costume Ideas to Make You the Bella (& Edward) of the ...

 

Olhando em retrocesso, vejo muitos paralelos com Joe, do seriado Você. A diferença é que Joe não é romantizado, ele é um sociopata e tratado dessa forma pelo roteiro. Ainda assim, vimos muita comoção na internet de romantização da personalidade dele. Se esse personagem, retratado de uma forma crua confundiu a mente das pessoas, imagina um vampiro possessivo rico que tem todos os traços de romantização possível.

Sei que pode parecer que eu não estou fazendo muito sentido, até porque não deixarei de ler o livro. Inclusive, comprei o meu exemplar logo na pré-venda e estou esperando ansiosamente. Mas, vou consumi-lo com a consciência de que não é um relacionamento ideal, nem personalidades a serem espelhadas. Penso nas gerações mais jovens e como isso pode afetar a forma que eles enxergam romance, e como o amor pode ser visto como algo altamente possessivo. Meyer até tentou nos convencer com uma edição especial com trocas de gênero, foi uma forma de apontar que a história funcionaria se não fosse a mulher a frágil, no local de se auto questionar. Na minha opinião não fez muito efeito. Bella ainda é uma mocinha incapaz e precisamos urgentemente discutir mais sobre isso

 

Comédia em Série

A indicação deste mês definitivamente não é uma novidade, mas é garantia de diversão. Community é uma série em 2009, pela NBC. Entrando no ar junto com grandes nomes da comédia como The Office, Parks and Recreation e 30 Rock, ela acabou passando por muitos despercebida. No começo de abril, a comédia entrou no catálogo da Netlix e é uma ótima pedida para quem está procurando se distrair nesses momentos difíceis, prometendo muita leveza e carinho por esses personagens que te conquistam fácil. À primeira vista pode parecer uma sitcom qualquer mas, ao decorrer dos episódios e com a maturidade dos personagens, ela só cresce.

showrunner da obra, Dan Harmon, é o co-criador do sucesso Rick and Morty, e é perceptível as semelhanças nos plots absurdos e criativos e as diversas referências a cultura pop, mas Community é muito menos niilista que sua irmã mais nova. A série conta a história de um grupo de estudos numa faculdade comunitária, Greendale, formada por pessoas completamente diferentes e que por algum motivo se apegam e viram grandes amigos. Jeff (Joel McHale) é um ex-advogado que perdeu sua licença por ter usado um diploma falso a carreira toda e cria o grupo com o objetivo de conquistar Britta (Gillian Jacobs) uma mulher politizada e que sempre tem algo a dizer, Abed (Danny Pudi) é um jovem aficionado por cinema e TV que tem muita dificuldade de demonstrar emoções e se comportar como os outros esperam que se comporte. Abed é muito importante, pois muitas vezes vemos os personagens pela sua ótica fantasiosa de mundo, sempre trazendo piadas metalinguísticas sobre eles estarem vivendo em uma série cômica. Por sinal, a forma que a produção sempre tira sarro de ser uma comédia de situação é uma das coisas mais legais, como ela também não tem medo de sair dessa fórmula e ao mesmo tempo explorar todos os clichês do formato.

 

Crítica | Community – 1ª & 2ª Temporadas – Plano Crítico

 

No grupo temos também Annie (Alison Brie) que é a mais jovem e dedicada (para não dizer obcecada) da turma: Troy (Donald Glover) um ex-quarterback, que tem o maior coração de todos e forma a melhor dupla da série junto com Abed; Shirley (Yvette Nichole Brown), uma mãe cristã e recém-solteira que resolve aproveitar o tempo perdido para estudar e Pierce (Chevy Chase), um baby boomer que sempre diz coisas ofensivas e inapropriadas. Isso sem contar com todos os personagens recorrentes que formam o universo fantástico e absurdo que é Greendale, como o reitor Pelton (Jim Rash) que tem uma paixão nada secreta por Jeff e veste fantasias ao melhor estilo RuPaul; Ben Chang (Ken Jeong) o professor de espanhol que se torna diversas outras coisas mas sempre extremamente assustador (e engraçado).

A força e a genialidade da série está em sua 0 vontade de parecer com a vida real e você pode esperar surpresas maravilhosas como episódios imitando filmes de faroeste com paintball, batalhas de travesseiros, documentários falsos, paródias de Law and Order e muito mais. Ao longo de sua exibição e sempre correndo risco de cancelamento, a série foi ganhando uma legião de fãs na internet, lançando a hashtag #sixseasonsandamovie. E o mais incrível é que funcionou, a série de fato alcançou a sexta temporada (que foi feita pela Yahoo!) e o filme… bem, quem sabe?

