Maratone como uma Garota!: Tabus, liberdade e sexualidade feminina em Sex Education

Sex Education é muito mais do que pode parecer! A comédia dramática britânica, que está entre as queridinhas do público, se passa em um colégio cheio de adolescentes e tem como tema central: Sexo! Na infinidade de clichês que poderia emergir daí, a série, criada por Laurie Nunn, surpreende pela lucidez com que aborda temas e tabus que a maioria dos jovens vive, viveu ou vai viver um dia. A diversidade de questões apresentadas, como homossexualidade, aborto, sororidade, masturbação feminina, orgasmo e virgindade, bem como a complexidade na construção das personagens, são alguns dos trunfos. A Maratone como uma garota! de hoje vai discutir a importância de se abordar a sexualidade feminina e a liberdade sexual das mulheres em produtos para um público mais jovem.

 

O enredo centra-se em Otis (Asa Butterfield), típico adolescente nerd de 16 anos, que é um grande conhecedor de sexo, só que na teoria! Ele é filho da terapeuta sexual Jean (Gillian Anderson), com quem tem uma relação próxima, mas um tanto complexa. Otis, que além de virgem tem problemas para se masturbar, entra em uma sociedade com Maeve (Emma Mackey), após dar conselhos sexuais ao valentão do colégio. Maeve propõe que Otis seja um consultor sexual em troca de dinheiro. É nesse consultório “clandestino” que começam a emergir reflexões, dúvidas e situações inusitadas que envolvem sexo, jovens e relacionamentos. A virgindade, por exemplo, é abordada de modo cômico, mas sempre trazendo a reflexão: por que o sexo é tão importante (ou não) para cada um?

 

 

Maeve tem o protagonismo feminino na série. Sua (im)popularidade se deu por boatos envolvendo sua intimidade sexual. Apresentando-se como rebelde e anti social, a personagem é uma das mais bem desenvolvidas e ricas. A segurança com que lida com a própria liberdade sexual demonstra não só maturidade pessoal, mas conhecimento teórico e histórico sobre feminismos e literatura, mostrando como somos multifacetados e rompendo com certa tendência de reduzir as mulheres a certos estereótipos limitantes (a “nerd feia”, a “gostosa popular”, a “loira burra”, e quantos mais se lembrar). Além da amizade secreta com a popular Aimee Gibbs (Aimee Lou Wood), tem uma relação casual com Jackson (Kedar Williams-Stirling), o rapaz mais popular do colégio, que está apaixonado por ela. *SPOILER ALERT*. O drama da gravidez na adolescência é um tema delicado, especialmente quando envolve a escolha pessoal de optar por interrompê-la. A escolha do aborto é retratada de modo direto, sem julgamentos morais e sem diminuir a complexidade do ato, com uma lucidez que merece reconhecimento.

Sororidade, aquela palavrinha que vira e mexe aparece por aí, e que já abordamos em outras colunas, marca grandes momentos na série. A “união entre mulheres”, como se define, ganhou contornos bem significativos na trama. Maeve e Allison, por exemplo, pertencentes a mundos completamente diferentes, não só compartilham confidências, mas respeitam a individualidade, fortalecem e incentivam uma a outra. Isso é fundamental para que as adolescentes vejam as diferenças por uma ótica mais celebrativa e inclusiva. Allison, que sempre se esforça em agradar os parceiros, busca ajuda com Otis para tentar descobrir o que de fato lhe agradaria sexualmente e a orientação que recebe é bem simples, mas um dos maiores tabus dos séculos –*SPOILER ALERT*: a masturbação feminina. A prática não só ajudou-a a conhecer seus prazeres e preferências, mas a si mesma, tornando-a mais segura em suas ações. Muitas mulheres não conhecem o próprio corpo (como Maeve, que não localizou o hímen no desenho educativo) e isso é parte de um sistema de violência de gênero educacional.

 

 

O ponto alto de como a sororidade pode ser revolucionária vem quando o vazamento de uma foto íntima de uma garota e a chantagem sexual gera um clima de tensão no colégio.  *SPOILER ALERT* O desfecho é uma mobilização coletiva para enfraquecer a ameaça masculina de revelar a identidade da garota da foto. “It’s my vagina!” (ou: a vagina é minha!) começa a ecoar no auditório, por todos os cantos. Não importava de fato quem fosse a vítima, se amiga ou não, conhecida ou não, o patriarcado jamais pode ameaçar e violentar uma mulher e sair impune, então, a vagina é de todas nós!

Há um pequeno espaço também para pensarmos as relações entre casais lésbicos. Se no mundo em que a heteronormatividade reina já não se discute tanto a sexualidade das mulheres nas relações heteroafetivas, a invisibilidade da lesbiandade é nítida. Um exemplo é como, durante as aulas de educação sexual (na série), os alunos são sempre ensinados a utilizar o preservativo masculino. Como encontrar prazer e segurança para se relacionar com outra mulher se crescemos em um mundo em que se condena tal ato? Outra personagem marcante é Ola (Patricia Allison), cuja personalidade forte a faz romper vários padrões de gênero, como convidar o Otis para o baile e usar terno e gravata, levar e buscar o pai no trabalho.

 

 

Ainda que o centro da série seja os adolescentes e seus dramas sexuais, Jean, a real terapeuta sexual, tem seus momentos de roubar a cena. Mãe liberal, com sexualidade livre e abertura para todo tipo de conversa, ela não deixa de ter uma relação confusa com o filho, assim como também tem suas próprias dificuldades e entraves com relacionamentos. A personagem, porém, tem uma aparição que deixa um gosto de quero mais. Sex Education ainda rende muito mais discussões e essa temporada terminou deixando o público ansioso para a continuação, ainda que não esteja confirmada. Se tomarmos os produtos culturais massivos como grandes formadores de opinião, podemos comemorar a popularidade dessa série, pois precisamos tratar a sexualidade com mais naturalidade e menos tabus.

 

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

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