Crítica Ratched – 1ª Temporada

 

por Enoe Lopes Pontes

 

Cores, enquadramentos, criação de suspensão, controle narrativo. São muitos elementos que fazem a primeira temporada de Ratched bem sucedida. A começar pela maneira como a clara inspiração nos filmes do diretor Alfred Hitchcock sçao transposta para a execução da obra. Há uma reapropriação de linguagem na utilização da técnica para contar esta história, que se passa nos anos 1950. A estratégia é realizada sem deixar que o tom de contemporaneidade se perca, conseguindo evocar e avançar em discussões que ainda estavam emperradas na obra de Ryan Murphy (Glee), como a lesbianidade e a representação lésbica. Ao lado de Evan Romansky (Starstuck), um meticuloso universo ficcional é construído, juntamente com uma atmosfera de tensão que consegue ser mantida e, inclusive, estendida até o último episódio.

A escrita parece desejar trazer a humanização de suas personagens lentamente, possuindo, em seu início, figuras distanciadas, que vão revelando seus passados como marcas que ficaram em suas personalidades, progressivamente. Enquanto, o estabelecimento das relações e os acontecimentos do outrora vão sendo descortinados, outros elementos técnicos fomentam a atmosfera de suspensão que a dupla passa. A começar pelas escolhas de tonalidades pela arte, figurino e fotografia. O verde, que impregna a tela, principalmente até a sua metade, captura a gana e os jogos de poder postos em cena. Aos poucos, o amarelo vai tomando conta de maneira mais incisiva e chega como um anúncio de possível fragilidade de quem o traja ou é iluminado por esta cor. Ainda assim, Ratched está constantemente lembrando que não há espaço para calor ou ingenuidade nesta realidade, por isso também a tensão se eleva, a partir destas pistas. Quem estará usando uma roupa esverdeada? E amarelada? Será a próxima assassinada por isso ou irá contar um segredo? Quem assiste se transforma um pouco em investigador por conta disto.

 

Netflix drops trailer for Ryan Murphy's Nurse 'Ratched' origin story

 

A decupagem também contribui para a instalação climática, tensionando os espaços nas quais as personagens estão inseridas ou trazendo o olhar para as emoções reveladas no enredo. É aí que o principal sinal de uma forte inspiração nos filmes do cineasta Alfred Hitchcock pode ser apontado. Há um equilíbrio entre o fantástico e o real, feitos através dos planos e da montagem. Eles instalam uma atmosfera e a direção conduz a produção de maneira inventiva. Um exemplo forte é a sequência na qual o espectador finalmente descobre o que ocorreu com Mildred em sua infância. Com o uso do split srcreen, o espectador vê uma encenação de marionetes de um lado e, do outro, as reações de Mildred aos acontecimentos encenados. Juntamente com este artifício, a complexidade da cena é intensificada, pelos risos da plateia, que se diverte com os fantoches, misturadas com as lágrimas de Ratched.

E se movimentação, sensações misturadas e sons diversos colocaram os sentimentos de Mildred expostos, logo em seguida, tem-se a utilização da técnica indo em uma dinâmica completamente distinta, mas que causa um efeito similar. Com a câmera parada, em um plano médio, Mildred Ratched conta para a sua futura namorada, Gwendolyn (Cynthia Nixon), a história de sua vida. Por quase dois minutos, é possível somente ver o rosto de Sarah Paulson, centralizada na tela. Usando um L Cut, a reação de Gwendoly é mostrada, fazendo com que a angústia de quem assiste cresça, bem como trazendo o relacionamento da dupla para um outro nível de confiança. Este exemplo ilustra como há uma vontade da equipe da série de criar suspensão de múltiplas maneiras, seja por aumento ou diminuição de efeitos, trabalhando com as velocidades dos cortes, tonalidades textuais e de sons.

 

Sarah Paulson diz por que a enfermeira Ratched não é "totalmente má"

 

Contudo, ainda sobre a forte inspiração no cinema de Hitchcock, é possível salientar traços da figurinista Edith Head no trabalho de Lou Eyrich (Pose) e Rebecca Guzzi (American Horror Story). Sejam nos cortes dos tecidos, nos swing back coats, nos chapéus ou nos sapatos, o clima de suspense dos anos 1940 é transportado para o ecrã através destes trajes. Na sequência em que Mildred encontra Betsy (Judy Davis) em seu quarto, a porta abre e a protagonista está usando um vestido amarelo de capuz, o que acaba rementendo a fuga, os seus conflitos internos e a sua posição de vulnerabilidade, tudo transporto para a sua vestimenta e passado em poucos segundos.

Por fim, é preciso salientar as construções das personagens femininas, feitas pelas intérpretes Sarah Paulson (American Crime Story), Cythia Nixon (Sexy and the City), Judy Davis (Feud), Sharon Stone (The New Pope) e Sophie Okonedo (Doctor Who). A começar pela maneira como foi feita a relação de Mildred e Gwendolyn por Paulson e Nixon. Os gestos contidos que vão se expandindo a medida que o enredo a avança e a conexão de pensamento das duas, feita através dos olhares, é a marca principal aqui.

 

Who plays Charlotte Wells in the 'Ratched' Netflix Original? -  Entertainment Overdose

 

Obviamente, o fato das duas serem mulheres LGBTQ+ trouxe atenção aos detalhes de como realmente é um envolvimento homoafetivo feminino. Evidentemente, intérpretes não precisam ter vivenciado algo para conseguir expressar as emoções de suas personagens, mas, como a própria Sarah contou, em um vídeo de divulgação feito pela Netflix, este fato fez com que diversas cenas fossem discutidas pelas duas, para que um resultado mais representativo para a comunidade fosse apresentando e esta visão delas fica clara na narrativa.

Seria possível escrever um texto apenas para falar de Davis, Stone e Okonedo. No entanto, resumidamente, é possível dizer que as três possuem as atuações mais fortes do elenco. São nas pausas preenchidas de movimento, nos diálogos intensos com expressões faciais misteriosas, no domínio corporal e na habilidade de se locomover na frente da câmera que as atrizes conferem nuances para seus papéis.

NOTA: 

 

Séries em Pauta: Vencedores Emmy 2020

Por Enoe Lopes Pontes

Neste domingo, 20, a academia anunciou os vencedores do 72º Emmy Awards. Com apresentação de Jimmy Kimmel, o público ficou sabendo os ganhadores de cada categoria através de ações já tradicionais e outras um tanto novas. Devido à pandemia do novo Coronavírus, a cerimônia aconteceu com os indicados todos em suas casas e com poucos artistas no estúdios ao vivo. Sem platéia, as palmas eram claques e os espectadores figuras de atrizes e atores de papelão.

Na entrega, algumas séries foram grandes destaques, como foi o caso da canadense Schitt’s Creek, que levou todos os troféus da categoria de comédia. Nos seriados de drama, duas produções chamaram a atenção: Watchmen e Succession, que contabilizaram 11 e 5 vitórias, respectivamente. A grande surpresa do evento foi Zendaya como Melhor Atriz em Série de Drama, por seu papel em Euphoria. A intérprete entrou para história como a artista mais jovem a ganhar nesta categoria.

 

Confira agora todos os vencedores da noite:

 

Com cerimônia remota, Emmy 2020 tem 'Watchmen' como grande ganhador

 

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA

Christina Applegate (Disque Amiga para Matar)
Rachel Brosnahan (Marvelous Mrs. Maisel)
Linda Cardellini (Disque Amiga para Matar)
Catherine O’Hara (Schitt’s Creek) – VENCEDOR
Issa Rae (Insecure)
Tracee Ellis Ross (Black-ish)

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA

Curb Your Enthusiasm
Disque Amiga Para Matar
The Good Place
Insecure
O Método Kominsky
The Marvelous Mrs. Maisel
Schitt’s Creek – VENCEDOR
What We Do in the Shadows

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA

Anthony Anderson (Black-ish)
Don Cheadle (Black Monday)
Ted Danson (The Good Place)
Michael Douglas (O Método Kominsky)
Eugene Levy (Schitt’s Creek) – VENCEDOR
Ramy Yousseff (Ramy)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA

Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
D’Arcy Carden (The Good Place)
Betty Gilpin (GLOW)
Marin Hinkle (The Marvelous Mrs. Maisel)
Kate McKinnon (Saturday Night Live)
Annie Murphy (Schitt’s Creek) – VENCEDOR
Yvonne Orji (Insecure)
Cecily Strong (Saturday Night Live)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA

Mahershala Ali (Ramy)
Alan Arkin (O Método Kominsky)
William Jackson Harper (The Good Place)
Andre Braugher (Brooklyn Nine-Nine)
Sterling K. Brown (The Marvelous Mrs. Maisel)
Daniel Levy (Schitt’s Creek) – VENCEDOR
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)

MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE COMÉDIA

Gail Mancuso (Modern Family)
Ramy Youssef (Ramy)
Andrew Cividino e Daniel Levy (Schitt’s Creek) – VENCEDOR
Matt Shakman (The Great)
Amy Sherman-Palladino (The Marvelous Mrs. Maisel)
Daniel Palladino (The Marvelous Mrs. Maisel)
James Burrows (Will & Grace)

MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE COMÉDIA

Schitt’s Creek – “Happy Ending” – VENCEDOR
Schitt’s Creek – “The Presidential Suite”
The Good Place – “Whenever You’re Ready”
The Great – “The Great”
What We Do in the Shadows – “Collaboration”
What We Do in the Shadows – “Ghosts”
What We Do in the Shadows – “On The Run”

MELHOR SÉRIE DE DRAMA

Better Call Saul
The Crown
The Handmaid’s Tale
Killing Eve
The Mandalorian
Ozark
Stranger Things
Succession – VENCEDOR

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA

Jennifer Aniston (The Morning Show)
Olivia Colman (The Crown)
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Sandra Oh (Killing Eve)
Zendaya (Euphoria) – VENCEDOR

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA

Jason Bateman (Ozark)
Sterling K. Brown (This is Us)
Steve Carell (The Morning Show)
Brian Cox (Succession)
Billy Porter (Pose)
Jeremy Strong (Succession) – VENCEDOR

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA

Helena Bonham Carter (The Crown)
Laura Dern (Big Little Lies)
Julia Garner (Ozark) – VENCEDOR
Thandie Newton (Westworld)
Fiona Shaw (Killing Eve)
Sarah Snook (Succession)
Meryl Streep (Big Little Lies)
Samira Wiley (The Handmaid’s Tale)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA

Nicholas Braun (Succession)
Billy Crudup (The Morning Show) – VENCEDOR
Kieran Culkin (Succession)
Mark Duplass (The Morning Show)
Giancarlo Esposito (Better Call Saul)
Matthew Macfadyen (Succession)
Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
Jeffrey Wright (Westworld)

MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE DRAMA

Lesli Linka Glatter (Homeland)
Alik Sakharov (Ozark)
Ben Semanoff (Ozark)
Andrij Parekh (Succession) – VENCEDOR
Mark Mylod (Succession)
Benjamin Caron (The Crown)
Jessica Hobbs (The Crown)
Mimi Leder (The Morning Show)

MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE DRAMA

Better Call Saul – “Bad Choice Road”
Better Call Saul – “Bagman”
Ozark – “Boss Fight”
Ozark – “Fire Pink”
Ozark – “All In”
Succession – “This Is Not For Tears” – VENCEDOR
The Crown – “Aberfan”

MELHOR MINISSÉRIE

Little Fires Everywhere
Mrs. America
Inacreditável
Nada Ortodoxa
Watchmen – VENCEDOR

MELHOR FILME PARA A TV

American Son
Má Educação
Dolly Parton’s Heartstrings: These Old Bones
El Camino: A Breaking Bad Movie
Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU FILME PARA A TV

Cate Blanchett (Mrs. America)
Shira Haas (Nada Ortodoxa)
Regina King (Watchmen) – VENCEDOR
Octavia Spencer (A Vida e a História de Madam C.J. Walker)
Kerry Washington (Little Fire Everywhere)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU FILME PARA A TV

Jeremy Irons (Watchmen)
Hugh Jackman (Má Educação)
Paul Mescal (Normal People)
Jeremy Pope (Hollywood)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True) – VENCEDOR

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE OU FILME PARA A TV

Uzo Aduba (Mrs. America) – VENCEDOR
Toni Collette (Inacreditável)
Margo Martindale (Mrs. America)
Jean Smart (Watchmen)
Holland Taylor (Hollywood)
Tracey Ullman (Mrs. America)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE OU FILME PARA A TV

Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen) – VENCEDOR
Jovan Adepo (Watchmen)
Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend)
Louis Gossett Jr (Watchmen)
Dylan McDermott (Hollywood)
Jim Parsons (Hollywood)

MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE OU FILME PARA A TV

Lynn Shelton (Little Fires Everywhere)
Lenny Abrahamson (Normal People)
Maria Schrader (Nada Ortodoxa) – VENCEDOR
Nicole Kassell (Watchmen)
Steph Green (Watchmen)
Stephen Williams (Watchmen)

MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE OU FILME PARA A TV

Mrs. America – “Shirley”
Normal People – “Episode 3”
Inacreditável – “Episode 1”
Nada Ortodoxa – “Part 1”
Watchmen – “This Extraordinary Being” – VENCEDOR

MELHOR ANIMAÇÃO

Big Mouth
Bob’s Burgers
BoJack Horseman
Rick And Morty
The Simpsons

MELHOR TALK SHOW DE VARIEDADES

The Daily Show with Trevor Noah
Full Frontal With Samantha Bee
Jimmy Kimmel Live
Last Week Tonight with John Oliver – VENCEDOR
The Late Show With Stephen Colbert

MELHOR PROGRAMA DE COMPETIÇÃO

The Masked Singer
Nailed It!
RuPaul’s Drag Race – VENCEDOR
Top Chef
The Voice

CATEGORIAS TÉCNICAS

Melhor Elenco de Minissérie ou Filme para a TV: Watchmen
Melhor Ator Convidado em Série de Comédia: Eddie Murphy – SNL
Melhor Apresentação de Reality ou Programa de Competição – RuPaul – RuPaul’s Drag Race
Melhor Edição de Som em Minissérie ou Filme para TV: Watchmen
Melhor Maquiagem Contemporânea – Euphoria
Melhor Figurino Contemporâneo – Schitt’s Creek
Melhor Cabelo de Época: Hollywood
Melhor Trilha Sonora Original: The Mandalorian
Melhor Design de Abertura: Godfather of Harlem
Melhor Atriz Convidada em Série de Comédia: Maya Rudolph – SNL
Melhor Fotografia em Sitcom (uma hora): The Marvelous Mrs. Maisel
Melhor Edição de Sitcom de Comédia: Insecure
Melhor Ator Convidado em Série de Drama: Ron Cephas Jones – This is Us
Melhor Design de Produção em Série de Época ou Fantasia (uma hora): The Crown
Melhor Mixagem de Som em Série de Comédia ou Drama (uma hora): The Marvelous Mrs. Maisel
Melhor Coordenação de Dublês em Série de Drama, Minissérie ou Filme para TV: The Mandalorian
Melhor Interação em Série Linear: Mr. Robot – “Season_4.0 ARG”
Melhor Atriz Convidada em Série de Drama: Cherry Jones – Succession
Melhor Série Documental: Arremesso Final

Terror Em Série – Não pisque! Maratona de Terror Doctor Who!

 

A nova geração de uma das séries britânicas mais bem sucedidas na história televisiva, Doctor Who, trouxe uma nova leva de fãs, ou melhor, Whovians. Apaixonados pelo universo do viajante do tempo de Gallifrey, Whovian que é Whovian sempre quer aumentar o clã e apresentar a pluralidade temática, visual e narrativa do seriado.

Há uma quantidade expressiva de listas que indicam possíveis ordens para assistir Doctor Who ou por onde começar somente. Aqui, na nossa coluna, aproveitando que temos leitores que curtem terror, traremos uma lista com os episódios mais assustadores, protagonizados do nono doutor em diante. Sim, além de ser uma obra de ficção científica, ela também perpassa por outros gêneros e saiba que muitos dos melhores episódios são, justamente, os de terror.

Para não dar juízo de valor ou criar uma ordem que impõe um tom de hierarquia qualitativa, resolvi colocar os episódios por suas temporadas! Ah! E, tentei não colocar spoilers, mas, sempre sabemos que o conceito de spoiler termina sendo um pouco subjetivo para alguns. Então, atenção!

Preparados?

 

1 – THE EMPTY CHILD (01×09 – Doctor: Christopher Eccleston/ Companion: Rose):

 

 

Em meio a Segunda Guerra Mundial, o Doutor e sua companheira Rose (Billie Piper) estão em busca de um cilindro, mas, acabam encontrando criancinhas estranhas que usam máscara de gás. Essas criaturinhas ,que aparentam não ter personalidade ou até mesmo consciência, perguntam repetidas vezes para todos que encontram: “você é a minha mamãe?”

Além de perseguirem as pessoas com a suas vozes maquinais e assustadoras, todos previnem o Doutor para que ele não deixe que as menininhas e menininhos toquem nele. O episódio consegue estabelecer uma atmosfera de suspense, fazendo com que esses serzinhos assustadores surjam das sombras, dos lugares inesperados e também há uma progressão de urgência, a quantidade de crianças aumenta e o sentimento de repulsa e medo das mesmas se torna inevitável. Após a resolução do conflito, assumo que você pode se sentir culpado de querer jogá-las para o mais longe possível.

Acrescentando-se ao fato de ser bem realizado, existe um outro ponto positivo para conhecer a série a partir de Empty Child. É nele que conhecemos o capitão Jack Harkness (John Borrowman), ao lado de Rose e do Doutor, ele traz os momentos de alívio cômico, deixando o trio mais simpático e divertido.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=UxkaHcI7r18

 

2-  THE SATIN PIT (02X09 – Doctor: David Tennat/ Companion: Rose):

 

Continuação do episódio The Impossible Planet, Satin Pit mostra os encaminhamentos do mistério que assola uma nave. Talvez numa das tramas mais macabras já realizadas na série, vemos uma tripulação que está sendo possuída por uma entidade ou ser desconhecido denominado de A Besta. A trama traz uma representação demoníaca interessante, assumindo os poderes sobrenaturais do ser mostrado, mas, dando uma conotação quase científica para a figura do Santanás.