 

 

*Laize Ricarte é comediante, roteirista e cineasta.

Terror em Série: Dicas para a Quarentena

 

Os fãs do gênero de terror crescem a cada dia e, no meio de tantas possibilidades de canais de streaming, plataformas do ambiente digital e Youtubes da vida, às vezes fica difícil saber por onde começar. Pensando nisto, a coluna Terror em Série elenca agora algumas dicas de seriados que podem dar uma animada, ou melhor aterrorizada em tempos de Coronavírus.

A seleção conta com cinco produções vinculadas nos últimos 7 anos. Com estilos diversificados, as escolham podem agradar distintos gostos e tipos de viciados no gênero. Há quem goste de todos, não é mesmo? Então, corre para ver as sugestões agora e descubra se seu seriado favorito aparece!

 

LISTA

 

O Mundo Sombrio de Sabrina | Saiba quando a 4 temporada deve ser ...

 

O Mundo Sombrio de Sabrina (2018 – )

A readaptação das aventuras da bruxa Sabrina Spellman tem até então três temporadas e dosa bem entretenimento e pautas feministas, ainda que com uma olhar um tanto genérico e, muitas vezes, superficial. Numa progressão de qualidade, o seriado mantém seu fôlego e pode prender aqueles espectadores que não dispensam um bom conteúdo  voltado ao público adolescente. Buscando quebrar as amarras patriarcais, aqui representada como a própria figura do capeta clássico, Spellman tem conflitos morais e a clássica luta entre desejo e o bem maior de todos. Além da progressiva qualidade narrativa, a obra cresce também em qualidade de linguagem, apurando seu conceito visual, numa direção que se preocupa em trazer estímulos visual que podem se refletir no efeito mais clássico do terror: despertar medo e repulsa.

 

Disponível em: Netflix

 

The Twilight Zone de Jordan Peele vai chegar ao Amazon Prime Video

 

The Twilight Zone (2019 -)

A nova versão da série clássica dos anos 1960, agora produzida por Jordan Peele (Corra!), tem, de fato, uma irregularidade em sua qualidade. Mas, o que vale nessa obra antológica é o apuro estético ligado a temas caros ao nosso tempo. Episódios como Replay, Wunderkind e Not All Men trazem de maneira ácida os absurdos das injustiças sociais, exaltando que o cotidiano é diversas vezes tão inacreditável que se encaixa perfeitamente com o universo fantástico do seriado. Um outro destaque é a narração de Peele, sua figura transcende a tela e cria uma conexão de cumplicidade verdadeira entre ele e o espectador, ao mesmo tempo que pode nos deixar desconfortáveis em nossas próprias certezas.

Disponível em: Amazon Prime Video

 

O Escolhido, nova série da Netflix, impressiona com visual e ...

 

O Escolhido (2019 -)

Dentre as séries mais acessíveis e brasileiras de terror, decidi dar uma dica que é mais uma aposta do que qualquer coisa. O Escolhido tem certo desequilíbrio em sua qualidade. Os seus diálogos são, muitas vezes, sofríveis e a aparente falta de preocupação com a direção de atores mostra a descrença dos mesmos em relação aos textos monocórdicos e quase robóticos. Principalmente na primeira temporada, têm momentos difíceis de aturar, a verossimilhança interna é quebrada diversas vezes em prol de surpresas na trama que traem o espectador de maneira constante. Mas, então qual a razão de ela estar nessa lista? O trunfo reside nos seus ganchos. A cada episódio, o roteiro prende o público de certa forma e deixa perguntas que precisam ser resolvidas, o estranhamento dos protagonistas termina sendo o nosso estranhamento e quando eles dão uma resposta, trazem muitas outras perguntas.  O enredo é intrigante e, à medida que os acontecimentos vão se desenvolvendo, a complexidade e a construção das personagens  vão se tornando mais bem realizadas. Um outro fator é o não maniqueísmo de sua protagonista que, além de carismática, tem características realistas e despertam a empatia de quem assiste.

