Br em Série: Aruanas, o entretenimento e a urgência de tratar do ativismo ambiental

Estamos vivendo um momento político crítico no Brasil, e a pauta do meio ambiente e da preservação da Amazônia, seja para o bem ou para o mal, nunca esteve tão em alta. Algo que reflete um pouco disso é Aruanas, uma das novas séries da Globoplay. Exibida também no canal aberto às terças-feiras à noite e escrita por Estela Renner e Marcos Nisti, o seriado é uma coprodução entre Globo e Maria Farinha Filmes, e fruto de parcerias com organizações como o Greenpeace e a Anistia Internacional.

Frisei que a obra é entretenimento (melhor, entretenimento televisivo), pois quando se fala em audiovisual e preservação ambiental, normalmente, pelo menos no Brasil, estamos falando em vídeos educativos, documentários, reportagens, e filmes de caráter mais acadêmico. Muitas dessas produções acabam caindo nos velhos estigmas, de desinteressante, didático e, quando não, pedante. Assim, já tenciono que o que garante um aspecto de positivo a aqui é justamente o extra-narrativo, ou seja, é a importância política enquanto objeto de comunicação, tanto na questão da relevância temática, a atuação dos ativistas ambientais, quanto de gênero, por trazer mulheres nas principais áreas da produção quanto no protagonismo das personagens.

Por isso esse texto se divide literalmente em dois polos, os velhos pontos positivos e negativos, pois, só separando entende-se porque Aruanas pode ser considerada uma série interessante se pensada dentro do contexto político, mas ao mesmo tempo, não se pode deixar de ter um olhar crítico, pensando o lugar que ocupa o entretenimento, e por que ainda não avançamos nesse sentido.

Um ode às ativistas

Há duas premissas principais no seriado: A atuação dos ativistas e a questão de gênero. A história é centrada em quatro mulheres de personalidades, vidas e experiências diversas, que são ativistas da ONG Aruanas que lutam a favor da preservação a ambiental. Essa mulheres também representam formas de atuação política de um ativista. Luiza (Leandra Leal) é a agente de campo, aquela que se infiltra, espiona. Verônica (Taís Araújo) é a advogada do grupo, quem lida com as conexões políticas. Natalie (Debora Falabella) é apresentadora de programa jornalístico televisivo e usa sua influência para ajudar o grupo. Por último, temos Clara (Thainá Duarte), que traz a relação com a juventude, militância e as redes sociais.

O texto base e os diálogos de Aruanas também trazem essa carga politica, pois toca em pontos fundamentais acerca da exploração desenfreada dos recursos naturais. Mesmo sendo mais “entretenimento”, a trama consegue mostrar os vários lados da problemática. Um dos melhores exemplos disso, é o próprio “vilão”, o empresário Miguel (Luiz Carlos Vasconcellos), que apesar do enredo clássico maniqueísta, expõe seu lado mais humano, como na sua relação com a neta, e seu dom da eloquência, que desconstrói essa imagem do antagonista alienado.

Assim, num contexto político e social como o atual, Aruanas faz um necessário trabalho de conscientização e homenagem aos trabalhadores das causas sociais e ambientais. Como no episódio final, em que as protagonistas dizem em voz alta os nomes de ativistas reais, como Marielle Franco, Chico Mendes entre outros. É realmente emocionante assistir essa cena desfecho, principalmente quando vivemos um momento em que a palavra ativismo no Brasil se tornou um problema sócio-cultural, uma espécie de “xingamento” partidário.

Fora desse contexto político, a direção artística é belíssima, como da maioria das
produções da Globo. O diretor artístico, Carlos Manga Jr, é muito respeitoso ao
retratar com tanta precisão uma região tão importante do nosso país, com uma
fotografia implacável do estado do Amazonas e cenas belíssimas do dia a dia da
região (mesmo a história se passando na cidade fictícia de Cari), com muitos
planos aéreos que englobam a floresta, o rio, mas também expõe as áreas de
desmatamento.

O descaso com o entretenimento

Queria
poder falar só dessa importância política que a série carrega, afinal, estamos
vivendo um período em que tudo parece está dividido em dois lados: esquerda x
direita. Porém, não podemos achar que criticar é estar contra. É preciso
apontar os erros, as divergências, e Aruanas desacerta em muitos pontos.

Falei aqui da importância de ter protagonistas mulheres, mas apesar dessa escolha oportuna no âmbito político, com relação ao enredo acaba desequilibrando, criando situações clichês e previsíveis para as personagens. O maior exemplo disso é talvez o (totalmente desnecessário) triângulo amoroso, que deve ter sido briga na sala de roteiristas. Essa escolha para a trama pessoal de Natalie e Verônica só reforça os velhos estigmas da disputa entre mulheres, sem contar que Verônica no quesito drama pessoal, fica reduzida a isso.

A personagem de Clara também poderia ser muito melhor trabalhada, lidar com o drama da mulher jovem, mas acaba quase apagada e com subtramas que se misturam e não se resolvem. Porém, talvez a pior falha do enredo, é a personagem de Camila Pitanga, que apesar de sempre dar um show de atuação, é enquadrada como a típica femme fatale: mulher forte, sagaz, sensual e independente, mas má, fria, sem sentimentos, e sexualmente livre. Diferente do vilão Miguel, em que vemos suas várias camadas e que conseguimos ver nele pessoas reais, e que problematizam uma questão política (os donos de mineradora, por exemplo), a lobista Olga (Camila Pitanga), além de ter pouco tempo de tela, se apresenta como uma pessoa misteriosa, mas nada traz de novo e nada traz de complexidade a história. Uma pena!

As atuações são de peso, atrizes muito competentes, mas que por conta desses furos e mesmices no roteiro impedem que a gente se identifique mais com a história. Não é questão de não ser melodramático ou novelístico, é como se faz uso dessa estética, e no caso de Aruanas, é reforçando estigmas, padrões, que na verdade exercem o efeito contrário, ao invés de provocar sentimentos e sensações, deixam a história sem graça e forçada.

Outro ponto super problemático é a forma que retratam a questão indígena. Tá certo que vivemos num mundo onde ainda é mais fácil aceitar produções como Green Book que Infiltrado na Klan, só que já tá cansativo ver brancos do bem “salvando” índios, negros, comunidades. No caso da série, entende-se que não é por má fé, mas uma falta de esforço mesmo. No fim, temos uma representação leiga dos índios e a exposição deles como passivos, indefesos, que precisam dos brancos bons para lutarem por eles. Ora, no contexto atual que já temos condições de ter acesso a outras narrativas, o quanto temos visto nas mídias líderes indígenas falando na ONU, mulheres indígenas que estão lutando em várias frentes por suas terras? Acho muito descuido trazer essa questão e não buscar uma referência especial.

Se a justificativa é que assim atrai mais público, porque o horário de exibição foi tão tarde? Esse é o princípio ilógico da defesa dos produtos mainstream. Será que não há uma junção inteligente, tanto estética quanto de consumo, de política e entretenimento? O resumo simplório sobre essa obra pode ser coloquial: a ideia é boa e importante, infelizmente não colou tanto assim.

Confira o trailer, os 10 episódios estão disponíveis na Globoplay :

2 Comentários

2 respostas para “Br em Série: Aruanas, o entretenimento e a urgência de tratar do ativismo ambiental”

  1. […] indicação temos ainda a série Aruanas que está passando a noite (o qual eu já escrevi um texto pro site), vale a pena conferir (autopropaganda […]

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