O que mais aterroriza na trana é que é possível ter a sensação de aprisionamento, já que o Doutor e sua companheira Rose estão sem seu dispositivo de viagem no tempo, a TARDIS. Logo, eles estão presos numa situação misteriosa, lutando, primeiramente, contra um ser ainda amorfo. Apesar de um acertado confronto final trazer questionamentos filosóficos e uma batalha discursiva entre o Doutor e o demônio, a visualização em forma de monstro, que conecta-se com a figura do imaginário coletivo, faz com que seja mais fácil lidar com o que dava mais medo na construção da ambientação de todo episódio: o inimigo não palpável, que não se sabe de onde vem.

Contudo, não deixa de valer a pena conferir, as certezas do Doutor, as tentativas de explicação práticas, caem por terra, mostrando um lado vulnerável do viajante temporal!

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Fr5cqfQJsbo

 

3-  BLINK (03×10 – Doctor: David Tennat/ Companion: Martha):

 

Um dos episódios mais aclamados de Doctor Who, Don’t Blink é uma unanimidade entre os fãs. Na trama onde só vemos os protagonistas quase que somente por fitas gravadas, temos Sally Sparrow, interpretada por Carey Mulligan, como personagem central da história.

O Doutor, preso em 1969, precisa impedir que os Weeping Angels tomem controle da TARDIS que está no mesmo ano que Sally, em 2007. O que mais assustas nessas criaturas, que são estátuas de anjos, é a maneira como agem rápido e, é claro, o fato que elas se movem toda vez que você pisca os olhos, se você não tomar cuidado, elas de transportam para outra época, sem ter como voltar para o período em que vive.

Como já ressaltei nos episódios citados acima, a série sabe trabalhar com o jogo entre horror/pavor e urgência, há uma maestria em cercar os envolvidos na trama, sem deixar muito espaço para esperança. Estou destacando esse fator porque em muitos episódios há uma atmosfera de segurança, sabemos que tudo vai ficar bem, que todos se salvarão. Mas, uma coisa que não existe quando falamos sobre esses seres alados de pedra é segurança.

Quanto mais os Wheeping Angels aparecem maiores são os danos causados por eles, pelo menos é a impressão que fica. Mais adiante, muitas outras histórias acontecem tendo-os como vilões e uma boa mitologia é criada. E deve-se admitir que estátuas pensantes que te transportam para outra época é algo muito assustador. O layout delas, por assim dizer, também não é visualmente agradável, mas há aqueles com coragem para comprar toy art dos Angels, coragem demais.

Eu posso apostar que depois de assistir Blink, você vai ver estátuas de uma outra forma. Eu, pelo menos, sempre confiro para ver se elas estão no mesmo lugar.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=o8ls2oHq8Bw

 

4 – SILENCE IN THE LIBRARY (04×08 – Doctor: David Tennat Companion: Donna):

 

No episódio onde somos apresentados à River Song, uma personagem que se mostrará espetacular e cheia de mistérios particulares que vão se desenvolver por muitas outras temporadas, temos tudo que há de mais especial neste seriado: uma ameaça invisível, predadora e que devasta tudo que há pela frente. Pode ser até um aparente gosto particular, mas, quando o Doutor não consegue explicar ou se ver vulnerável de fato em frente à um perigo, as coisas se tornam mais instigantes.

Dentro de uma biblioteca do tamanho de um planeta, vemos um clima de perigo eminente, onde o jogo de luz e sombras se torna fundamental para reforçar a ambientação terrorífica da história. Vashta Nerada é implacável, tira sua carne até os ossos instantaneamente e pode estar em qualquer lugar e entrar até nos trajes espaciais usados pela comitiva de River.

É interessante ver a paciência para construir a ideia de pânico entre as personagens e a calma de inicial de Song nos deixa mais próximos de um ponto de vista do Doutor que ainda não a conhece, mas, ela afirma que sabe muito sobre ele e tem um diário em forma de TARDIS. O suspense do episódio aumenta por estarmos todos desconfiados, assim como a personagem de Tennat. Eu poderia falar mais sobre a relação dos dois, mas, seria spoiler!

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=htLVk1eFQVE

 

5- THE VAMPIRES OF VENICE (05×06 – Doctor: Matt Smith/ Companions: Amy Pond e Roy Williams):

 

 

Após a saída de Russell T. Jones como produtor executivo e de Tennat como o Doutor, vemos uma outra atmosfera que se instala com a entrada de Steven Moffat e Matt Smith. Certa prioridade em tramas interplanetárias e mais voltadas à ficção científica, dão lugar para uma mitologia mais cunhada no fantástico, principalmente, durante a era do décimo primeiro viajante no tempo.

Neste episódio – que trabalha bem a tríade Doutor, Amy e Roy e suas relações – vemos um clima que remete ao Drácula, de Fracis Ford Coppola, um pouco menos sombrio, de certa maneira. Como diz em seu título, a história se passa em Veneza, na época da Peste e tem em suas locações, direção de arte e figurino o verdadeiro potencial de nos levar junto nessa viagem temporal.

Em The Vampires of Venice há algo que, sempre que se repete no seriado, deve-se dar valor, eles conseguem explicar figuras do imaginário fantástico quase sempre como criaturas alienígenas que têm algum desejo de tomar, possuir e/ou destruir o planeta Terra. Ainda que na verossimilhança externa, ou seja, em nossa realidade, pareça ainda fantástico, no universo de Doctor Who termina sendo uma explicação científica, de compreensão lógica para nosso detetive interplanetário.

Smith também traz um frescor jovial ao personagem que agora tem mais facilidade de escalar prédio e lutar de maneira mais incisiva, deixando esse episódio um dos mais divertidos de sua temporada.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=doATg3A74-s

 

6 – NIGHT OF TERROS (06×09 – Doctor: Matt Smith/ Companions: Amy Pond e Roy Williams):

 

Os primeiros medos, que atormentam todos nós durante a infância, são explorados nesse episódio que sai um pouco da curva e traz respiro para a sexta temporada de Doctor Who. Num ritmo menos apressado, desenvolvendo sua trama com paciência e, pode-se dizer que, até certo sadismo, Night of Terrors mostra o trio ajudando um garoto de oito anos que tem medo de quase tudo. Enquanto o Doctor tenta ajuda-lo, Amy e Roy ficam presos rodeados de bonecos nada fofos.

Nessa história é o não acontecer, os silêncios que permeiam os ambientes que reforçam o absoluto terror da situação vivida pelos protagonistas. Como crianças que todos nós fomos um dia, eles ficam, de certa forma, receosos, tateando no escuro, esperando os fantasmas saírem das sombras, dos armários, debaixo da cama. A empatia de quem já teve algum medo parecido pode ser imediata e a lentidão do desenvolvimento do arco colabora para a sensação de pânico empático, vamos assim dizer.

Claro que, por ter esse ritmo específico, pode não agradar aqueles que preferem episódios mais voltados para aventuras, como o anterior, por exemplo. O que acredito é que, por já ser um produto consolidado, o seriado tem o privilégio de explorar gêneros e maneiras novas de abordar o cotidiano do Doutor e de seus companheiros. Para quem é mais paciente e não fica no furor de maratonar ou acabar tudo de uma vez só, resta saborear essa história que joga com o subconsciente do espectador e com aquele desejo que desperta já quando somos adultos e ouvimos algum barulho misterioso: “não deve ser nada”, repetimos e aqui a gente tem plena convicção de que sim, há algum ser ou seres muito (s) macabro (s).

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=tXAsB5zn6TI

 

7 – HIDE (07×09 –  Doctor: Matt Smith/ Companion: Clara Oswald)

 

 

O que estava faltando nessa lista, dentro do imaginário das histórias de terror, aparece neste episódio: fantasmas. Apesar de poder despertar um certo estranhamento, por trazer um estilo visual um pouco diferente do que o costumeiro, o diretor Jaime Payne consegue criar um microuniverso visual com seu olhar criativo.

Há uma decupagem, certamente, muito característica do horror, que presa por cortes rápidos e planos médios de aparentes vultos que passam atrás dos mocinhos, mas, há também uma liberdade de movimentação de câmera e escolha de enquadramentos que traz deste episódio em diante uma busca por esse olhar de diretor. Depois de Hide, nota-se uma interferência de tentar sair do lugar comum para traduzir em imagens os sentimentos das personagens.

Claro que, desde a entrada de Moffat, houve um cuidado de arte e direção, não direi maiores, mas, mostrando uma particularidade de cada episódio, trazendo estéticas menos genéricas e marcando a singularidade de cada trama.

Este é um episódio que até o Doctor assume que está com medo, da empolgação como se estivesse num filme de Ghost Busters até o verdadeiro pavor e incerteza, passeamos por uma mansão repleta de cenários especialmente aterrorizantes. Há na narrativa uma proximidade com o lugar comum, com já conhecidas histórias de mistério, mas aqui, vê-se a utilização da mesma com plena consciência de que há uma mistura entre pastiche e homenagem para, no fim dos acontecimentos, tentar fugir do desenlace esperado.