Onde assistir: Netflix

 

Bates Motel não tem a licença renovada e sai da Netflix em fevereiro

 

Bates Motel (2013 – 2017)

A história de Norman Bates, proveniente do filme Psicose, de Alfred Hitchcock , aparece aqui mostrada sob um outro olhar. O então adolescente e sua mãe, ainda viva, mudam-se após a morte do esposo da progenitora do protagonista. Durante cinco temporadas, que conseguem manter de certa forma sua qualidade, vemos o desenvolvimento e o nascimento do psicopata e assassino de Marion Crane. A interpretação de Freddie Highmore (The Good Doctor), no papel de Norman e de Vera Farmiga (Olhos que Condenam), como Norman, se sustenta durante toda a série, jamais destoando da narrativa e, de certa maneira, auxiliam quando a trama começa a dar uma caída e o enredo se enche de fillers lá para o meio da terceira temporada. Seus dois primeiros anos e seu desfecho são o auge de Bates Motel e quando tudo se finda há a sensação de catarse e de até certa reparação na história onde só havia punição para as mulheres! Um destaque é a participação de Rihanna  (Oito Mulheres e um Segredo) como a Crane!

Onde assistir: Prime Video e Claro Video 

 

BUFFY: A caça-vampiros e o que a ... - Aparato do Entretenimento

Buffy – A Caça Vampiros (1997-2003)

Em todos os top 5 ou listas de seriados de terror não pode faltar o seriado que lançou uma das primeiras tramas girl powers da televisão estadunidense. Sarah Michelle Gellar vive a a típica cheerleader. Geralmente, esta é a típica personagem a morrer morrer primeiro em um filme de horror. Com o que a sociedade impôs como rosto angelical, juntamente com uma aptidão reduzida para os assuntos escolares, ela seria a típica personagem dispensável para a maioria das obras criadas, principalmente, pelos homens durante anos e mais anos. E é justamente por isso que Joss Whedon criou o seriado onde esta garota, rodeada por estereótipos, era, na verdade, a maior caçadora de vampiros na Terra. Grande parte dos vilões que a mocinha combate são homens e a cada temporada ela quebra estigmas, destrói representações patriarcais e mostra que é muito mais que uma menina boba numa cidade pequena. Não darei spoilers, mas, o fim da série mostra bem seu crescimento como mulher e da sua não necessidade de um homem para completar sua história. Sempre atual, divertida e repleta de vilões criativos e diferente, há muito pouco de repetição em sua narrativa e seus cliffhangers sempre são muito especiais, instigantes, como devem ser.

Onde assistir: NetNow

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Li, assisti: A grande conquista da nova adaptação de Percy Jackson

Eu, diferente de muitas crianças/adolescentes da minha geração não comecei a ler com Harry Potter! Meu vício de leitura veio com Crepúsculo, fiquei encantada por aquele romance, envolvida pela leve tragédia daquilo tudo. Fui a uma feira de livros, na stand da editora da saga (nem sonhava em saber o que era Intrínseca na época), por falta de livros novos de Stephanie Meyer, escolhi comprar O Ladrão de Raios.

Lembro de chegar em casa e abrir o livro despretensiosamente, era umas 21h. Não consegui parar de ler, foi a primeira vez que virei a noite lendo um livro. A sensação permanece comigo até hoje, de curiosidade sobre o que ia acontecer e um leve medo dos monstros, principalmente do minotauro. Não consegui acordar pra ir pra escola no dia seguinte, levei bronca mas valeu tanto a pena.

 

percy vs ares | Heróis do olimpo, Livros de percy jackson, Percy ...

Ilustração de John Rocco

 

Alguns meses depois, fui passear na livraria e para a minha surpresa tinha sido lançado um segundo volume de Percy Jackson: O Mar de Monstros. Naquela época, não tinha essa fonte de informação que tenho agora, do que será lançado, o que é série e o que não é. Me lembro do deleite e do pânico ao explicar pra minha mãe como aquele livro era importante pra mim e o porquê deu precisar dele naquele instante. Sei que ela compraria de qualquer jeito, mas como adolescente não gostava de perder a oportunidade de ser dramática. Olhando pra esse momento com o conhecimento que tenho agora, de formatos e narrativas, aquela foi minha primeira experiência com uma narrativa seriada literária. Me tornei uma leitora ávida com Percy Jackson, o que influenciou a minha vida toda, o que sou e com o que trabalho hoje.
Esse longo discurso veio para justificar a grande decepção que foi ir no cinema e assistir a adaptação do Ladrão de Raios. Pra voltar o meu caráter dramático, acho que foi a pior adaptação que eu já vi (empatando talvez com O Último Dobrador do Ar). A atmosfera estava errada, o roteiro não respeitava nada, e um dos personagens mais queridos da série Annabeth Chase, a filha de Atena, era arrogante e briguenta, quase uma filha de Ares (cito aqui meu amigo Iago). Sem falar a idade inapropriada do elenco. Minha decepção foi tanta que nem assisti o segundo. Minha alma de fã foi minimamente restaurada quando tio Rick (apelido carinhoso que os fãs usam para o autor Rick Riordan) expressou o quanto tinha odiado a adaptação, e o quanto se sentiu impotente de ver seus personagens sendo adaptados daquela forma.

