Crítica: Indecisa e preguiçosa, nova temporada de Dark finaliza mal uma obra promissora

ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS!

Parece ser uma missão sempre um tanto complicada procurar falar sobre as produções da Netflix que começam promissoras ou até mesmo com certo grau de primor, mas que vão se perdendo e se enrolando em sua própria teia. Este é o caso da série Dark, que chegou ao fim, neste final de semana, com o lançamento de sua terceira temporada. Mais do que com uma ideia boa, pois os dois primeiros anos do seriado são bem elaborados, os elementos técnicos possuíam certo refinamento. Este fator fazia não apenas o interesse para os caminhos da trama ser fomentado a todo momento, como a sua estética acariciava os olhos, seja em sua iluminação que dialogava com o enredo e a personalidade das personagens ou os seus cortes e movimentos de câmera que intensificavam as emoções dos conflitos da história, por exemplo.

Nada disto parece se sustentar agora. Diferentemente do que foi visto em 2019 – e você pode ler a crítica aqui -, há um abismo criativo e uma perda do controle dos roteiristas do próprio universo que eles criaram. Acrescentando uma divisão de dois mundos, o espectador se depara com uma realidade na qual Martha Nielsen (Lisa Vicari) é a protagonista, pareada com a que o público já conhece, na qual Jonas Kahnwald (Louis Hofmann) é o responsável pelos nós e desenlaces dos acontecimentos. É ai que o problema começa. Durante os seis episódios iniciais, a equipe de roteiristas – são vários, que mal se repetem – esgarçam as situações até que elas percam sentido dentro da obra. Em um ciclo sem fim, se acompanha as repetições causadas por Martha e Jonas, enquanto os outros conflitos vão sendo apagados, deixados de lado e, muitas vezes, com a morte sendo usada para causar algum tipo de desfecho.

 

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Por tentar criar emoções onde não existe, pois há uma necessidade de trabalhar e sustentar o que foi previamente elaborado para que o que está sendo mostrado crie qualquer tipo de suspensão, o ritmo se perde. Assim, as tensões são quebradas pela certeza de que, não importa o que aconteça, já se é sabido que algum Jonas ou alguma Martha vai apagar o que foi feito para tentar manter ou destruir o acidente que dá início a tudo. No entanto, o mais tenso, por assim dizer, é quando a solução é revelada e descobre-se a origem de todos os equívocos. Quando a grande revelação é feita é como se toda a construção criada no passado pela equipe fosse simplesmente abandonada. Desta maneira, pouco importa a relação de Charlotte Doppler (Karoline Eichhorn) e sua mãe/filha Elisabeth Doppler (Carlotta von Falkenhayn), por exemplo. Porque, como é apontado por Claudia Tiedman (Lisa Kreuzer), nada daquilo é real. A sensação que resta é a de que tudo é uma brincadeira de criança. Sabe quando alguém grita um “não valeu”? Então! Em Dark, acionam esta “estratégia” e os multiversos são, na verdade, somente uma divisão de um terceiro plano, anulando qualquer tipo de acontecimento com as personagens resultantes deste “bug”, porque elas são uma espécie de falha.

Porém, é importante salientar que no momento de trazer o desfecho para a série, o controle da escrita parece retornar. Ainda que as respostas praticamente anulem dois anos de construção e deixem jogadas de lado figuras que pareciam chave para tal fato, a composição da tensão e a sua amarração fazem com que o seriado volte a sua melhor forma. Os recursos de movimentação de câmera, as idas e vindas temporais e espaciais, os enquadramentos que deixam o clima de dúvida e medo, todos voltam para colocar a narrativa nos trilhos outra vez. Isto porque o jogo de gato e rato entre Jonas e Martha cessa e o encerramento vai tomando forma, sem tentar enganar o espectador para ter mais algumas horas de projeção. Além disto, há a maneira como eles criam as distinções entre as duas realidades através das cores, temperaturas e planos, um ponto alto aqui. Assim como já faziam para demarcar as temporalidades, os locais são exibidos de maneira clara, principalmente por algumas dualidades, como o futuro sombrio e úmido no plano Jonas e o quente e iluminado de Martha.

 

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No final das contas, Dark criou um mundo ficcional com muitas particularidades, cuidado e minúcia em seus dois primeiros anos, mas não soube sustentar isto. Apesar de possuir personagens complexas, com camadas de profundidades, que mereciam ser exploradas, os autores preferiram dar espaço para a cruzada de um ship flodado, desde o seu início, invocando, para tal, situações desconexas que negam as próprias regras pré-estabelecidas, desfazendo os pactos com quem a acompanha. Entre assassinatos, nascimentos e pessoas ressuscitando para simplificar a vida dos roteiristas, a terceira temporada da obra se torna simplória, medrosa e entediante, justamente porque não deixam a história avançar. É como se existisse uma pausa e um pulo para o final, com resoluções fáceis demais para o que antes havia sido oferecido.

 

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