Hide é tão cool e pode fazer o espectador imergir tanto na trama que talvez haja a chance de esquecer que nele há a sem graça Clara Oswald.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=0C8io51oTAo

 

8 – LISTEN (08×04 – Doctor: Peter Capaldi/ Companion: Clara Oswald):

 

Ok…esse episódio também tem fantasma e também tem a Clara Oswald. Talvez, para ter um punch a mais, realmente, só com seres etéreos e, claro, a combinação Capaldi+Oswald já é melhor do que Smith+Oswald.

De qualquer maneira, vamos lá. As temporadas estreladas pelo décimo segundo doutor têm um teor muito mais próximo às criaturas alienígenas ou histórias de naves, mais ligadas à ficção científica clássica. Aos poucos, isso vai mudando até o fim do seu ciclo, contudo, no geral, é bem por aí. Por isso, Listen se destaca dentre as tramas capaldianas e desperta na memória aquela sensação de perigo e urgência vista somente no tempo onde Tennat era estrela ou, no máximo, quando os Wheeping Angels apareciam.

Novamente jogando com os medos da infância, a história nos faz questionar: e se nunca tivermos estado sós no mundo? E se esses seres estivessem nos acompanhando e ficassem embaixo da cama aguardando pela oportunidade de puxar nossos pés de noite. O destaque de episódio vai para a construção narrativa e o despertar do medo através daquilo que não vemos ou que vemos em pedaços, em fragmentos que traduzem pesadelos, que remetem aos sonhos mais sombrios cravados no imaginário coletivo. “Não olhe”, diz o Doctor e tudo o que queremos é olhar, numa mistura de pânico e curiosidade, na sensação que essa história pode nos levar para um abismo, ainda que subconsciente.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=6MEHSCBYaHQ

 

9 – UNDER THE LAKE (09×03 – Doctor: Peter Capaldi/ Companion: Clara Oswald):

 

Terminando a trilogia fantasma feat. Clara Oswald, temos agora seres etéreos verdadeiramente assassinos. Com um visual mais humanizado, talvez até mais palpável, a ameaça vem de uma tripulação em perigo onde suas mortes alimentam cada vez mais o exército de mortos.

O mais interessante desta trama é a maneira como a compulsão por gerar novos fantasmas é explicada, mais uma vez trazendo um teor científico ao inexplorado. Quanto mais mortos, maior o sinal das coordenadas que estão sendo enviadas para uma igreja na cidade submersa. Outro destaque é o retorno dos Tivolians, criaturas que foram anteriormente mostradas na era do décimo primeiro doutor, no episódio Complexo de Deus.

Apesar de não trazer muitas novidades para o arco da temporada, vale como uma das aventuras despretensiosas do Doutor, desmembrando-se no episódio seguinte, Before the Flood. Para um Whovian, ainda há sempre o prazer de conhecer mais um pouco sobre os outros seres intergalácticos que habitam a enciclopédia de espécies do viajante no tempo.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=5msVQwu-xgk

 

10 – KNOCK KNOCK (10×04 – Doctor: Peter Capaldi/ Companion: Bil Potts e Nardole):

 

Voltando às aventuras mais emocionantes e que despertam aquele típico desespero de quem assiste Doctor Who, temos mais um elemento clássico de gênero: a casa que tem vida própria. Vejam bem, diferente de mansões mal-assombradas, onde há fantasmas e afins, aqui temos um local que é perigoso em si, onde as portas, paredes, tudo ao redor pode ser fonte de ataque.

O episódio lembra um pouco Playtest, de Black Mirror, principalmente pela direção de arte e paleta de cores da fotografia. As escolhas visuais estão atreladas aos elementos que irão provocar o terror, apresentando uma estrutura coesa que amarra a trama para dentro. Apesar de ser um lugar grande e supostamente espaçoso, seus corredores são, além de estreitos, povoados de móveis e prateleiras com livros, deixando o ambiente sufocante e repressor.

As paredes de madeira, que parecem que se partirão a qualquer momento, tem continuidade de cor com o chão, tudo no mesmo tom de marrom, formando quase que um quadrado sem saída, deixando pouco respiro. A luz corrobora com este possível sentimento, puxada para o âmbar, tendo como fontes abajures, tornando os lugares com uma aparência de pouca iluminação, trazendo uma imersão das personagens dentro do cenário, o que casa muito bem com a proposta da trama. É aquela casa onde as crianças criam histórias aterrorizantes e que dá a impressão de quem entra não sai mais dali. Muito se esconde entre luz e sombra nesse episódio que é exitoso em provocar repulsa ao mesmo tempo que certa ansiedade de ver o mistério sendo desvendado, a clássica, história de agonia.

 

Trailer:  https://www.youtube.com/watch?v=5y-h6_HLyec

 

11-  KERBLAM (11×07 – Doctor: Jodie Whittaker/ Companions: Yasmin, Graham e Ryan):

 

Há muito a ser explorado no que se diz respeito ao medo quando falamos em seres inanimados com vida. Diferente dos Daleks ou Cybermans, os TeamMeats tem um aspecto que deveria ser amigável, contudo, é esse sorriso feliz e robótico que os deixa ainda mais assustadores.

Neste episódio, vemos um crescimento da temporada que é bastante irregular, tirando “Rosa”, até então, vê-se uma falta de rumo e uma quantidade de conflitos, tanto de vilões quanto dos companions que não é possível dar conta em um pouco mais de quarenta minutos, deixando tudo um pouco desinteressante. Por isso, Kerblam traz certo frescor, voltando a se focar em um conflito somente e que pode envolver o público nessa história que une bem terror, ficção científica e narrativa de detetive.

Como o TeamMeats são iluminados, os ambientes escuros ressaltam suas presenças, dando um ar de demoníaco aos bonecos robôs. A trilha de caixinha surpresa também reforça a doçura simpática aterrorizante que parece ter certo poder onipresente. Apesar da premissa meio Skynet aparentar não ser muito inovadora, é na simplicidade narrativa que esse episódio se faz, retornando à trama de uma só locação, do perigo que se mostra como impossível de lutar contra, um clássico Whoviano.

 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=5hQl17qHHuw

 

 

 

 

 

 

 

 

Inglês pelo mundo das séries: Qual a melhor série para aprender inglês? PANAM!

 

Quando eu comecei a estudar inglês eu estava assistindo a série Grey’s Anatomy e me sentia culpada por não estar dedicando esse tempo ao inglês (e vocês bem sabem que os episódios de Grey’s são enormes e a série é eterna!). Então decidi que, já que iria passar tanto tempo vendo Grey’s, ao menos iria ver a série com o áudio original. Isso mesmo, eu vi Grey’s Anatomy em inglês! Na época meu inglês era intermediário, então eu entendia a história muito pelo contexto. Aqui vai a minha dica de inglês pelo mundo das séries de hoje: assista aquilo que você gosta! E não se culpe como se estivesse “perdendo tempo”, se você assiste aquilo que gosta, com certeza vai escutar/ler com muito mais entusiasmo e atenção do que uma série chata qualquer (foi mal aí, amantes de Friends).  Assistindo aquilo que você realmente gosta, vai estar aprendendo muito mais . Vai por mim!

 

 

Quando eu disse que a melhor série pra aprender inglês é PANAM, é porque realmente é uma série interessante e que é ótima pra expandir o vocabulário! “Landing card”, “Buckle up”, “jumpseat”*… São todos termos da aviação e que você provavelmente não vai aprender em seu cursinho de inglês, mas imagina que você vai pra uma viagem internacional e quando a comissária te pergunta se você precisa de um landing card (cartão de desembarque) você não fizer a menor ideia do que ela está te perguntando?! Lembro que eu assistia Grey’s e ficava pensando “Gesuix! Eu não tenho nada a ver com a área médica! Pra que estou aprendendo essas palavras?!”… até o dia em que trabalhando como guia de turismo num museu, um turista me perguntou como foi o processo de restauração de determinado quadro e eu tive que explicar (em inglês!) que o restaurador tinha usado um scalpel* pra remover as camadas de tinta antiga. Ai de mim, se não fossem todas as temporadas de Meredith Grey em minha vida! Então não se preocupe se a série que você escolher pra praticar o inglês for muito distante da sua realidade:  quanto mais contato com a língua, melhor!

 

Se você não é da área da aviação (ou mesmo se for), talvez você nunca tenha ouvido falar dessa série. PANAM teve uma breve existência, foram apenas 14 episódios acompanhando o dia a dia de um grupo de comissárias de voo/tripulantes  (esse o nome mais apropriado galera! Esqueçam “aeromoça”) que trabalham para a cia aérea PANAM. A companhia para quem não sabe, existiu na vida real!!!  A Pan American World Air Ways voou entre os anos de 1930-1990, sendo a maior dos Estados Unidos e uma das mais importantes do mundo até os dias de hoje. Quem assistiu o filme “Neerja- O poder da coragem”* já pode imaginar quantas histórias as personagens dessa trama tem pra contar!