 

Percy Jackson e o Ladrão de Raios | Edição ilustrada tem novas imagens divulgadas
Ilustração de John Rocco

Depois de muita espera, muita antecipação, esse mês foi divulgado uma nova adaptação do Ladrão de Raios, com total envolvimento do autor. E para mim foi um bálsamo na minha alma, minha adolescente, leitora inexperiente aflorou e pulou de puro êxtase. Tenho plena fé nessa adaptação, não só pelo carinho de tio Rick com a história, mas os fãs já sofreram demais e duvido que queiram que a gente sofra mais. Estarei preparando comidas azuis e contando os dias pacientemente!

 

*Krystal Baqueiro é pesquisadora, mestranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas, pela Universidade Federal da Bahia e consumidora intensa de literatura – ainda mais se for a seriada!

Maratone como uma Garota! – Liberdades e prisões em Vis a Vis

Muitas (boas) produções espanholas têm marcado presença nas listas de maratonas de muita gente por aí. Nomes como Las Chicas del Cable (As Telefonistas, em Br) e La Casa de Papel apresentam não somente narrativas instigantes, e viciantes, mas também uma ampla diversidade de questões relativas às personagens femininas. Em Vis a Vis, encontramos um cenário muito familiar, do qual nos despedimos recentemente com Orange Is The New Black, finalizada este ano, que é a penitenciária feminina. A densidade das personagens e o desenrolar das suas histórias vão revelando nuances de personalidades e borrando fronteiras morais que poderiam parecer óbvias, levando o espectador a questionar muitos juízos pré-definidos. Mesmo se você ainda não tenha assistido, talvez esse texto possa te dar um empurrãozinho.

Apesar do plot estruturar-se numa prisão, os ares, a estética e as tramas são bem particulares. E para quem sofre de ansiedade para a 4ª temporada de La Casa de Papel, uma boa notícia: além de contar com os mesmos responsáveis (Alex Piña é o criador de LCDP e cocriador de Vis a Vis), ainda encontramos no elenco duas grandes atrizes: a maravilhosa Najwa Nimri, a inspetora Alícia Sierra de LCDP, que vive, em Vis a Vis, a “vilã” Zulema Zahir, e Alba Flores, a rainha do matriarcado Nairobi, que vive aqui a cigana Saray Vargas aqui. Dentre muitos tópicos que poderíamos explorar, a Maratone como uma Garota! deste mês discute um pouco como a noção de liberdade na produção transita entre sonho, esperança e perversão, principalmente a partir das duas personagens principais.

 

 

O título de “Orange Is the New Black Espanhola” definitivamente não faz jus ao seriado. Apesar de ambas oferecerem personagens e situações empáticas, caricatas e por vezes cômicas, retratando a diversidade que representa o mundo das prisões, o argumento de Vis a Vis, com um tom mais dramático e tenso, gira em torno, entre outros temas, da liberdade e como esta pode se tornar uma perversão. A história inicia-se com a entrada de Macarena Ferrero (Maggie Civantos) na prisão Cruz del Sur, que, enganada e apaixonada pelo ex-chefe, comete crimes fiscais. Em seus primeiros minutos encarcerada, Macarena conhece Zulema (Najwa Nimri), uma detenta geniosa e bastante perigosa. Ao encontrar um chip de celular que continha informações sobre uma grande quantidade de dinheiro escondida, a vida da mocinha e de sua família se transformam em uma montanha russa de perigos e mortes. O trunfo da série, no entanto, está mais em Zulema, quem tem uma construção menos estereotipada e mais bem desenvolvida. 

Macarena começa como a loirinha ingênua e quase inocente (um estereótipo bem típico de “boa moça”) e vai transformando-se numa bad girl* até se tornar uma das chefes da prisão. Em um primeiro momento, a protagonista até tenta ganhar força, mas continua à sombra de uma caricatural transformação de cárcere. Porém, ela começa a ganhar bons contornos a partir de meados da 2ª temporada, quando atinge um patamar em que “mal” e “bem” já não prevalecem, mas a condição humana de imprecisão e inconstância. É aí que a série também vai se mostrando mais atenta a essas falsas definições de certo ou errado. A princípio, Macarena apenas queria provar sua inocência e sua liberdade era mais de uma moral tradicional. É descobrindo como a sociedade e a justiça são bem mais sujas do que parece que seu ideal e a moral da liberdade caminham para outro sentido: entre querer sair, não ter aonde ir, não ter mais as âncoras de antes. A relação de Macarena e de Zulema tem por base, justamente, a ânsia de livrar-se dos encarceramentos, nas fugas e na prisão.

