Crítica Ratched – 1ª Temporada

 

por Enoe Lopes Pontes

 

Cores, enquadramentos, criação de suspensão, controle narrativo. São muitos elementos que fazem a primeira temporada de Ratched bem sucedida. A começar pela maneira como a clara inspiração nos filmes do diretor Alfred Hitchcock sçao transposta para a execução da obra. Há uma reapropriação de linguagem na utilização da técnica para contar esta história, que se passa nos anos 1950. A estratégia é realizada sem deixar que o tom de contemporaneidade se perca, conseguindo evocar e avançar em discussões que ainda estavam emperradas na obra de Ryan Murphy (Glee), como a lesbianidade e a representação lésbica. Ao lado de Evan Romansky (Starstuck), um meticuloso universo ficcional é construído, juntamente com uma atmosfera de tensão que consegue ser mantida e, inclusive, estendida até o último episódio.

A escrita parece desejar trazer a humanização de suas personagens lentamente, possuindo, em seu início, figuras distanciadas, que vão revelando seus passados como marcas que ficaram em suas personalidades, progressivamente. Enquanto, o estabelecimento das relações e os acontecimentos do outrora vão sendo descortinados, outros elementos técnicos fomentam a atmosfera de suspensão que a dupla passa. A começar pelas escolhas de tonalidades pela arte, figurino e fotografia. O verde, que impregna a tela, principalmente até a sua metade, captura a gana e os jogos de poder postos em cena. Aos poucos, o amarelo vai tomando conta de maneira mais incisiva e chega como um anúncio de possível fragilidade de quem o traja ou é iluminado por esta cor. Ainda assim, Ratched está constantemente lembrando que não há espaço para calor ou ingenuidade nesta realidade, por isso também a tensão se eleva, a partir destas pistas. Quem estará usando uma roupa esverdeada? E amarelada? Será a próxima assassinada por isso ou irá contar um segredo? Quem assiste se transforma um pouco em investigador por conta disto.

 

Netflix drops trailer for Ryan Murphy's Nurse 'Ratched' origin story

 

A decupagem também contribui para a instalação climática, tensionando os espaços nas quais as personagens estão inseridas ou trazendo o olhar para as emoções reveladas no enredo. É aí que o principal sinal de uma forte inspiração nos filmes do cineasta Alfred Hitchcock pode ser apontado. Há um equilíbrio entre o fantástico e o real, feitos através dos planos e da montagem. Eles instalam uma atmosfera e a direção conduz a produção de maneira inventiva. Um exemplo forte é a sequência na qual o espectador finalmente descobre o que ocorreu com Mildred em sua infância. Com o uso do split srcreen, o espectador vê uma encenação de marionetes de um lado e, do outro, as reações de Mildred aos acontecimentos encenados. Juntamente com este artifício, a complexidade da cena é intensificada, pelos risos da plateia, que se diverte com os fantoches, misturadas com as lágrimas de Ratched.

E se movimentação, sensações misturadas e sons diversos colocaram os sentimentos de Mildred expostos, logo em seguida, tem-se a utilização da técnica indo em uma dinâmica completamente distinta, mas que causa um efeito similar. Com a câmera parada, em um plano médio, Mildred Ratched conta para a sua futura namorada, Gwendolyn (Cynthia Nixon), a história de sua vida. Por quase dois minutos, é possível somente ver o rosto de Sarah Paulson, centralizada na tela. Usando um L Cut, a reação de Gwendoly é mostrada, fazendo com que a angústia de quem assiste cresça, bem como trazendo o relacionamento da dupla para um outro nível de confiança. Este exemplo ilustra como há uma vontade da equipe da série de criar suspensão de múltiplas maneiras, seja por aumento ou diminuição de efeitos, trabalhando com as velocidades dos cortes, tonalidades textuais e de sons.

 

Sarah Paulson diz por que a enfermeira Ratched não é "totalmente má"

 

Contudo, ainda sobre a forte inspiração no cinema de Hitchcock, é possível salientar traços da figurinista Edith Head no trabalho de Lou Eyrich (Pose) e Rebecca Guzzi (American Horror Story). Sejam nos cortes dos tecidos, nos swing back coats, nos chapéus ou nos sapatos, o clima de suspense dos anos 1940 é transportado para o ecrã através destes trajes. Na sequência em que Mildred encontra Betsy (Judy Davis) em seu quarto, a porta abre e a protagonista está usando um vestido amarelo de capuz, o que acaba rementendo a fuga, os seus conflitos internos e a sua posição de vulnerabilidade, tudo transporto para a sua vestimenta e passado em poucos segundos.

Por fim, é preciso salientar as construções das personagens femininas, feitas pelas intérpretes Sarah Paulson (American Crime Story), Cythia Nixon (Sexy and the City), Judy Davis (Feud), Sharon Stone (The New Pope) e Sophie Okonedo (Doctor Who). A começar pela maneira como foi feita a relação de Mildred e Gwendolyn por Paulson e Nixon. Os gestos contidos que vão se expandindo a medida que o enredo a avança e a conexão de pensamento das duas, feita através dos olhares, é a marca principal aqui.

 

Who plays Charlotte Wells in the 'Ratched' Netflix Original? -  Entertainment Overdose

 

Obviamente, o fato das duas serem mulheres LGBTQ+ trouxe atenção aos detalhes de como realmente é um envolvimento homoafetivo feminino. Evidentemente, intérpretes não precisam ter vivenciado algo para conseguir expressar as emoções de suas personagens, mas, como a própria Sarah contou, em um vídeo de divulgação feito pela Netflix, este fato fez com que diversas cenas fossem discutidas pelas duas, para que um resultado mais representativo para a comunidade fosse apresentando e esta visão delas fica clara na narrativa.

Seria possível escrever um texto apenas para falar de Davis, Stone e Okonedo. No entanto, resumidamente, é possível dizer que as três possuem as atuações mais fortes do elenco. São nas pausas preenchidas de movimento, nos diálogos intensos com expressões faciais misteriosas, no domínio corporal e na habilidade de se locomover na frente da câmera que as atrizes conferem nuances para seus papéis.

NOTA: 

 

Nenhum comentário

Os comentários estão desativados.