*O filme é baseado na história real da comissária Neerja, que impediu o voo 73 da PANAM airways de um sequestro.

“-Maggie? This is Bill from Pan Am scheduling. Can you volunteer for a special flight last-minute (…) We’re missing our lead stewardess on our New York-London . Can you come and be our purser?

-Did you know I was grounded? Uniform violation.

-Not if you can get here in 35 minutes.

 

-Maggie? Aqui é Bill do setor de agendamento da Pan Am. Você pode se voluntariar pra um voo especial de última hora? (…) Estamos sem nossa comissária supervisora pra o voo Nova York- Londres. Você pode vir e ser nossa supervisora?

-Você sabe que eu estou “fora de escala”. Cometi uma violação nas regras de uso do uniforme.

-Não se você conseguir chegar aqui em 35 minutos”

 

 

Assim começa a história de Maggie, Colete, Kate e Laura, comissárias que ao lado dos pilotos Dean e Ted, voam pelo mundo passando por altas aventuras em Paris, Indonésia, Alemanha…e até Brasil! Apesar das referências imagéticas desses lugares estarem representadas  na série, pra nós brasileiros, e principalmente para os cariocas,  fica muito fácil reconhecer as montagens que colocam o Cristo Redentor, com uma praia logo abaixo rsrs. Eu sei, falando assim parece bem tosco (e é!), as cidades pra onde elas viajam, (sobretudo as fora da rota EUA-Europa) ficaram bem estereotipadas. Além disso, eles colocam uns atores que são obviamente americanos pra falar português (?)…Isso realmente é meio frustrante, mas chega a ser até engraçado se você levar pro lado trash da coisa. O mesmo ocorre com as outras locações, porque apesar de na trama as personagens darem a volta ao mundo, as atrizes nunca saíram do set de filmagens, diferente de Sense 8 que falei aqui no mês passado, as cenas de PANAM foram todas feitas em estúdio. De modo geral, ainda dá pra ter um panorama ok dos lugares, caso você não os conheça pessoalmente. A trama que guia as viagens, trás além de romance, várias aventuras:  incluindo desde alguns perrengues simples de quem está viajando pra um país como turista, a tretas internacionais de uma comissária que resolve agir como espiã (a série acontece bem no período da Guerra Fria!).

 

Pan Am: Foto Karine Vanasse, Kelli Garner, Margot Robbie, Michael Mosley -  19 no 23 - AdoroCinema

 

Nem só de glamour e viagens maravilhosas vivem as comissárias de voo e isso é uma das coisas que eu, como ex comissária de voo, achei bem importante que a série tenha retratado. O dia a dia das personagens, também mostra o quanto a profissão era afetada pelo meio social misógino de 1963. A personagem Maggie durante em sua entrevista de emprego para a companhia, cita como ponto positivo em seu currículo que ela tenha feito curso de modelo (o que evidencia o quanto aquelas profissionais eram vistas apenas como uma fachada de marketing, como se somente sua imagem fosse relevante para atrair e entreter os passageiros do sexo masculino, como se tivessem importância alguma para o bom funcionamento do voo ou segurança dos passageiros). Mas quando acontece uma situação de emergência de saúde a bordo, e todos passaram por momentos de sufoco ao lidar com habitantes de um país em guerra civil, foram as comissárias Colete e Laura que exerceram o papel diplomata de fazer as negociações e conseguir atendimento médico necessário para o passageiro em questão; função que foi valorizada pela personagem Maggie no papel de supervisora evidenciando para nós, que em geral estamos na posição de passageiros, a importância dessas profissionais para além de servir o cafezinho. E aí, animou pra embarcar com a tripulação da PANAM? Buckle up! Chamado para aventuras!

 

*Buckle up– apertar os cintos

Jumpseat– banco (designado para as comissárias)

 

**Luane Souto é graduanda em letras com inglês, pela Universidade Federal da Bahia, é ex-comissária de bordo e atriz.

 

Crítica: Entre altos e baixos, “Forever” entrega uma temporada coesa

Caminhando para uma jornada totalmente oposta a do herói, a protagonista de Forever, June (Maya Rudolph), começa extremamente infeliz dentro da história e anda em direção da sua felicidade, posteriormente. Mais do que isso, ela parece demonstrar estar paralisada diante de todo o fracasso que foi e tem sido sua vida. Ela atribui estas sensações e derrotas ao seu casamento com Oscar (Fred Armisen). Toda esta estrutura é posta no piloto da série, que já ambienta ali, de forma bastante eficaz e direta, o cotidiano do casal.

Criado por Matt Hubbard (The Stones) e Alan Yang (Master of None) e produzida pela Prime Video,  o seriado consegue imprimir estilisticamente as sensações vividas pelas personagens. Através de cores predominantemente amarronzadas e pastéis e de planos fixos de situações repetidas há uma atmosfera de tédio estabelecida. Contudo, isto não é um elemento que afeta a dinâmica da obra e a deixa enfadonha. O fator central disto é a quantidade de plot twists existentes, principalmente nos três primeiros episódios.

Durante este período da trama os sustos e surpresas são tão fortes que o espectador pode passar a temporada inteira tenso, esperando a próxima reviravolta. Nesta mescla de suspensão ão e melancolia, a progressão de June é posta. A cada momento ela vai se descobrindo e compreendo suas próprias necessidades. A maneira como foi escrita é o principal ponto de qualidade. Existe uma complexidade nela, desde a sua maneira de expressar seus pensamentos até as ações que performa. No entanto, a atuação de Rudolph acrescenta mais camadas para June.

 

Forever' Finale Explained: Alan Yang Talks Big Twist, Potential ...

 

Através de seu processo de criação, ela entregou uma figura extremamente transparente em suas emoções, porém com movimentos muito pequenos, seja no rosto ou no corpo inteiro. O tom da sua voz, geralmente, não casa com o que ela está dizendo e demonstrando nas suas expressões. Este comportamento vai, gradativamente, mudando e a intérprete vai revelando outros tipos de movimentos e deixando que exista uma unidade entre o que June quer dizer e diz.

Apesar de possuir bons atores e conseguir criar esta vontade de maratonar, por apresentar um clima de possíveis novas ocorrências o tempo inteiro, Forever tem dois problemas que incomodam intensamente. O primeiro é a existência do 1×06, momento da produção que parece mais um filler do que qualquer outra coisa. Ele pouco traz para o enredo em si e está ali muito mais para reforçar algo que já foi compreendido bem antes na projeção: a questão de aproveitar as chances que o destino oferece antes que seja tarde. O que acaba sendo um tanto repetitivo. Ainda há o fator de duas novas figuras serem introduzidas (Andre e Sarah), para logo depois serem descartadas.

Outra questão que deixa a desejar é a construção da relação de June e Kase (Catherine Keener). Ao mesmo tempo que as duas parecem namoradas, após o distanciamento de June e Oscar, o relacionamento da dupla tem uma crescente que é interrompida por uma suposta dúvida de June que, na verdade, soa como uma confusão dos próprios roteiristas. Eles colocam elas dentro de piadas sobre lésbicas, por exemplo, o que faz se pensar até onde aquilo é posto no texto apenas para ser um mero conflito e ganchos para pinceladas cômicas.

Ainda assim, no geral, Forever entrega um resultado equilibrado, quase mediano, porém um pouquinho acima da média. Isto se deve à dinâmica de Rudolph com Armisen, que jogam através dos diálogos, fazendo com que as cenas sejam mais instigantes, por conseguirem deixar o tom cotidiano e distanciado ao mesmo tempo. A expectativa do próximo plot twist também segura quem assiste a continuar interessado na narrativa.

 

Comédia em Série: Por que, onde e como assistir Seinfeld?

Porque assistir: A série sobre nada

Qualquer fã de sitcom que se preze já viu ou, pelo menos, ouviu falar em Seinfeld, tida por muitos como a maior série do gênero. Se você gosta de Friends, The Office, It’s Always Sunny in Philadelphia ou Broad City, saiba que todas elas devem alguma coisa a Seinfeld. O seriado surgiu no final da década de 80 e demorou para encontrar um público, até que em sua quarta temporada Jerry e George (Jason Alexander) tentam vender para a NBC uma produção sobre a vida de Jerry com seus amigos em Nova Iorque e a sinopse é “Uma série sobre nada”. Tirando sarro de si mesma, a frase ficou conhecida e nessa época a obra começou a ser reconhecida e assistida, se tornando febre nos Estados Unidos.

No começo dos anos 90, quatro amigos neuróticos conversando sobre qualquer coisa enquanto perambulam por Nova Iorque era algo novo. Até então as sitcoms eram focadas em famílias, como I love Lucy, ou locais de trabalho como Cheers, e todo final de episódio os personagens se reconciliavam ou seus problemas eram resolvidos. Larry David, co-criador da série, junto a Jerry Seinfeld, tinha o lema de que não deveriam haver tapinhas nas costas nos fins dos episódios, ou seja, nada de momentos fofos e água com açúcar, para eles tudo o que importava era: isso é engraçado? Então, esqueça romance e lições de moral, o propósito é te surpreender e te fazer rir.