 

 

“O elfo do inferno”, como se autodefine Zulema, é a personagem mais cheia de sutilezas e tensões. Inteligente, ágil, má e sem muito afinco a sentimentalismos, a única coisa que lhe interessa é a liberdade. Seus diálogos sempre conotam, entretanto, que a liberdade é muito mais complexa do que parece. Ela quer sair da cadeia, mas não quer uma vida comum, pois como afirma “ama a vida mais que tudo”. O modo como a narrativa estrutura esta personagem se mostra bem interessante pois temos sempre muito claro que ela é humana, não uma psicopata monstruosa e fria, mas também suas ações não se justificam por conta de traumas, de sofrimentos, ainda que os haja.

Ou seja, a sua humanidade não se oculta na maldade (que ela própria não nega) e nem se apóia numa tentativa de redenção, como encontramos em muitos outros antagonistas. “Vilã” não parece ser um termo aplicável, visto que a vilania está mais nas estruturas do que nas pessoas. Zulema faz o que for necessário para ser livre. Sempre astuta, ela também reforça como os lugares na prisão – o encarcerado e o encarcerador – não estão dados. Há, porém, momentos em que o roteiro parece desfazer-se do seu peso na narrativa, forçando um escanteio mal sucedido. Grande parte da potência e sedução de Zulema (que conquistou a maior parte dos fãs de Vis a Vis) está na carga da atuação de Najwa Nimri, que maneja muito bem ironia, coragem, comédia e terror. 

 

 

A liberdade como uma espécie de perversão está presente o tempo inteiro e é um fio condutor no roteiro. Essa ideia de “perversão”, que foi também discutida pela própria Nimri em algumas entrevistas, nos diz sobre como este valor por transformar os sujeitos radicalmente, tornando-se uma obsessão. A vontade de liberdade e a atração que exerce rege não somente Zulema, mas também outras encarceradas. Muitas vezes, estar fora não é ser livre, como percebe Soledad Nuñes (María Isabel Díaz) que, condenada pelo assassinato do marido abusivo, percebe que o mundo fora das grades só lhe traz dor e culpa, e que lá não tem ninguém. Já Terê (Marta Aledo), uma viciada em heroína, começa a questionar o quão libertar-se do vício tem altos preços.

É bem verdade que Vis a Vis traz também algumas representações bastante redutoras e problemáticas para algumas mulheres da trama, especialmente a diretora Miranda (Cristina Plazas), que permanece alienada e manipulável e seu intento de humanizar a cadeia, ao invés de fortalecer, a enfraquece. Sororidade e feminismo não são o ponto mais forte desta produção, que escorrega em alguns momentos, colocando disputas um tanto misóginas entre as presas. Muitas relações amorosas são também mal desenvolvidas e algumas situações de violência sexual e estupro não têm um bom tratamento. Porém, a série consegue explorar alguns pontos importantes na trama e é muito viciante. 

 

Terror em Série – Top 5 Girl Power no Terror

 

O universo das séries de terror pode traduzir muito bem a realidade das mulheres, seja do constante medo em suas vidas, como também no poder que possuem de serem fortes, bruxas, de ser o que desejarem. Pensando nesta potência, o Série a Sério separou uma lista com seriados que trazem mulheres que são protagonistas, que lutam para traçar seus destinos e conseguem!

 

Eis o top 5:

 

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5 – Handmaid’s Tale (2017 – Atualidade)

 

Inspirada nos livros de Margaret Atwood, a produção mostra um universo distópico nos Estados Unidos, após um atentado contra o presidente. Apesar de trazer momentos que parecem mais sádicos do que empoderadores e de marcar a ligação da mulher com a maternidade, o seriado tem seus elementos feministas. Toda a construção do poder através da sororidade, evoca uma crença na força da união feminina e da inteligência delas para agir estrategicamente, sem esquecer de que a violência também existe dentro delas. Depois do final de sua última temporada, pode-se dizer que ainda há esperança das mulheres prevalecerem e lutarem e pararem de sofrer gratuitamente em todos os episódios.

 

 

4- Charmed ( 1998 – 2006)

 

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Em sua época, as irmãs Halliwell trouxeram um novo pensamento sobre sororidade no sentido mais literal possível. Apesar de seus interesses amorosos e conflitos com os mesmos,  o que mais importava em sua trama era a amizade das três e como elas protegiam umas as outras. A irmandade delas era o centro da questão! O poder das Três nada mais era que o poder da união feminina, inclusive, muitas referências da história vinham do pensamento de sagrado feminino e da energia da natureza como elo mágico na Terra.

 

 

 

3 – American Horror Story: Coven

 

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O seriado de Ryan Murphy tem um histórico de construir boas personagens femininas, mas, sua terceira temporada supera por construir uma mitologia própria em torno da potencialidade do universo das mulheres. A força que existe em cada uma de nós e como só podemos nos fortalecer e sermos mais poderosas quando descobrimos que não precisamos estar à sombra de ninguém para sermos alguém. Além de empoderamento, Coven nos traz muitos outros questionamentos, em especial como o medo que as mulheres têm de envelhecer e  de serem substituíveis depois da perda da juventude. Além disso, muitas vezes, há o preço altíssimo para se entrar em padrões de beleza, ser poderosa e ainda ser incentivada a disseminar a rivalidade feminina, pois este é o maior veículo para deixá-las enfraquecidas.

 

 

 

2 – Chilling Adventures of Sabrina

 

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O universo das bruxas é mais uma vez explorado, só que, dessa vez, de maneira ainda mais sombria. Talvez, menos sombria do que Coven, mas, dentro do conteúdo adolescente, Sabrina traz tons menos ingênuos e busca construir uma linha de pensamento feminista de maneira mais lúdica. A série consegue atingir seu ponto porque trata de feminismo de maneira sutil, mostrando em seus vilões homens, símbolos de opressão masculina e a forma como o ego dos homens afetam a convivência social de forma negativa. Parece didático, e em sua primeira temporada até é, mas, aos poucos, a produção toma forma e traz questionamentos cada vez mais potentes. Eis o trailer da segunda parte:

 

 

 

1 – Buffy – The vampire slayer

 

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Nos anos 1990, surgiu um dos maiores fenômenos televisivos da história dos Estados Unidos: a caçadora de vampiros adolescente! Ela amava homens, mas, amava ainda mais lutar contra vampiros e seres sobrenaturais. Tudo bem que esse era o fardo de Buffy Summers, não ser uma adolescente normal. Contudo, era uma das primeiras vezes que via-se uma mulher escolhida. Summers era forte, protegia seus amigos, era inteligente e com um humor sarcástico. Ela não era flawless, tinha seus defeitos, seus desejos, era bonita, mas não sexualizada. Ela era tudo que toda garota achava que não poderia ser e que, depois de  Buffy, entendeu que  tinha o poder de ser dona da sua própria vida. A caça vampiros mais badass de todos os tempos segurou sua balestra e lutou contra muitos lords e homens vampiros, mostrando que era muito mais que uma loirinha cheerleader.

 

https://www.youtube.com/watch?v=jP-lbMSirsA

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Comédia em Série: “Os Normais” e o legado de Fernanda Young

No dia 25 de agosto de 2019, acordei com a notícia da morte de Fernanda Young. Não pude acreditar na partida de uma mulher tão viva em minhas memórias. Eu ainda sonhava que nos conheceríamos!! Mas, quem sabe numa outra vida? Passei o dia pensando em seu trabalho, no quanto ele me inspirou e me mostrou coisas que eu nem imaginava em plena que uma mulher podia falar e fazer, me mostrou que ousar era possível. Em sua homenagem, a coluna de hoje falará sobre sua obra mais famosa e querida pelo público: Os Normais.

A série foi exibida entre 2001 e 2003, nas noites de sexta-feira, na Rede Globo. Eu lembro de assistir ao seriado escondida, com minha tia, e de não entender metade das piadas, mas adorar o quanto aquilo parecia novo e divertido. A abertura icônica, com todos aqueles rostos brasileiros e diferentes entre si, a música brega que dizia “Você é doida demais!”. Por sinal, o cantor e compositor da música, Lindomar Castilho, chegou a ser preso por matar a própria esposa que tinha um caso com o primo do cantor, mas foi solto em pouco tempo. Peço perdão aqui pela curiosidade traumatizante!!!

 

 

O casal Rui e Vani eram protagonistas da produção e dos diálogos mais mirabolantes, sem noção e verdadeiros que a nossa TV já viu. Interpretados por Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães, que estavam no auge da juventude e dos seus corpos sarados, o casal vivia semi nu em cena, expondo o corpo, a neurose e mau caratismo do par favorito dos brasileiros. Noivos por toda a eternidade, representavam um arquétipo moderno dos casais da virada do século XXI, do desapego e da liberdade. Isso sem largarem um do outro, claro.