 

Um vídeo-ensaio sobre a filosofia da série

Como assistir: Tentando achar o tom em seus personagens

Ao contrário da maioria das séries de comédia, Seinfeld fica mais engraçada com o passar do tempo. Não só porque a escrita melhora, mas também os atores e até mesmo o orçamento. Larry David tinha muitas diferenças criativas com o canal que sempre colocava rédeas em suas ideias ousadas. Por exemplo, ele queria que a série não fosse filmada com risadas ao fundo,o que hoje é uma realidade não era feito naquela época. Com o sucesso, o canal começou a deixar eles fazerem o que queriam e a liberdade criativa afetou a qualidade de forma muito positiva.

George Costanza é o melhor amigo de Jerry na trama e um dos melhores personagens que existem. O próprio ator do personagem disse acreditar nas primeiras temporadas que seu personagem era uma espécie de Woody Allen, mas quando ele percebeu que o personagem era inspirado em Larry David, tudo ficou mais claro e é possível ver o personagem criar força. George é mentiroso, aproveitador, covarde, neurótico, ansioso e muito engraçado. A série não tinha medo de fazer personagens imorais, mas muito divertidos de acompanhar.

Experiência Seinfeld: exibição em Nova York comemora 30 anos da série

Elaine Benes (Julia Louis-Dreyfus) foi uma revolução na retratação de mulheres na TV. Entrando no enredo no meio da primeira temporada como uma ex de Jerry que se tornou sua amiga, ela surgiu como uma sugestão do canal que achava que a série precisava de uma presença feminina ou de um romance (mas de romance não teve nada). Aos poucos, Benes foi ganhando espaço e se tornando uma das personagens femininas mais irreverentes das séries. Aqui você encontra uma lista com todos os motivos, muitas vezes esdrúxulos, pelos quais Elaine terminou com algum namorado. Não que Elaine seja perfeita, muito pelo contrário e é por isso que ela é tão importante. Uma personagem feminina engraçada, bem escrita e performada é sempre um prazer de assistir.

Kramer (Michael Richards) é o vizinho de Jerry que sempre entra sem bater (essa Friends copiou na cara dura) e é um daqueles personagens de quem você pode esperar qualquer coisa, com um humor bem físico à la Charlie Chaplin e Jim Carrey. Jerry é o ponto central da série, mesmo o Jerry Seinfeld não sendo lá muito bom ator, eles chegam até a fazer algumas piadas sobre isso, ele tem uma perspectiva muito cômica sobre a vida, sempre fazendo piadas e comentários sobre o cotidiano. A série é um prato cheio pra quem gosta de humor observacional.

 

Onde assistir?

A série está no Prime Video por enquanto, mas foi comprada pela Netflix e será exibida no streaming mundialmente a partir de 2021.

 

Aqui vai um vídeo da Carol Moreira pra te convencer de vez a ver a série!

 

*Laize Ricarte é graduanda em Produção Cultural e trabalha como comediante, roteirista e cineasta.

Crítica: Novo thriller adolescente da Netflix imprime qualidade técnica e discurso afiado

Nesta semana, a Netflix lançou uma nova série brasileira. Boba a Boca é um thriller adolescente, criado por Esmir Filho (Saliva). A direção da maioria dos episódios também é sua. Ele divide o posto com a cineasta Juliana Rojas (As Boas Maneiras), que comanda o 1×05 e o 1×06. Em seu resultado geral, a produção entrega um equilíbrio significativo de qualidade, com bons atores, diálogos e discurso. No entanto, é possível, ainda, destacar o seu ápice em sua mise-en-scène e em sua decupagem, sendo elas os elementos que mais se sobressaem.

Desde os primeiros minutos do seriado é possível enxergar a sua estilística e que ela está ali para fomentar o que se deseja contar. O azul e o rosa, por exemplo, são predominantes durante toda a exibição. Isto cria uma espécie de dicotomia, que revela não apenas as dualidades e complexidades das personagens dentro da narrativa, mas também dos papéis impostos pela sociedade. Os enquadramentos e cortes também elevam a potência da história desenvolvida na tela. Os quadros diversificados em uma mesma sequência desnudam as personagens, como quando mesclam planos detalhes com os mais abertos, aumentando esta característica e também o nível de tensão nas relação ali mostradas.

 

Boca a Boca" é a série brasileira da Netflix que traumatiza quem ...

 

Apesar de já se iniciar intensa e com uma dinâmica de simulação de velocidade, a obra consegue criar uma espécie de progressão dentro de sua própria lógica. Em alguns momentos, seja pelos acontecimentos ou como a equipe técnica escolhe fazê-los, o ritmo cai, pois tudo parece frenético, sem respiros. Contudo, isto não compromete o seu resultado total, principalmente porque isto se justifica, em partes, pelos próprios rumos do enredo e daqueles indivíduos que estão inseridos na trama.

Por fim, vale destacar a presença de atores de peso no elenco como Grace Passô (Temporada), Thomas Aquino (Bacurau) e Denise Fraga (De Onde eu Te Vejo). Todos os três intérpretes trazem um trabalho afinado, com criações muito certeiras. Ainda que apareçam em momentos pontuais, a cena cresce diante da presença deles. Entre o trio, o ponto alto é a performance de Fraga. Criando uma Guiomar Araújo que passa ações muito calculadas, através de muito tônus, consciência corporal e espacial, ela vai imprimindo lentamente as fragilidades daquela figura que parece imponente e autoritária no início, mas que vai revelando fragilidades e até retirando certas tensões físicas para aumentar essa multiplicidade na personalidade de Guiomar.

 

Inglês pelo mundo das séries: 8 cidades, 8 sotaques em Sense 8

Umas das perguntas que mais ouço como professora de inglês é: “Você tem sotaque americano ou britânico?”, ao que respondo sem titubear: “Meu sotaque é brasileiro. Mais especificamente baiano, de Salvador”. Claro que do lado de cá dos trópicos a influência americana na cultura que consumimos faz com que meu inglês tenda a soar como o inglês americano a maior parte das vezes, mas com exceção do título da série Sex in the city, não tem quem me faça pronunciar “ciRí” com sotaque americano; aprendi com Ms.Marcela (uma das minhas professoras- inglesa) a falar “ciTí” e assim é até hoje a minha fala.

Das oito cidades onde foram gravadas a série Sense 8,  duas são estadunidenses: aproximadamente 4000km de distância separaram a personagem Nomi (São Francisco) de Will (Chicago), lonjura suficiente para encontrarmos variações linguísticas. Cidade do México (México), Reykyavík (Islândia), Berlim (Alemanha), Mumbai (Índia), Nairobi (Quênia) e Seoul (Coréia do Sul) completam o cenário dos personagens principais. Diferente de mim quando exercia a função de comissária de voo, e diferente da equipe de filmagem da série, que precisava encarar horas de voo entre um país e outro, nesta produção escrita por Lana e Lilly Wachowski e J. Michael Straczynski, ao longo de 2 temporadas, os Sense 8’s (sensitivos) conseguem se transportar de um lugar para o outro pelo que a personagem Riley numa conversa com Nyx, descobre logo no primeiro episódio.

 

Lembra de Sense8? Aprenda 8 expressões e advérbios com a série da ...

 

Veja:

“-Limbic resonance. It’s a language older than our species.(…). It’s a simple molecule present in all living things. Scientists talk about it being part of an eco-biological synaptic network. When people take it, they see their birth, their death, worlds beyond this one. They talk of truth, connection, transcendence.”

[Ressonância límbica. É um idioma mais antigo que nossa espécie (…). É uma molécula presente em todos os seres vivos. Cientistas dizem ser parte de uma rede sináptica ecobiológica. Quando as pessoas têm acesso a essa rede, elas vêem seu nascimento, sua morte, mundos além deste aqui. Eles falam sobre verdade, conexão, transcendência].

Se você está aprendendo a língua inglesa, já assistiu Sense 8 , e não prestou atenção a esse diálogo, (sorry, mas preciso dizer que) você assistiu errado. Sugiro que reveja esse trecho: e não estou falando do conteúdo da conversa! Feche os olhos, ouça o ritmo das palavras, (sobretudo dos personagens que estão por perto de Riley). Se puder, coloque a legenda em inglês e  preste atenção nas palavras onde aparecem palavras com “R”. Na cena que vem logo em seguida, surge a personagem Kala, em Mumbai (Índia), e mesmo para quem está começando agora os estudos da língua inglesa, é possível perceber que o inglês dela é bem diferente do inglês falado na cena anterior; se for preciso, volte algumas vezes, sugiro que acompanhe essa transição de uma cena pra outra…

 

 

Algo que eu não havia dito ainda: o inglês pode variar de sotaque entre pessoas brancas e negras: essa variação linguística é o que chamamos de Black English/ Ebonic English/ Afrikan-American English. Quando Amanita no segundo episódio apresenta sua namorada às suas amigas ela diz “Hey, yall! She’s the one I’ve been talking about”. Esse yall é o mesmo que you all, e é uma abreviação especificamente feita por pessoas negras (dos Estados Unidos). Talvez você não soubesse até agora (tudo bem, Riley também não sabia), mas o inglês junto com o Suaíli, é uma das línguas oficiais do Quênia, e lá eles não usam essa expressão, mas o personagem Capheus traz no encontro com Riley: “Yes, I speak very good English”* [temporada 1 Ep.05]- Ouça como o “R” falado por ele é diferente do falado por Amanita (negra norte americana), e da própria Riley (branca inglesa),  e isso sem falar no sotaque da personagem Sun, de Seul, onde a língua oficial não é o inglês, e que também conta com suas particularidades de inglês como segunda língua… É preciso dissociar de uma vez por todas sotaque de fluência: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. E você, qual o seu sotaque?

 

 

*Sim, eu falo inglês muito bem

 

**Luane Souto é graduanda em letras com inglês, pela Universidade Federal da Bahia, é ex-comissária de bordo e atriz.

 

Crítica: Sob Pressão e suas camadas narrativas e visuais

A série médica brasileira, que é muito conhecida pela maioria por ter sido indicada ao Emmy Internacional, Sob Pressão existe desde 2017 e é derivada de um filme homônimo, que por sua vez é derivado de um livro chamado Sob Pressão: A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro, de Marcio Maranhão. O drama que tem como um dos criadores Jorge Furtado (Saneamento Básico) tem um crescimento exponencial desde seu longa até a terceira temporada e esse sucesso é refletido nos prêmios recebidos e nas apostas de linguagem cada vez mais apuradas, resultado numa possível maior liberdade dos autores para se arriscarem mais.

Para falar da série é importante destacar a relevância do filme para a criação do universo e da construção das personagens que foram posteriormente melhor desenvolvidas. É claro que um longa não dá conta de detalhar a personalidade e os acontecimentos da vida das pessoas retratadas em uma hora e meia, duas horas. Contudo, vemos no filme um cenário básico: médicos do SUS precisam salvar vidas e, em meio a um caos e questões políticas que fragilizam a saúde no Brasil, eles conseguem, ao mesmo tempo lutar pela eficácia proposta pelo Estado, ainda que não consigam dar conta de tudo, há constante falta de materiais.

 

Como será o fim de Sob pressão? | Blog Próximo Capítulo

 

O protagonista, Dr. Evandro (Júlio Andrade), é uma espécie de MacGyver da medicina, fazendo todo tipo de improviso para ajudar um paciente. Ainda no filme, vemos quando o Dr. Evandro conhece a Dra. Carolina (Marjorie Estiano) e como a relação deles surge primeiro de uma admiração e respeito ao trabalho um do outro. Além da relação entre os personagens, cria-se também uma linguagem dentro do filme que reverbera no seriado. O ritmo frenético vivido dentro dos hospitais é traduzido em imagens. Com muitos planos longos e planos sequências, o espectador pode presenciar um mise-en-scène que representa essa urgência de um pronto socorro sem recursos.

Já nas três temporadas de Sob Pressão, temos em seu início uma continuidade na trama deixada pelo longa. Os acontecimentos ocorrem um ano após a entrada de Carolina no hospital e novas personagens são inseridas na narrativa, mantendo os protagonistas e o diretor do local, interpretado por Stepan Nercessian. A produção é cuidadosa e pode-se perceber o preparo da equipe para a construção de uma obra sólida. A começar pela elaboração dos seres que praticamente habitam o hospital e suas linhas narrativas. Durante três temporadas conseguimos acompanhar o desenvolvimento daqueles que possuem mais relevância para as tramas, sem esquecer também de dar tridimensionalidade para as personagens secundárias. Apesar de ter um certo caráter episódico, com o “monstro da semana”, melhor traduzido como os dois pacientes mostrados, há um hibridismo e sempre temos mais conhecimento sobre quem são aquelas pessoas, o que as trouxe ali, suas paixões, segredos, sempre com muita coerência, sem perder elementos plantados seja no filme, seja no seriado.

 

Globo vai produzir mais duas temporadas da série Sob Pressão

 

Essa construção aqui realizada tem seu ganho em optar por trazer do filme os conflitos da primeira temporada. Ainda que quem não tem visto a obra cinematográfica entenda o enredo, é da morte da esposa do protagonista, o passado ainda não desmembrado de Carolina e os conflitos financeiros do hospital que são base para a principal linha que une os episódios. Seja na dualidade entre o ateísmo de Evandro e a religião da personagem de Marjorie, seja nos laços de amizade construídos pelo cotidiano de plantões de mais de 48h ou nos coadjuvantes como o ambulante Barão, o policial Botelho e a hipocondríaca Dercília que compõe quase que o cenário do local, Sob Pressão é exitosa em envolver o público nas histórias. Ninguém está em cena gratuitamente, os arcos são bem delineados ainda quando são simples e é difícil não torcer, vibrar ou até, às vezes, ter a sensação de que estamos ambientados naquele universo tal qual suas personagens. Há um bom equilíbrio também entre as tensões do cotidiano médico e os alívios cômicos, romances, interesses pessoais. Ao contrário de algumas obras estadunidenses que se demoram a resolver conflitos, como House, por exemplo, esta narrativa sempre anda pra frente, encontrando um equilíbrio de ritmo, sem pressa, mas, sem enrolações.

 

Marjorie Estiano é indicada ao Emmy por seu papel em "Sob Pressão ...

 

Contudo, não é só no desenvolvimento da trama e na construção do enredo que o seriado tem mérito. Assim como nos produtos estadunidenses, a televisão tem se preocupado cada vez mais em não só criar tramas que prendam seus espectadores, mas, competir com obras que possuem alta qualidade estética. O padrão técnico visual de Sob Pressão é afinado e tem dois principais elementos que juntos permitem um efeito impactante tanto no sentimento do público que se vê imerso nas situações apresentadas, tanto, para aqueles que entendem mais da linguagem, eles são a decupagem e a montagem. Em cenas de alívio de tensão, como quando surge uma conexão entre duas personagens ou uma família passa por um drama que denomino aqui a grosso modo de ˜drama de versus˜- por exemplo, crença religiosa x a vida de um filho, uma cena onde o filho está cuidando da mãe no leito, etc, temos planos mais clássicos. (ALERTA DE SPOILER!!) Podendo ser, um plano mais aberto, que ambiente o público sem precisar de diálogos para explicar o acontecimento: em uma enfermaria mais vazia, onde tem-se o local mais reservado do hospital, vemos uma adolescente que tentou suicídio inconsciente. Mais distante dela, está o seu pai, que conversa com Carolina para saber as novidades do caso.

O plano aberto nos ambienta do que está ocorrendo.  Vê-se a figura paterna distante, representando uma tradução de sua filha com ele, ao mesmo tempo, conseguimos ver que Carolina está numa posição privilegiada para assistir os fatos que irão se suceder na cena. A garota acorda, depois de um tempo no plano aberto, temos um plano mais fechado, o público pode comprovar a expressão de pânico da adolescente. Em seguida, a menina pula pela janela, novamente em um plano mais aberto onde pode-se ver o pai, Carolina e o salto. Entre o momento do susto e o pulo, um contraplano da reação da personagem de Estiano que, a essa hora já sabemos que sofria assédio em sua infância, e a certeza de que a garota passa pelo mesmo que ela. Nesta cena do segundo episódio da primeira temporada, os diálogos são breves, não há muito o que dizer, a decupagem* fala por si só. O elo narrativo constrói aquele momento de já desconfiança em relação à figura paterna por conta do passado de Carolina, a escolha de planos somente acrescenta, sem redundâncias, a visão da personagem do que acontece em sua frente. A câmera é um reflexo dos sentimentos da médica e as escolhas da sucessão de imagens bem decupadas é um trunfo da montagem que optou por reforçar a sensação de pânico da adolescente somente deixando os planos próximos para ela, sem desprivilegiar as opções da direção de mostrar a vulnerabilidade da menina e a impotência das figuras que poderiam ter a oportunidade de impedir a outra tentativa de suicídio.

 

terceira temporada de Sob pressão | Blog Próximo Capítulo

 

Esse é um dos exemplos da cuidadosa decupagem que é criteriosa e busca expor elementos da história sem diálogos óbvios e didáticos. Até porque, como é um produto para TV aberta, as personagens já passam muito tempo explicando detalhadamente doenças, casos, mensagens de representatividade ou algo do tipo, já há didatismo demais nessa parte. Portanto, os sentimentos, as urgências, a sensação do que se é vivido dentro do hospital é totalmente visual e sonoro. A união entre mise-em-scène e o passeio da câmera pelo hospital também carregam uma intenção da série tanto de mostrar a correria sem fim de um pronto socorro do SUS, mas, a direção também se aproveita disso para nos localizar geograficamente. Da primeira para a segunda temporada, quem acompanha de fato o seriado, já conhece onde ficam as salas de cirurgia, a enfermaria, a porta onde Evandro risca cada paciente que perde.