Usando o formato de sitcom, Fernanda Young e Alexandre Machado, seu marido e parceiro em diversos trabalhos, brincavam com a linguagem, colocando Rui e Vani para conversar com o público e até para convidá-los a participar de suas discussões sem sentido. Chegando a fazer piadas sobre a qualidade da série, sobre a emissora e até sobre os seus espectadores, Fernanda nunca subestimou sua audiência. Lembro que a comédia era uma das coisas mais comentadas da época e que marcou pela sua ousadia. 

 

 

Fernanda fez outras diversas séries, como Os Aspones” – uma espécie de The Office brasileiro que talvez fosse sofisticada demais para o seu tempo-; Minha nada mole vida, Comédia da Vida Privada e sua mais recente Shippados. Ela também atuou, escreveu romance, poesia, apresentou programa de TV e falou o que muita gente preferia deixar calado. Foi e sempre será um exemplo de frescor e ousadia, um tapa na cara dos caretas.

 

 

*Laize Ricarte é comediante, roteirista e cineasta.

Br em Série: A fórmula do sucesso: Cine holliúdy traz a comicidade nordestina e homenagem ao cinema e A TV

Parece que apesar do preconceito e descaso com o Nordeste, a cultura da região ainda é receita de sucesso para as narrativas brasileiras. A Rede Globo demonstra ter entendido isso há algum tempo, pois vira e mexe apresenta narrativas com esse conteúdo, desde novelas, filmes a, mais recentemente, seriados (muitos desses produtos adaptados de realizações regionais). Assim, fomos apresentados a Cine Holliúdy,  trama de dez episódios que trouxe de volta à TV aberta o humor nordestino, mais especificamente cearense. Baseada no longa homônimo de sucesso do cinema nacional, assinado também pelo diretor Halder Gomes, a produção retorna com o personagem Francisgleydisson (Edmilson Filho) e outros atores, para a fictícia Pitombas, cidadezinha do interior do Ceará, onde esse “cabra” sonhador e apaixonado por cinema luta para manter viva a sétima arte que está ameaçada com a chegada da TV.

Tanto a série quanto o filme tem a mesma premissa de homenagear as salas de cinema que movimentavam as cidades do interior, mas que hoje, já quase não existem. Porém, nessa nova roupagem, fica forte a metalinguagem com relação a TV. A narrativa, como a abertura (belíssima e cantada por Elba Ramalho e Falcão) coloca, brinca com essa relação: Qual a diferença da TV para o cinema? Parece um pergunta retórica já que a série reverência a TV e suas próprias produções (novelas da Globo) e o cinema (em especial o cinema regional). O tom nostálgico e a homenagem singela é um trunfo do seriado.

 

 

Para quem acompanhou os filmes, pode ficar tranquilo, que apesar do “mão da Globo” visível na produção, Cine Holliúdy tem uma história nova, mostrando o mesmo Francisgleydisson numa versão, anterior a dos dois filmes da franquia, embora ainda dedicado ao cinema.  Francis aqui vive em Pitombas, onde toca um cinema fixo (Cine Holliúdy) nos anos 1970. O problema surge com a chegada da nova mulher do prefeito, a paulista Socorro (Heloísa Perissé), e sua filha, Marylin (Letícia Colin), que o convencem a comprar uma televisão, a primeira da cidade.

O protagonista logo se encanta pela “platinada” e com nome de “estrela do cinema”, Marylin, e daí surge o romance entre “tapas e beijos” entre eles. A graciosidade e determinação da moça da cidade, em contraponto à ingenuidade e esperteza de Francis dão autenticidade ao romance. Ao longo dos episódios, Francis, seu fiel escudeiro Munízio (Haroldo Guimarães) e Marylin decidem criar seus próprios filmes e reconquistar o público.

 

 

Ao redor deles, atuações da melhor qualidade, como o Prefeito Olegário (Matheus Nachtergaele), que prova mais uma vez o respeito ao interpretar um nordestino, seu assessor (ou capacho) Jujuba (Gustavo Falcão), a primeira-dama Socorro (Heloísa Périssé de volta às telas), e os talentos regionais que fizeram a diferença, como Carri Costa (Lindoso), Solange Teixeira (Belinha) e Frank Menezes (Delegado Nervoso). E é claro, não poderia se deixar de comentar da primorosa narração de Falcão,que também atua como Cego Isaías, com seu sotaque forte dá um aspecto de cordel a narrativa .

 

Ode ao cinema e ao interior nordestino

 

Cine Holliúdy une o bom dos dois mundo: o ritmo rápido (em torno de 25 min), com arcos que se fecham por episódio (trama circular) e que não se enrolam, estilo dos filmes clássicos, com a narrativa simplória, sem tramas muito complexas, típico das novelas. Um história para se distrair, rir e apaixonar pelos personagens.

Os  episódios temáticos são mais uma forma de homenagear o cinema. Em sua saga de herói, Francis lida com situações de filmes de ficção científica, de ação, vampiro, faroeste e até os filmes de luta. Cada aventura dessa vira um filme que ele mesmo produz, e que faz o cinema resistir a TV, pois, em suas palavras, “o povo quer ver filmes com gente do Ceará, e falado em Cearense”.

 

 

Apesar desse clima de descontração, a série não escapa do estilo Globo, com personagens e situações penando para o caricato. A a função de cada personagem é típica e fica explícita logo nas primeiras cenas,  o malandro, o político corrupto, a garota moderna da capital, a fofoqueira, a dondoca, o bobalhão. Porém, a boa atuação, os diálogos, cenários e figurinos caprichados tiram a série do lugar estereotipado e fazem o público se conectar rapidamente.

De um filme de baixo orçamento, que levou mais de 480 mil pessoas aos cinemas, surge uma série, que seguindo o sucesso de produções semelhantes, como Auto da Compadecida e a novela Cordel Encantado, se consagra como mais uma comédia certeira da Globo nas noites de terça-feira,  faixa que teve outras comédias cheias de qualidades, como Tapas & Beijos e Mister Brau. Apesar do horário, Cine Holliúdy exibe um Nordeste colorido, divertido e cheio de aventuras e fantasias que todo mundo pode assistir. O bom resultado trouxe bons ventos, depois do segundo filmes, agora foi confirmada a sua segunda temporada da serie.

 

http://www.adorocinema.com/series/serie-23202/video-19561985/

 

*Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

Terror em Série: O Escolhido – Homem de Fé, Mulher com a Razão

O cinema brasileiro de terror vem crescendo cada vez mais e nomes como Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Juliana Rojas, trazem uma diversidade e características próprias a esses filmes. Produtos de gênero têm cada vez mais espaço e há um crescimento de produção e distribuição.

O público nacional é um dos públicos que mais consome terror no mundo. Mas, ainda existe certo preconceito de muitos espectadores para assistir produtos que lidam com o fantástico e O escolhido traz características que podem ajudar a reforçar essa crença de falta de qualidade nos filmes e séries de gênero brasileiros.

 

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A nova série da Netflix traz uma premissa interessante: médicos tentam extinguir o vírus zika do Pantanal, porém, no caminho, acabam achando uma estranha cidade onde ninguém fica doente, ninguém morre. Parece um bom argumento para ser vendido num pitching, por exemplo. Uma história que quando alguém conta tem sim certo impacto. Narrativamente, fora essa boa ideia, pouco caminha positivamente.

A questão principal de O escolhido são os diálogos. Textos engessados, ditos de maneira robótica, dificilmente conseguirão criar uma conexão com o espectador. Cenas inteiras para explicar acontecimentos, como funciona a cura feita pelo Escolhido. A maneira como a progressão dos fatos acontecem são dispensáveis, isso porque muito do mistério é desnecessário já que de pronto se entende o que está acontecendo na história. O fruto dessa tentativa de criar certo suspense são momentos em que o roteiro busca confundir o espectador, colocar obstáculos para ele demorar de chegar em alguma conclusão.

 

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Então, a série termina sendo um amontoado de explicações que são sempre revogadas ou colocadas em dúvida, mais atuações que despertam pouca crença na mitologia da série. Além disso, as personagens são mal desenvolvidas, o arco dramático de cada uma delas não consegue nem provocar empatia do espectador, nem deixar claro como as mesmas pensam e/ou se sentem em relação aos acontecimentos. Os habitantes da cidade dizem somente coisas clichês, frases de efeito. Os médicos, um pouco mais elaborados, tomam atitudes que movem pouco a trama para frente e são bastante previsíveis. Já o escolhido, é o rei das frases de efeito e diz suas falas de maneira empolada, cheio de gestos, mas, não imprime nuances em sua interpretação.

O seriado é bem filmado e tem seus bons momentos visuais. A escolha de enquadramentos consegue traduzir bem o olhar da protagonista, Dra. Lúcia, e a câmera escolhe bem o que mostrar durante as cenas onde o espectador entende aquele universo da mesma maneira que a médica. Talvez se a série focasse menos em diálogos e mostrasse mais momentos de percepção do fanatismo sem muitas explicações, deixando espaço para o público elucubrar, teríamos uma obra de mais qualidade. O fim da temporada deixa um cliffhanger interessante, se houver mais episódios a expectativa é de uma melhora, até porque há verdadeiro potencial para se explorar.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

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