Os cenários têm histórias e narrativamente o espaço onde as personagens estão são usados para recorrer em temas ou sabe-se que os diálogos mais difíceis com os familiares são perto da escada, próxima a sala de cirurgia. E isso é possível graças aos planos longos onde os atores perfeitamente marcados, conseguem dar um realismo ao que acontece em cena. Já na terceira temporada, no décimo episódio, já quando as personagens estão em outro hospital, o São Tomé, vemos um exemplo de plano sequência orquestrado com maestria. A situação é: a milícia e a policia estão em confronto. O chefe miliciano invade o hospital e obriga Carolina e Evandro a salvarem sua vida. Dividido em três planos sequência (reforçando: com apenas três cortes em mais de uma hora), passeamos energicamente pelo São Tomé desde a primeira cena. A cadência é controlada, no sentido que a temperatura vai crescendo com paciência. Começamos no clássico caminhar da câmera que mostra o que está acontecendo com cada núcleo, todas as tramas que serão desenvolvidas são exibidas.

A câmera começa sem pressa, calma, com planos mais abertos que situam onde está quem, fazendo o que. O hospital está tendo um multirão e muitos pacientes estão presentes.  Entre os match cuts** entre um médico e outro, todo o cenário é “plantado”, a organização espacial é clara. E esse princípio serve, não só para essa consciência de espaço, mas também para nos lembrar e reforçar como estão bem os protagonistas, no auge do casamento, com Carolina esperando um filho. A câmera que estava movimentando-se, não mais anda, ela para, se movendo para vermos com bastante clareza as expressões dos dois. Em seguida, após ambientar, o plano sequência é utilizado para reforça a atmosfera de instabilidade. A chegada do miliciano traz uma urgência e uma pressa na movimentação da câmera. É destacável como há essa mudança. O olhar de um espectador já habituado à série vê dois médicos levando um paciente numa maca. O plano é fluido, podendo nos deixar focados nessa ação. Quando vemos Carolina, ela está para falar com Evandro, que entra na sala de cirurgia, no meio do movimento ela é parada pelo bandido. A fluidez é cortada, a rotina do hospital mudou e agora o ritmo será ainda mais frenético.

 

Sob Pressão | Evandro e Carolina atendem professora agredida por ...

 

Ela quase corre e, ao mesmo tempo, reflete o olhar de Carolina que se preocupa em ser vista. Por isso, ao mesmo tempo que é veloz, o plano mostra que está ao seu redor, horas acompanhando a visão da médica, horas mostrando as ações ao seu fundo. O auge desse momento é quando Carolina entra no elevador e quando ele está prestes a subir, Evandro pede para esperar, mas, termina vendo Carolina indo com o miliciano. A organicidade em que o plano vai do elevador para o rosto do protagonista para a sua subida das escadas reflete o bom posicionamento dos atores e a relação dos mesmos com a câmera, além do reconhecimento do espaço e o possível planejamento e perfeccionismo que um plano sequência bem executado exige.

Os dois episódios citados são somente exemplos primeiros que surgem na mente quando penso na série. Essa que vos escreve percebeu que , talvez, seja uma obra que mereça uma análise de temporadas onde se possa destrinchar mais cada episódio, afinal, há sim uma riqueza narrativa, uma habilidade em saber quais os temas merecem uma visão mais distanciada e uma direção mais contidas e quais os temas jogam a adrenalina do espectador para cima. A união dos episódios formam temporadas concisas e coerentes e um arcabouço total que dá certa curiosidade conferir a Bíblia dessa produção, ver os storyboards e afins.  Termino esse texto lembrando que estamos em tempos de coronavírus e que a próxima temporada deve se passar nesse momento e os médicos do sus mais competentes do país vão ter que lidar com essa pandemia que nos deixa em quarentena. E, nessa quarentena, talvez, uma boa pedida seja maratonar as três temporadas de Sob Pressão, que, apesar de viciante, pede um coração de ferro para resistir a todas as loucuras que  Carolina e Evandro vivem. Até quando vão comprar um colchão…mas, isso já é outro papo.

 

Trailer:

 

 

*Decupagem: o termo se deriva da palavra francesa découpage (recortar), utilizado para traduzir a intenção de dar forma. No cinema, é quando o diretor, com ou sem o diretor de fotografia, divide cada cena em planos e escolhe como cada um deles se conectará com o outro. Ex.: plano aberto para close.

** Chama-se de Match Cut ou Raccord a transição entre um plano e outro, o corte na edição que há uma correspondência entre os dois, no movimento ou temática, criando um link entre ambos.

 

Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

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ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS!

Parece ser uma missão sempre um tanto complicada procurar falar sobre as produções da Netflix que começam promissoras ou até mesmo com certo grau de primor, mas que vão se perdendo e se enrolando em sua própria teia. Este é o caso da série Dark, que chegou ao fim, neste final de semana, com o lançamento de sua terceira temporada. Mais do que com uma ideia boa, pois os dois primeiros anos do seriado são bem elaborados, os elementos técnicos possuíam certo refinamento. Este fator fazia não apenas o interesse para os caminhos da trama ser fomentado a todo momento, como a sua estética acariciava os olhos, seja em sua iluminação que dialogava com o enredo e a personalidade das personagens ou os seus cortes e movimentos de câmera que intensificavam as emoções dos conflitos da história, por exemplo.

Nada disto parece se sustentar agora. Diferentemente do que foi visto em 2019 – e você pode ler a crítica aqui -, há um abismo criativo e uma perda do controle dos roteiristas do próprio universo que eles criaram. Acrescentando uma divisão de dois mundos, o espectador se depara com uma realidade na qual Martha Nielsen (Lisa Vicari) é a protagonista, pareada com a que o público já conhece, na qual Jonas Kahnwald (Louis Hofmann) é o responsável pelos nós e desenlaces dos acontecimentos. É ai que o problema começa. Durante os seis episódios iniciais, a equipe de roteiristas – são vários, que mal se repetem – esgarçam as situações até que elas percam sentido dentro da obra. Em um ciclo sem fim, se acompanha as repetições causadas por Martha e Jonas, enquanto os outros conflitos vão sendo apagados, deixados de lado e, muitas vezes, com a morte sendo usada para causar algum tipo de desfecho.

 

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Por tentar criar emoções onde não existe, pois há uma necessidade de trabalhar e sustentar o que foi previamente elaborado para que o que está sendo mostrado crie qualquer tipo de suspensão, o ritmo se perde. Assim, as tensões são quebradas pela certeza de que, não importa o que aconteça, já se é sabido que algum Jonas ou alguma Martha vai apagar o que foi feito para tentar manter ou destruir o acidente que dá início a tudo. No entanto, o mais tenso, por assim dizer, é quando a solução é revelada e descobre-se a origem de todos os equívocos. Quando a grande revelação é feita é como se toda a construção criada no passado pela equipe fosse simplesmente abandonada. Desta maneira, pouco importa a relação de Charlotte Doppler (Karoline Eichhorn) e sua mãe/filha Elisabeth Doppler (Carlotta von Falkenhayn), por exemplo. Porque, como é apontado por Claudia Tiedman (Lisa Kreuzer), nada daquilo é real. A sensação que resta é a de que tudo é uma brincadeira de criança. Sabe quando alguém grita um “não valeu”? Então! Em Dark, acionam esta “estratégia” e os multiversos são, na verdade, somente uma divisão de um terceiro plano, anulando qualquer tipo de acontecimento com as personagens resultantes deste “bug”, porque elas são uma espécie de falha.

Porém, é importante salientar que no momento de trazer o desfecho para a série, o controle da escrita parece retornar. Ainda que as respostas praticamente anulem dois anos de construção e deixem jogadas de lado figuras que pareciam chave para tal fato, a composição da tensão e a sua amarração fazem com que o seriado volte a sua melhor forma. Os recursos de movimentação de câmera, as idas e vindas temporais e espaciais, os enquadramentos que deixam o clima de dúvida e medo, todos voltam para colocar a narrativa nos trilhos outra vez. Isto porque o jogo de gato e rato entre Jonas e Martha cessa e o encerramento vai tomando forma, sem tentar enganar o espectador para ter mais algumas horas de projeção. Além disto, há a maneira como eles criam as distinções entre as duas realidades através das cores, temperaturas e planos, um ponto alto aqui. Assim como já faziam para demarcar as temporalidades, os locais são exibidos de maneira clara, principalmente por algumas dualidades, como o futuro sombrio e úmido no plano Jonas e o quente e iluminado de Martha.

 

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No final das contas, Dark criou um mundo ficcional com muitas particularidades, cuidado e minúcia em seus dois primeiros anos, mas não soube sustentar isto. Apesar de possuir personagens complexas, com camadas de profundidades, que mereciam ser exploradas, os autores preferiram dar espaço para a cruzada de um ship flodado, desde o seu início, invocando, para tal, situações desconexas que negam as próprias regras pré-estabelecidas, desfazendo os pactos com quem a acompanha. Entre assassinatos, nascimentos e pessoas ressuscitando para simplificar a vida dos roteiristas, a terceira temporada da obra se torna simplória, medrosa e entediante, justamente porque não deixam a história avançar. É como se existisse uma pausa e um pulo para o final, com resoluções fáceis demais para o que antes havia sido oferecido.

 

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